


Todas as Possibilidades
 (Ttulo original: All the Possibilities)
Nora Roberts

Nora Roberts - MacGregors 03


Traduzido e Revisado por Virginia


   Este Livro faz parte de um projeto individual,
   sem fins lucrativos e de fs para fs. A
   comercializao deste produto 
   estritamente proibida.









    CAPTULO I

    Shelby sabia que Washington era uma cidade de contrastes, e era por isso que lhe agradava tanto. Nela, podia-se encontrar desde elegncia e sabor histrico,
se era isso o que procurava, at clubes noturnos de fama obscura e todo o tipo de ambientes. O Capitlio era, sem dvida, o seu corao, dado que se tratava da capital
poltica e administrativa do pas. Washington fervia de atividade, mas no com a agitao despreocupada de Nova York, e sim com uma espcie de precavido e temeroso 
frenesi. Naquele grande centro urbano, nada era seguro, e essa era justamente outra das coisas que agradavam a Shelby. A segurana significava, em sua opinio, complacncia, 
e a complacncia significava aborrecimento. E sua primeira regra de vida era no se aborrecer nunca.
    Georgetown lhe convinha devido a seu distanciamento do centro da cidade. Possua a energia da juventude: a universidade, as lojas, os cafs, os bares que faziam 
desconto nas quartas  noite... Mas ao mesmo tempo ostentava a dignidade de sua idade, com seus venerveis prdios de tijolos vermelhos e janelas brancas. Shelby 
se sentia muito confortvel ali. Sua loja dava para uma de suas clssicas ruas estreitas pavimentadas com pedras, com o apartamento localizado no segundo andar; 
tinha inclusive uma sacada, onde podia se sentar para se refrescar nas noites de vero.
    Shelby Campbell adorava estar e falar com as pessoas. Gostava tanto de conversar com desconhecidos quanto com velhos amigos, e preferia a agitao ao silncio. 
Ainda assim, preferia viver sozinha, j que seus colegas de apartamento na verdade no pertenciam a espcie humana: Nelson, seu gato caolho, e Tia Emma, uma papagaia 
que se empenhava em no falar. Os trs conviviam num ambiente de relativa paz em meio ao caos que Shelby denominava de "seu lugar".
    Trabalhava como ceramista e vendia sua prpria produo. Sua pequena loja, a qual havia batizado com o nome de "Calliope", tinha se transformado num grande sucesso 
durante os trs anos em que funcionava. Havia descoberto que gostava tanto de tratar com seus clientes quanto de sentar-se em frente ao torno com uma massa de barro 
nas mos e deixar a imaginao voar. A papelada era, ao contrrio, uma constante fonte de molstias, ainda que para o carter otimista de Shelby, at as molstias 
davam seu sabor  vida. Em todo caso, para estupor de sua famlia e assombro de muitos amigos, tinha comeado um negcio, e tinha obtido xito.
    Fechava a loja s seis. Desde o comeo Shelby havia tomado a deciso de no trabalhar alm daquele horrio; naquela noite, contudo, tinha uma obrigao impretervel. 
Depois de apagar as luzes, foi para o andar de cima. O gato, que at ento estivera comodamente encarapitado no parapeito da janela, se espreguiou para se aproximar 
dela; a volta de Shelby sempre indicava que o jantar estava prximo. A lora, por sua vez, agitou as asas a guisa de saudao.
    - Como vai tudo? - perguntou, enquanto acariciava Nelson atrs das orelhas, onde ele mais gostava - Sim, agora mesmo te dou de comer.
    Emitiu uma exclamao de desgosto ao entrar na cozinha para dar de comer ao gato. Havia prometido a sua me que compareceria  festa que o congressista Write 
estava oferecendo em sua casa, e no podia faltar. Provavelmente Deborah Campbell era a nica pessoa a quem Shelby jamais poderia negar nada. 
    Shelby era muito apegada a sua me. s vezes as pessoas mesmo as tomavam por irms, apesar de seus vinte e cinco anos de diferena. As duas tinham a mesma cor 
de cabelo, de um tom vermelho brilhante, embora Deborah o usasse curto e liso, enquanto sua filha preferia conserv-lo longo e com seu cacheado natural. Shelby havia 
herdado de sua me sua figura esbelta e seus grandes olhos cinza-esfumaados. Tinha um rosto fino, com as mas acentuadas, o que lhe dava certo aspecto desamparado, 
como a vendedora de flores do conto de Dickens.
    Mas se de sua me havia herdado os traos fsicos, sua personalidade era uma criao prpria. No precisava se propor ser audaz ou extravagante: simplesmente 
o era. Havia nascido e se criado em Washington, assim que os acontecimentos polticos haviam marcado a sua infncia: as ausncias de seu pai durante vrias semanas 
por ano em poca de eleio, os eventos sociais no mundo da alta poltica... tudo isso havia feito parte de seu passado. Os filhos do senador Campbell tinham desempenhado 
um papel muito importante na imagem de seu pai. Uma imagem que havia se esforado em vender, para chegar at a Casa Branca, e que em grande parte correspondia exatamente 
com a realidade. Seu pai tinha sido um homem bondoso, trabalhador, carinhoso. O que no o havia livrado de perecer assassinado nas mos de um louco, quinze anos 
atrs.
    Foi ento que Shelby se convenceu de que havia sido a poltica o que realmente matou seu pai. Com apenas onze anos tinha compreendido que a morte chegava para 
todo mundo, porm para Robert Campbell havia chegado cedo demais. E se tinha atingido a ele, que ela sempre acreditara ser invulnervel, o mesmo poderia ocorrer 
a qualquer um, e em qualquer momento. Com todo o fervor da adolescncia, Shelby havia decidido desfrutar de cada instante de sua vida e aproveit-la ao mximo, e 
desde ento nada a tinha feito mudar de opinio. Assim que, pela ensima vez, se disps a aplicar esse princpio seu ao que tinha que fazer essa noite: compareceria 
a festa que o congressista Write oferecia em sua manso do outro lado do rio, e encontraria l algo que a divertisse ou interessasse. Nem por um s instante duvidou 
de que tivesse xito.
    
    Shelby chegou tarde, apesar disso no ser nenhuma novidade. No era por falta de pontualidade, ou por necessidade de chamar ateno. No. Sempre chegava tarde 
porque nunca terminava de fazer algo com a rapidez com que previa que iria fazer. De qualquer modo, e para sua sorte, a manso estava to cheia de gente que sua 
chegada tardia passou despercebida.
    A sala era to grande quanto o apartamento de Shelby, e duas vezes mais larga. Estava decorada em tons cinzentos e cremes, com excelentes aquarelas de paisagens 
francesas penduradas nas paredes. Shelby no desgostou do ambiente, ainda que nunca poderia ter vivido em lugar semelhante. O que realmente lhe agradava era seu 
odor: tabaco, colnias e perfumes mesclados. Era o aroma de gente e das festas. As conversas eram as tpicas da maior parte das festas desse tipo: roupas, campeonatos 
de golfe, outros eventos sociais... porm com elas se entremeavam murmrios sobre ndices macroeconmicos, a atual poltica externa dos Estados Unidos ou a ltima 
entrevista concedida pelo Secretrio do Tesouro  imprensa...
    Shelby conhecia a maior parte dos presentes. E conseguiu no se ver encurralada por nenhum deles a fora de sorrisos e rpidas saudaes, enquanto abria caminho 
habilmente at o buf. A comida era uma das coisas que levava mais a srio. Depois de comer vrios canaps decidiu que a noite no seria to terrvel, depois de 
tudo.
    - Caramba, Shelby, eu nem sabia que estava aqui. Me alegro muito em v-la. - Carol Write, destilando elegncia com seu vestido de linho malva, havia deslizado 
rapidamente entre a multido, sem derramar uma s gota de xerez.
    - Cheguei tarde. - explicou Shelby, desculpando-se - Tem uma casa linda, sra. Write.
    - Obrigada, Shelby. Ficaria encantada em mostr-la a voc mais tarde, se conseguir escapulir um momento. Como vo as coisas na sua loja?
    - Estupendas. Espero que o congressista Write esteja bem.
    - Oh, sim. Certamente vai querer v-la. Ficou encantado com aquela urna que voc fez para o seu escritrio. No pra de me dizer que  o melhor presente de aniversrio 
que j lhe dei. Bem, agora voc tem que se misturar com os demais - segurou-a suavemente pelo cotovelo - No sei de ningum melhor que voc em relaes pblicas. 
Evidentemente, conhece a maioria das pessoas, porm... Ah, a est Deborah. Deixo voc com ela.
    Aliviada, Shelby voltou ao buf.
    - Ol, mame.
    - Estava comeando a achar que no viria. - Deborah fitou detidamente a filha, admirada de como lhe assentava bem a saia colorida e a blusa de estilo campons. 
Com aquela roupa estava to elegante como a dama melhor adornada da festa.
    - Eu prometi, no? - respondeu, e desviou o olhar para a mesa do buf - A comida  melhor do que havia esperado.
    - Shelby, por favor, esquea seu estmago. - se disps a abra-la, carinhosa - No sei se notou, mas h muitos jovens atraentes por aqui.
    - Ainda no desistiu de me casar? - inquiriu enquanto a beijava na bochecha - J quase a tinha perdoado pelo pediatra com quem tentou me amarrar.
    - Era um jovem muito agradvel.
    - Mmmm. - Shelby decidiu no comentar que aquele jovem to "agradvel" parecia ter seis pares de mos.
    - A nica coisa que queria era que fosse feliz...
    - Voc  feliz? - provocou com um brilho malicioso nos olhos.
    - Sim. - respondeu Deborah, surpresa - Claro que sou.
    - E quando vai se casar?
    - Eu j fui casada. - lembrou-a com leve tom de tristeza - E tive dois filhos...
    - Que te adoram. - interrompeu Shelby - E eu tenho duas entradas para a apresentao de bal do Centro Kennedy da semana que vem. Quer me acompanhar?
    A ligeira expresso de tristeza sumiu repentinamente do rosto de Deborah. No pde deixar de se perguntar quantas mulheres teriam uma filha capaz de exasper-la 
e enternec-la ao mesmo tempo.
    - Uma maneira muito inteligente de mudar de assunto. Eu adoraria.
    - Poderamos jantar primeiro? - perguntou Shelby a sua me, antes de voltar-se sorridente para um jovem recm-chegado - Ol, Steve. - e completou, apalpando 
seus braos musculosos - Tem estado fazendo exerccios, no?
    Deborah observou como sua filha derramava encanto com o ajudante do Secretrio de Imprensa, antes de se aproximar para cumprimentar outro conhecido. Na hora 
de conversar e se mover entre as pessoas, ningum aproveitava tanto como Shelby. Mas ento, por que evitava com tanto empenho os compromissos emocionais? Se tivesse 
evitado apenas o casamento, Deborah teria entendido e aceitado, porm suspeitava que se tratava de algo mais. Algo mais profundo.
    Durante os ltimos quinze anos havia sido testemunha dos esforos de sua filha para afastar qualquer dor emocional. E sem dor, no podia existir plena satisfao. 
Ainda assim... suspirou ao ver Shelby rir descontrada em meio ao grupo que havia criado ao seu redor. Ainda assim Shelby era to vivaz, to radiante... Quem sabe 
estivesse se preocupando desnecessariamente. A felicidade era algo muito pessoal.
    Alan observava aquela mulher cuja cabeleira parecia uma labareda e que se vestia como uma princesa cigana. Podia escutar seu riso flutuando na sala, sensual 
em vez de inocente. Sim, tinha um rosto interessante, de uma beleza muito especial. Perguntou-se que idade teria. Dezoito anos? Trinta? Destoava do ambiente daquela 
festa. Seu vestido no procedia das seletas lojas que freqentava a classe poltica de Washington, e seu penteado to pouco havia sido elaborado por um sofisticado 
esteticista. E sem dvida, se encaixava. Apesar de seu ar de Nova York ou Los Angeles, aquela mulher se encaixava ali. Quem...?
    - Ora, senador... - o congressista Write deu uma amistosa palmada nas costas de Alan - me alegro em v-lo fora da arena poltica. Receio que nunca conseguimos 
afast-lo dela durante muito tempo.
    - Um whisky escocs estupendo, Charlie. - comentou, erguendo seu copo  guisa de brinde - Vejo que nenhum detalhe te escapa. - sabia que Write havia escolhido 
bem o tipo de whisky, j que estava a par de seus antecedentes escoceses.
    - Infelizmente, isso no  o bastante. Voc queima muito as pestanas, Alan.
    Alan sorriu. Em Washington, ningum se movia sem que todo mundo se inteirasse.
    - Parece que existem muitas coisas para se preocupar nesse momento. 
    Assentindo com a cabea, Write tomou um gole de whisky.
    - Gostaria de saber a sua opinio sobre a lei Breiderman, que ir a trmite na semana que vem.
    Alan o fitou com expresso tranqila, consciente de que Write era um dos mais firmes defensores daquela lei.
    - Sou contra. - declarou francamente - No podemos consentir mais cortes nos fundos de educao.
    - Bem, Alan, voc e eu sabemos que as coisas no so nem brancas nem pretas.
    - Porm s vezes as zonas cinzentas so extensas demais... e ento o melhor  voltar ao evidente, ao bsico. - no tinha vontade de discutir poltica. E Alan 
MacGregor era um poltico hbil o suficiente para se esquivar das perguntas que no queria responder - Sabe? Acreditava que conhecia todo mundo aqui - percorreu 
a sala com o olhar - Porm, aquela mulher que parece uma mistura da cigana Esmeralda e Heidi... Quem ?
    Intrigado com sua descrio, Write seguiu a direo do seu olhar.
    - Oh, no me diga que no conhece Shelby! - exclamou, sorrindo - Quer que os apresente?
    - Acho que me apresentarei eu mesmo. - murmurou Alan - Obrigado.
    E se afastou at seu objetivo, deslizando entre os grupos, e detendo-se quando se via obrigado a faz-lo. Como Shelby, fora feito para as multides. Apertos 
de mo, sorrisos, a palavra adequada no momento adequado, uma boa memria para fisionomias. Algo imprescindvel para um homem cuja profisso dependia do capricho 
das pessoas tanto quanto de seu prprio talento. E talento no lhe faltava.
    Alan conhecia muito bem as leis.  Estava familiarizado com todas as suas matizes e ngulos, embora ao contrrio de seu irmo Caine, tambm advogado, se vira 
mais atrado pela prtica da poltica do que pela aplicao do direito aos casos individuais. Era a viso do conjunto que o fascinava. A poltica havia cativado 
sua imaginao na universidade, e continuava fazendo-o, aos seus trinta e cinco anos. Depois de ter ganhado uma cadeira de congressista na eleio anterior, e atualmente 
com outra de senador, desfrutava explorando suas infinitas possibilidades.
    - Est s, Alan? - perguntou-lhe em certo momento Myra Ditmeyer, esposa de um juiz do Supremo Tribunal.
    Sorrindo, Alan beijou as faces da amiga ntima da famlia.
    -  uma oferta?
    - Oh, que diabinho voc ! - comeou a rir - Vinte anos, destruidor de coraes escocs. Com vinte anos menos, voc j veria do que sou capaz... - olhou-o sorridente 
- Como  que no o vejo essa noite de brao dado com uma dessas modelos s quais  to aficionado?
    - Esperava convenc-la a passarmos o fim de semana em Puerto Vallarta.
    Nesse momento, Myra cravou um em seu peito, sem deixar de rir.
    - Te satisfaria encantada, se pensasse que est falando srio. Est muito convencido de que no aceitaria. - suspirou - E desgraadamente,  verdade. Temos que 
procurar uma mulher realmente perigosa para voc, Alan MacGregor. Um homem da sua idade e ainda solteiro... - estalou a lngua - Os norte-americanos gostam dos presidentes 
casados e felizes, querido.
    - Agora est falando como meu pai. - o sorriso de Alan se ampliou.
    - Esse velho pirata... - ofegou Myra, porm um brilho de diverso surgiu em seus olhos - Ainda assim, deveria seguir meu conselho. Para ter xito na poltica, 
tem que estar casado.
    - Deveria ento me casar em prol da minha carreira?
    - No tente bancar o esperto comigo. - replicou Myra, percebendo que desviava o olhar ao escutar um riso deliciosamente melodioso... e muito familiar: o de Shelby 
Campbell. Aquilo estava ficando interessante. - Estou pensando em dar uma festa em casa na semana que vem. - informou, tomando a deciso de repente - Apenas para 
uns poucos amigos. Minha secretria ligar para o seu escritrio, para dar os detalhes. - e depois de lhe dar uma carinhosa palmadinha no rosto, se afastou para 
um lugar estratgico, de onde poderia observar a cena.
    Ao ver que Shelby se separava do grupo com o qual estivera conversando, Alan se encaminhou para ela. Conforme se aproximava, a primeira coisa que notou foi seu 
aroma. Era mais uma aura que um perfume: absolutamente inesquecvel. Shelby tinha se inclinado em frente a uma vitrine, com o nariz quase grudado ao vidro.
    - Porcelana chinesa do sculo dezoito. - murmurou, percebendo que algum havia se aproximando por trs - Espetacular, no ?
    Alan observou a cermica que tanto parecia fascin-la, antes de concentrar o olhar em sua maravilhosa cabeleira vermelha.
    - Certamente chama a ateno.
    Shelby olhou por cima do ombro e sorriu. Era um sorriso to encantador e inesquecvel quanto seu aroma.
    - Ol.
    - Ol. - Alan estreitou a mo que ela estendia... uma mo forte, que contrastava com seu aspecto. Ajudou-a a se levantar.
    - Tinha me distrado do meu objetivo. Pode me fazer um favor?
    Alan ergueu as sobrancelhas. Tinha uma maneira curiosa de falar, mescla de educao universitria e fala coloquial da rua.
    - De que se trata?
    - Simplesmente de que fique onde est. - com um rpido movimento, Shelby se aproximou um instante de mesa de buf e comeou a servir um prato - Cada vez que 
me ponho a fazer isso, vem algum e me interrompe. No tive tempo de jantar antes de vir. Pronto. - satisfeita, voltou a se reunir com Alan, e o pegou pelo brao 
- Vamos sair para o terrao. 
    Soprava uma ligeira brisa com um aroma de lavanda. A luz da lua iluminava o gramado recm aparado. De onde estavam, podiam ver um grande salgueiro, com seus 
galhos derramando-se sobre o cho de pedra. Com um suspiro de puro prazer sensual, Shelby levou um camaro at a boca. Pouco depois, com o olhar fixo na comida, 
murmurou estranhada.
    - No sei o que  isto. Prove voc e me diga. - recolheu com um dedo um pouco de comida e o aproximou de seus lbios.
    Intrigado, Alan no vacilou em prov-lo.
    - Pat de castanhas.
    - Mmmm.  mesmo. Me chamo Shelby. - se apresentou enquanto deixava o prato sobre uma mesa de vidro e se sentava.
    - Eu sou Alan. - um sorriso bailou em seus lbios quando se sentou ao seu lado. Mais uma vez se perguntou de onde teria sado aquela deliciosa criatura, e decidiu 
que adoraria dedicar todo o tempo possvel a averiguar - Vai partilhar esse prato comigo?
    Shelby o observou enquanto refletia sobre sua resposta. J o tinha notado antes, talvez por sua elevada estatura e por sua figura atltica, algo que no se via 
com freqncia nesse tipo de festa. Via-se corpos bem cuidados  base de dietas e exerccios, mas o daquele homem era quase como o de um nadador profissional, esbelto 
e poderoso. Seu cabelo negro e seus olhos escuros lhe lembravam um personagem das novelas de Emily Bronte; Heatchcliff ou Rochester, no estava certa.
    - Claro, voc ganhou o direito. O que est bebendo?
    - Whisky,  claro.
    - Sabia que poderia confiar em voc. - Shelby pegou seu copo e deu um gole; por cima da borda, seus olhos pareciam sorrir-lhe, enquanto a brisa brincava com 
seu cabelo. Por um instante pareceu um elfo a ponto de se desvanecer.
    - O que est fazendo aqui? - perguntou Alan.
    - Presso maternal. - respondeu - J experimentou alguma vez?
    - Bom, - sorriu - no meu caso est mais para presso paternal.
    - No creio que haja muita diferena. - respondeu Shelby, com a boca cheia - Vive em Alexandria?
    - No, em Georgetown.
    -  mesmo? Onde?
    A luz da lua se refletia em seus olhos, revelando o mais puro tom de cinza que Alan havia visto em sua vida.
    - Em P Street.
    -  curioso que nunca tenhamos nos encontrado. Minha loja fica muito perto dali.
    - Tem uma loja?
    - Sou ceramista.
    - Ceramista. - num impulso Alan segurou-lhe a mo e virou a palma para examin-la. Era uma mo pequena e fina, de dedos longos e unhas curtas, sem esmalte. - 
 boa?
    - Sou magnfica. - pela primeira vez desde que podia se lembrar, Shelby teve que dominar o impulso de romper aquele contato - Voc no  de Washington. Nova 
Inglaterra?
    - Massachusets. Parabenizo-a por sua capacidade de reconhecer um acento. - percebendo uma certa resistncia, Alan lhe reteve a mo enquanto beliscava um pouco 
de comida do prato.
    - Ah, a marca de Harvard permanece. - pronunciou ela com certo desdm na voz - No, mdico no. - especulou enquanto entrelaava os dedos com os dele. Aquele 
contato estava se tornando cada vez mais agradvel. - No tem as palmas das mos to finas como as de um mdico. Artes, letras?
    - Direito. - pronunciou Alan, e em seguida detectou uma ligeira surpresa em seus olhos - Decepcionada?
    - Surpresa. Embora suponha que a culpa seja de meus preconceitos sobre os advogados. Para mim, tm papada e usam culos de tartaruga. No acha que o direito 
seja uma matria que est associada com coisas muito... comuns?
    - Tais como homicdio? Ou os delitos que implicam violncia?
    - Isso no  algo comum, afortunadamente. - explicou Shelby, enquanto tomava outro gole de whisky - Suponho que me referia aos interminveis trmites da burocracia. 
Tem idia da quantidade de formulrios que tenho que preencher para vender minhas peas? Logo, algum tem que ler todos esses formulrios, outra pessoa tem que preench-lo, 
e outra mais envi-los no momento adequado. No seria mais simples que me deixassem vender minha pea e ganhar a vida em paz?
    -  difcil quando se lida com milhes. - respondeu Alan, enquanto continuava acariciando-lhe a mo, brincando com o anel em seu dedo - Sem essa papelada nem 
todo mundo aceitaria manter um equilibrado balano de contas, ningum pagaria impostos e o pequeno comerciante no gozaria de maior proteo que o consumidor. 
    -  difcil de acreditar que preenchendo meu nmero de seguro social por triplicado se consiga tudo isso. - seu toque j estava distraindo-a demais, porm quando 
o viu sorrir, Shelby decidiu que aquele era o homem mais irresistvel que jamais havia conhecido.
    - A burocracia sempre foi algo necessrio.  - por um instante Alan se perguntou o que estava fazendo ali mantendo aquela conversa com uma mulher que parecia 
sada de um conto de fadas, e que cheirava to maravilhosamente bem.
    - O melhor das regras  a infinita variedade de formas que existem de romp-las. - riu Shelby.
    De repente chegou at eles, atravs de uma janela aberta, uma voz enrgica e autoritria:
    - Pode ser que Nadonley tenha posto a prova as relaes entre os Estados Unidos e Israel, mas com sua atual poltica no est ganhando muitos amigos.
    - E sua aparncia antiquada e de to pouco gosto no o favorece em nada. 
    - Tpico. - murmurou Shelby, franzindo o cenho - A roupa e a aparncia externa tm tanto peso na poltica quanto s idias... provavelmente at mais. Se voc 
usa um traje escuro e camisa branca,  um conservador. E o suter de cashemir e os mocassins definem um liberal.
    Alan j tinha ouvido esse tipo de comentrio sobre a sua profisso, e sempre os havia ignorado. Porm nessa ocasio no pde evitar se sentir incomodado.
    - Tem uma ligeira tendncia a simplificar demais as coisas, no acha?
    - S com aquilo que me esgota a pacincia. - reconheceu despreocupada - A poltica sempre foi um enfadonho subproduto da sociedade, desde que Moiss discutia 
com o fara.
    Alan sorriu de novo. Porm, Shelby no o conhecia o bastante para se dar conta de que, na verdade, era um sorriso de desafio.
    - Ento voc deprecia todos os polticos.
    -  uma das poucas generalizaes que ouso fazer. Sempre achei particularmente terrvel que um punhado de homens possam ter o mundo em suas mos. De modo que... 
- encolhendo os ombros, deixou o prato de lado - ... adquiri o costume de fingir que realmente posso exercer o controle sobre o meu prprio destino. - se inclinou 
para ele, admirando seus traos iluminados pela lua, e se viu assaltada pela tentao de desenhar seus contornos com um dedo - Quer voltar?
    - No. - Alan deixou que seu polegar traasse lentos crculos sobre seu pulso. Podia sentir a rpida acelerao de sua pulsao. - A verdade  que no havia 
me dado conta do quanto estava me aborrecendo, at que sa para o terrao com voc.
    - Esse  o melhor dos elogios. - sorriu Shelby com expresso radiante - Sua famlia no  irlandesa, ?
    Alan negou com a cabea, sem poder evitar se perguntar que gosto teriam aqueles pequenos lbios de aspecto to delicioso.
    - Escocesa.
    - Deus meu, a minha tambm! - um estremecimento lhe percorreu a pele - Estou comeando a acreditar no destino. E esse  um conceito com o qual nunca me senti 
confortvel.
    - Por acaso tem medo de no poder controlar o prprio destino? - cedendo a um estranho impulso, levou sua mo at os lbios.
    - Prefiro pensar a observar, adotar uma atitude passiva.  o senso prtico dos Campbell.
    Nesse momento foi Alan quem comeou a rir, divertido.
    - Pelas velhas rixas - pronunciou, erguendo o copo num brinde - Indubitavelmente nossos antepassados deviam destruir uns aos outros em meio ao estrondoso som 
das gaitas. Eu sou do cl MacGregor.
    - Meu av... - sorriu Shelby - teria me colocado a po e gua se me visse falando com voc. Um maldito e condenado MacGregor... - porm, a seguir, completou 
em voz baixa e sria - Alan MacGregor... senador por Massachusets.
    - Culpado.
    - Uma pena. - sorriu enquanto se levantava.
    Mas Alan no lhe soltou a mo, e se levantou tambm.
    - Por que isso? - perguntou.
    - Sim, sem dvida que teria angariado a fria de meu av. Eu no saio com polticos.
    -  mesmo? - Alan baixou o olhar at seus lbios - Essa  uma das regras de Shelby?
    - Sim. Uma das poucas que tem.
    Sua boca era maravilhosamente tentadora, porm a diverso que podia ver em seus olhos era um verdadeiro desafio. Em vez de retroceder, levou sua mo aos lbios 
e beijou-lhe o pulso, sem deixar de encar-la.
    - O melhor das regras... - pronunciou, repetindo a frase que ela mesma havia formulado antes -  a infinita variedade de formas que existem de romp-las.
    - Est me fazendo provar de meu prprio remdio. - murmurou Shelby enquanto retirava a mo. Aquilo era ridculo. Era ridculo se sentir to comovida por um gesto 
to antiquado de galanteria. Porm havia uma expresso naqueles olhos castanhos que lhe dizia que havia feito aquilo tanto para satisfaz-la, quanto para satisfazer 
a si mesmo. - Bom, senador, - completou, com a voz j mais firme - passe bem. Tenho que voltar para dentro.
    Alan a deixou chegar quase at a porta antes de voltar a falar.
    - At a prxima, Shelby.
    -  uma possibilidade. - Shelby se deteve para olh-lo por sobre o ombro.
    - Uma certeza. - ele a corrigiu.
    Shelby estreitou os olhos. Alan permanecia de p ao lado da mesa de vidro, sua silhueta recortada pela luz da lua: alto, sombrio, mais atraente do que nunca. 
Sua expresso era muito tranqila, mas ainda assim, Shelby teve a sensao que ao menor convite seu, seria capaz de lanar-se sobre ela e estreit-la em seus braos. 
O que constitua um estmulo a mais para tent-lo. E seu sorriso era especialmente irritante, sobretudo porque a fazia desejar retribu-lo.  Sem pronunciar mais 
nenhuma palavra, abriu a porta e regressou para a sala.
    Com esse gesto, pensou, havia posto um fim quilo tudo.
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    CAPTULO II
    
    Desde o comeo. Shelby havia contratado um ajudante para a loja em meio perodo, a fim de poder desfrutar de algum tempo livre por semana, quando precisasse, 
ou dedicar mais tempo  elaborao de suas peas. Foi assim que conheceu Kyle, um poeta em apuros de horrio flexvel e temperamento que se ajustava muito bem ao 
seu. Trabalhava de maneira fixa s quartas e aos sbados, e ocasionalmente sempre que o chamava. Em troca, Shelby lhe pagava bem e ouvia e tecia comentrios sobre 
seus poemas: o primeiro nutria seu corpo, e o segundo, seu esprito.
    Embora reservasse muitos sbados para trabalhar no torno, Shelby teria estranhado que algum a qualificasse de disciplinada.  Continuava pensando que se trabalhava 
tanto era porque queria, porque tinha escolhido assim, e no porque se deixasse levar por alguma rotina. Contudo, nem sequer ela mesma tinha conscincia do quanto 
aqueles sbados sentada em frente ao torno significavam para sua vida. Seu ateli estava situado nos fundos da loja. Duas das paredes estava cobertas por slidas 
estantes, com peas que esperavam a sua vez de serem levadas ao forno. Havia filas e filas de cermicas esmaltadas, de todas as cores, e diversos tipos de ferramentas. 
E dominando a parede do fundo, havia o grande forno, fechado naquele momento.
    Como as janelas estavam abertas e o espao no era grande, a alta temperatura do forno mantinha um agradvel calor no ateli. Para trabalhar no torno, Shelby 
usava camiseta e calas curtas, com um avental para se proteger dos salpicos do barro. Havia duas janelas que davam para a rua. Tinha sempre o rdio ligado. Cada 
dia, com o cabelo preso numa longa trana, se sentava diante do torno com uma massa de argila entre as mos. Talvez fosse essa a parte de seu trabalho de que mais 
gostasse: pegar um pedao de barro e model-lo com seu talento e imaginao. Talvez acabasse transformado numa tigela ou num vaso, achatado ou esbelto, de superfcie 
lisa ou rugosa. Ou numa urna na qual aplicaria umas asas. Possibilidades. Eram as infinitas possibilidades o que realmente fascinava Shelby. O esmalte e a pintura 
apelavam em troca a outro aspecto de sua natureza. Era um trabalho de preciso, to criativo quanto difcil, que sempre constitua um verdadeiro desafio.
    Com as mos nuas podia amassar e modelar  vontade um pedao disforme de barro. Shelby tinha conscincia de que as pessoas faziam isso freqentemente com as 
outras, e com as crianas em particular. A idia no lhe agradava e ela preferia projetar essa necessidade do seu esprito na argila. Preferia que as pessoas no 
fossem to maleveis: os moldes eram feitos para a matria morta. Qualquer pessoa que se encaixasse num molde pr-fixado, era como se j tivesse deixado de viver. 
    Naquele momento havia terminado de amassar a argila. Estava mida e fresca, e tinha a consistncia adequada. O torno esperava. Com ambas as mos, apertou o barro 
enquanto a roda comeava a girar. E pouco a pouco comeou a sentir como ia tomando forma sob seus dedos.
    Absorta em sua tarefa, continuou trabalhando. O rdio tocava num canto. O barro girava sem parar, cedendo a presso de suas mos, rendendo-se s implacveis 
exigncias de sua imaginao. Formou um anel de grossas paredes, pressionando com um dedo no centro, at conseguir criar, muito lentamente, um cilindro. Podia achat-lo 
e transform-lo num prato, ou abri-lo em forma de tigela: o que quisesse. Era ela quem estava no comando. Suas mos dominavam aquela argila com a mesma segurana 
com que sua prpria criatividade a dominava. Sentia a necessidade de modelar uma forma rotunda e elegante. No fundo de sua mente descansava uma poderosa imagem de 
masculinidade... algo de linhas limpas e finas, de sutil elegncia. Comeou a abrir o barro com dedos seguros. Concebeu fazer um vaso grande, de paredes grossas, 
com a forma de uma jarra grega, porm sem asas. Minutos depois o desenho j no estava somente em sua cabea, mas sim no que estava criando.
    Podia imagin-lo pintado com um esmalte verde jade com reflexos metlicos. Sem desenho de pintura nem adornos nas bordas: aquele vaso se definiria apenas por 
sua forma e por sua poderosa solidez. Quando terminou de model-lo e parou a roda, estudou-o com ateno e olho crtico antes de coloc-lo na estante das peas para 
secar. No dia seguinte voltaria a coloc-lo sobre a roda, porm para o polir com suas ferramentas, eliminando as rebarbas e defeitos que pudesse ter. Sim, decidiu: 
o esmalte que aplicaria seria verde jade.
    Com gesto ausente, arqueou as costas e flexionou os msculos. Tomaria um bom banho quente antes de sair para se reunir com seus amigos naquele bar que acabavam 
de abrir na M Street. Com um suspiro de cansao em vez de satisfao, se voltou. E ento estacou, sem flego.
    - Estou admirado. - comentou Alan MacGregor - J sabia a forma que iria dar ou te ocorreu enquanto o modelava?
    Shelby estava assombrada. Porm, ainda assim no fez o que seria de se esperar: perguntar o que ele estava fazendo ali, ou como havia conseguido entrar.
    - Isso depende. - pronunciou, arqueando uma sobrancelha.
    No estava menos surpreso por v-lo vestido com jeans e suter esportivo. O homem que conhecera na noite anterior havia parecido refinado e formal demais para 
usar esse tipo de roupa. Seus trajes eram caros, porm no novos. Evidentemente no era uma pessoa que se preocupasse demais com sua riqueza, ou que fizesse ostentao 
dela.
    Alan permaneceu imutvel durante seu escrutnio. Fazia muito tempo que se acostumara a estar permanentemente sob o olhar do pblico. Pensou at que Shelby tinha 
todo o direito de olh-lo dessa maneira, j que durante a ltima meia hora ele no fizera outra coisa seno olh-la.
    - Suponha que deveria dizer que estou surpresa por v-lo aqui, senador MacGregor...  - adotou um zombeteiro tom formal - ... sobretudo porque realmente estou. 
E porque imagino que era essa a sua inteno ao vir.
    Alan assentiu com a cabea, concedendo-lhe tacitamente a razo.
    - Trabalha duro. - comentou, baixando o olhar para suas mos cobertas de barro - Sempre pensei que os artistas devem queimar tanta energia quanto os atletas. 
Gosto da sua loja.
    - Obrigada. - como sabia que o cumprimento tinha sido sincero, Shelby sorriu apesar de si mesma - Veio dar uma espiada?
    - De certa forma, sim. - Alan dominou o impulso de voltar a admirar suas pernas. Eram muito, muito mais longas do que havia imaginado. - Parece que cheguei bem 
na hora de fechar. Seu ajudante me encarregou de te dizer que j fechou a loja.
    - Oh - Shelby nunca usava relgio quando trabalhava - Bem, um dos benefcios de se ter um negcio prprio  que pode abri-lo e fech-lo quando bem entender. 
Se quiser, pode sair e dar uma olhada por a enquanto me lavo.
    - A verdade  que... - estendeu uma mo para acariciar-lhe a trana - ... tinha pensado que poderamos jantar juntos. Voc ainda no comeu.
    - No, no comi. - respondeu Shelby, ainda que ele no tivesse formulado nenhuma pergunta - Porm no vou jantar com o senhor, senador.  - voltou ao seu zombeteiro 
tom formal - Se interessa por cermica? Prefere a de estilo oriental?
    Alan se aproximou ainda mais.
    - Poderamos comer aqui. - sugeriu, acariciando-lhe a nuca - Me adapto a qualquer circunstncia.
    - Alan - Shelby emitiu um suspiro exagerado, numa tentativa de dissimular a agitao que sentia - Dada a sua profisso, sabe muito bem o que significa a poltica. 
A poltica externa, oramentria, de defesa... - incapaz de resistir, se espreguiou sensualmente sob sua carcia. A tenso anterior de seus msculos havia desaparecido 
por completo - E ontem eu j expliquei muito bem qual era a minha poltica.
    - Bem, ento no deveria haver nenhum problema. - Alan sabia que o tom brusco de sua voz respondia a sua necessidade de combater a atrao e vulnerabilidade 
que sentia por dentro - Suponho que me considera inteligente o bastante para no ter que se repetir - quase distraidamente foi aproximando-a mais de si - E  muito 
comum revisar todo o tipo de polticas de vez em quando.
    - Quando o fizer com a minha, eu o avisarei...
    Para det-lo, pousou a mo em seu peito, e s ento os dois lembraram de que estava suja de barro. Comearam a rir ao ver a clara marca de sua mo no suter 
de Alan, bem no centro.
    - Isto - disse ela, apontando a mancha - causaria furor como ltima moda. Deveramos patente-lo rpido. Tem algum contato?
    - Uns poucos - Alan baixou o olhar para sua camiseta, e novamente a fitou nos olhos - Porm iria requerer um monto de papelada.
    - Tem razo. E dado que me nego a tramitar mais papis do que estou obrigada a tramitar, melhor ser que nos esqueamos disso. - voltando-se, comeou a lavar 
as mos na grande pia. - Vamos, tire-a. - ordenou enquanto deixava a gua correr - Assim poderei limpar melhor o barro. - sem esperar sua resposta, agarrou uma toalha 
e, enquanto secava as mos, foi verificar o forno.
    Alan se perguntou, devido  facilidade com que havia lhe dado aquela ordem, se teria o costume de despir os homens em sua loja.
    - Voc fez todas essas peas sozinha? - Alan examinou as estantes enquanto retirava a suter - Neste ateli?
    - Mmmm.
    - Como te ocorreu se dedicar a isso?
    - Sempre gostei de modelar o barro. Nunca tive a mesma sensao trabalhando a madeira ou a pedra.
    Se agachou para ajustar algo no forno. Alan voltou a cabea a tempo de ver como o jeans se apertava tentadoramente sobre seus quadris, e se viu assaltado por 
uma inesperada pontada de desejo nas entranhas.
    - Como vai seu suter?
    Distrado, Alan desviou o olhar para a pia, onde sua camisa estava ficando ensopada sob a bica aberta. No pde deixar de se surpreender de que tivesse o corao 
to acelerado. Teria que fazer algo a respeito. Teria que refletir seriamente sobre tudo aquilo... no dia seguinte.
    - Bem - Shelby recolheu a camisa para escorrer a gua - Vai dar um espetculo muito interessante ao voltar para casa... nu da cintura para cima.
    Sem nada mais que um olhar sobre o ombro, se distraiu do que estava fazendo no forno. Alan tinha uma compleio delgada o bastante para que se pudessem contar 
as costelas, porm a forma e a largura de seus ombros, que contrastavam com sua cintura estreita, falavam de uma grande fora e resistncia. Aquele corpo a fazia 
esquecer de qualquer outro homem que j tivesse conhecido.
    Foi ento que tomou conscincia de que estivera pensando precisamente em Alan quando estava modelando aquele vaso. Estremeceu por um instante, deleitada pela 
doce excitao que a assaltou de repente, porm logo lutou contra ela: tinha que se dominar de qualquer jeito.
    - Tem uma excelente forma fsica. - comentou com tom leve - Acho que seria capaz de voltar correndo a P Street em apenas trs minutos.
    - Shelby, esse comentrio me parece muito pouco... amistoso.
    - Eu pensava que estava mais para grosseiro. - corrigiu, esforando-se para dissimular um sorriso - Suponho que poderia ser uma boa menina e secar sua camisa 
na secadora.
    - Foi voc quem a manchou de barro.
    - E foi voc quem se aproximou de mim. - lembrou-o enquanto recolhia a camisa molhada - Est bem, voc ganhou. Vamos subir. - com uma mo desatou o avental e 
o atirou para um lado - Depois de tudo isso, tem o direito de tomar algo em minha casa.
    -  toda corao. - murmurou Alan, enquanto a seguia escadas acima, at seu apartamento. 
    - A reputao da minha generosidade me precede - Shelby abriu a porta - Se quiser whisky escocs, fique a vontade. - apontou para o bar - E se prefere caf, 
pode se servir voc mesmo na cozinha. - e dito isso desapareceu com seu suter no aposento ao lado.
    Alan olhou ao seu redor. O interesse que desde o comeo havia sentido por aquela mulher havia aumentado ao ver sua casa. Era uma mirade de cores que, apesar 
de sua variedade, combinavam bem: verdes brilhantes, azuis luminosos, e a ocasional pincelada de um violeta. Um ambiente bomio. Ou melhor, exuberante. Poderia encaixar 
em qualquer dos adjetivos, tal como acontecia com a prpria Shelby.
    Havia uma enorme quantidade de almofadas de franjas sobre o longo sof sem braos. Uma enorme urna de cermica, esmaltada de azul, sustentava uma bela samambaia. 
O tapete era uma exploso de cores tecidas sobre o piso de madeira nua. Uma tapearia ocupava por inteiro uma das paredes da sala, com um desenho de linhas geomtricas 
que sugeriu a Alan a idia de um incndio no bosque. Do outro lado, descansava no cho um hipoptamo de barro de quase um metro de comprimento. No era um aposento 
feito para a reflexo serena, para se passar interminveis tardes lnguidas. Era para a ao e energia.
    Alan se virou na direo que Shelby havia indicado, e foi ento que se deteve ao ver o gato. Nelson jazia sobre o brao da poltrona, observando-o cautelosamente 
com seu nico olho. Como o gato no se movia nem um centmetro, por um instante Alan chegou a pensar que fosse uma esttua como a do hipoptamo. A venda que usava 
sobre o olho deveria ter parecido ridcula, mas como as cores do aposento, no destoava naquele ambiente.
    Acima do gato pendia do teto uma gaiola octogonal. Como seu companheiro, o papagaio o observava com um misto de suspeita e curiosidade. Sacudindo a cabea, se 
aproximou deles.
    - Bem, isso no deve demorar mais de dez ou quinze minutos para secar completamente - anunciou Shelby quando voltou a sala - Vejo que j conheceu meus companheiros 
de apartamento.
    - Por que a venda?
    - Nelson perdeu seu olho no mar. No gosta de falar disso. - brincou - No sinto cheiro de caf... prefere whisky?
    - Sim, por favor. O loro fala?
    - Lora. Em dois anos no disse uma s palavra. - Shelby serviu dois copos - Foi ento que Nelson veio viver conosco. Tia Em  bastante rancorosa e sabe se defender. 
Apenas uma vez Nelson se atreveu a atacar sua gaiola.
    - Tia Em?
    - Lembre-se do ditado: "No h lugar como o lar". O nome me soava caseiro, ento no vacilei em us-lo. Aqui est. - estendeu seu copo.
    - Obrigado. H quanto tempo vive aqui?
    - Mmmm. Cerca de trs anos. - Shelby se deixou cair no sof, encolheu as pernas e se sentou a maneira indgena. Sobre a mesa do caf,  frente dela, havia um 
par de tigelas, um exemplar do Washington Post, um solitrio brinco de brilhantes, uma pilha de correspondncia por abrir e um velho volume de Macbeth.
    - Ontem no me ocorreu, mas... Robert Campbell era seu pai? - perguntou, sentando-se junto a ela.
    - Sim. Voc o conhecia?
    - Pessoalmente no. Ainda estava na faculdade quando o assassinaram. Conheo sua me, claro.  uma mulher encantadora.
    - Sim, ela . - tomou um gole de whisky - freqentemente me pergunto por que nunca se deixou abater. Sempre amou a vida acima de tudo.
    - Tem um irmo, no ?
    - Grant - baixou o olhar para o jornal que estava sobre a mesa - Passa a maior parte do ano fora de Washington; prefere a relativa paz do Maine. - uma expresso 
divertida cruzou rapidamente o seu rosto, deixando-o muito intrigado - De qualquer forma, parece que nenhum de ns dois herdou a sndrome do servidor pblico.
    -  assim que chama? - Alan se remexeu em seu lugar. A almofada sobre a qual apoiava as costas era muita fina, acetinada. Imaginou que o contato de sua pele 
nua contra a dela seria semelhante...
    - Sim. A dedicao s massas, o fetichismo da papelada e a burocracia. O gosto pelo poder.
    Ali estava outra vez, pensou Alan. Aquela leve arrogncia pincelada de desdm. 
    - Voc tem gosto pelo poder?
    - Apenas pelo poder sobre minha prpria vida. No gosto de me intrometer na dos outros. 
    Alan estendeu a mo para soltar-lhe delicadamente o prendedor de cabelo. Pensou que, talvez, depois de tudo, havia ido ali para discutir com ela. Shelby parecia 
instig-lo a defender desesperadamente tudo aquilo em que acreditava. 
    - Por acaso acredita que qualquer um de ns pode fazer algo nessa vida sem, de uma forma ou de outra, afetar a dos demais?
    Shelby no disse nada enquanto deixava que lhe soltasse o cabelo. Sentia um formigamento na nuca, que lhe lembrava o contato dos seus dedos naquele mesmo lugar. 
Como seria simples e fcil se deixar ficar onde estava, sentada ao seu lado, e...
    - Nunca  bom se deixar afetar demais pelos outros. Bem, basta de filosofias por hoje. Vou ver se sua camisa j est seca.
    Porm Alan no a soltou, impedindo-a de se levantar.
    - Ainda no nos conhecemos o bastante para isso. - disse com tom suave - Talvez devssemos comear agora...
    - Alan... - respondeu Shelby em tom paciente, apesar da excitao que a percorria por dentro - J disse, ns no vamos comear nada. No me leve a mal. - completou, 
com um meio sorriso - Voc  muito atraente. Acontece que no estou interessada.
    Com sua mo livre, a segurou pelo pulso.
    - Seu pulso se acelerou.
    A irritao de Shelby se refletiu no sbito brilho de seus olhos, assim como em sua maneira de erguer o queixo.
    - Adoro estimular o ego das pessoas. E agora, vou buscar sua camisa.
    - Estimule o meu um pouco mais. - sugeriu, puxando-a para si. S um beijo, pensou, e se daria por satisfeito. As mulheres extravagantes e agressivas no o atraam 
muito. E Shelby era uma dessas mulheres.
    Shelby no tinha esperado que ele se mostrasse to persistente, assim como to pouco pudera prever a pontada de desejo que a assaltou ao sentir a carcia de 
seu hlito em seus lbios. Soltou um suspiro de desgosto com a esperana de irrit-lo. Certamente o muito honorvel senador por Massachusets desejava tentar a sorte 
com uma artista de princpios liberais, apenas para variar um pouco de gosto. Relaxando, ergueu o queixo. Est bem, decidiu. Lhe daria um nico beijo que o faria 
cair de costas... para, ato seguinte, expuls-lo de sua casa. 
    Porm Alan ainda no havia encostado em seus lbios, limitando-se a olh-la fixamente. Enquanto se dispunha a beij-lo, Shelby se perguntou porque ele teria 
se detido de repente, resistindo. Foi ento que comeou a delinear o contorno de sua boca com a lngua, privando-a de toda a capacidade de pensamento. No pde fazer 
outra coisa alm de fechar os olhos e saborear a experincia.
    Nunca conhecera nenhum homem que fosse capaz de beijar com tanta habilidade... e isso porque seus lbios ainda no tinham se fundido com os seus. Com a ponta 
da lngua, estava acariciando-lhe os lbios to lentamente, com tanta ternura... Todas as suas sensaes, toda sua excitao estava concentrada naquele ponto.
    Instantes depois Alan capturava seu lbio inferior entre os dentes, e Shelby comeou a ofegar. Ele o mordiscava com deliciosa delicadeza, lambendo-o, sugando-o. 
Era como se estivesse seguindo um plano premeditado ao qual ela era incapaz de resistir. Com o polegar lhe acariciava uma e outra vez o pulso, enquanto deslizava 
a outra mo por sua nuca. As zonas de prazer pareciam se estender, enquanto o corpo fervia por dentro. 
    Shelby emitiu um gemido, um som gutural que era tanto uma exigncia como uma rendio. Desde o incio Alan previra que aquela boca seria assim: ardente, dedicada... 
terna e firme ao mesmo tempo. Teria sido por isso que havia acordado pensando nela? Por isso havia surpreendido a si mesmo, dirigindo-se  tarde para sua loja, como 
cedendo a uma fora irresistvel? Pela primeira vez em sua vida, estava descobrindo que as razes e os motivos no importavam. A nica coisa que importava era o 
presente.
    Seu cabelo conservava aquele indefinvel aroma que to bem recordava. Enterrou os dedos em sua cabeleira como se quisesse se fartar de sua fragrncia. A lngua 
de Shelby acudia ao encontro da sua, tentando-a, perseguindo-a, saturando-o com seu maravilhoso sabor. Shelby no esperara descobrir nele uma paixo to crua, to 
ardente. Estilo... Teria esperado estilo e uma fria elegncia, alm de uma seduo  maneira tradicional. A isso sim, teria conseguido resistir, ou evitar. Porm 
no podia resistir a uma necessidade to intensa, que se assemelhava tanto a sua prpria.  No podia evitar uma paixo que j a tinha cativado. Deslizou as mos 
por suas costas nuas e gemeu ao perceber sua crescente excitao.
    O que tinha entre suas mos era algo slido demais para ser modelado, duro demais para poder mud-lo. Aquele homem tinha se formado e criado a si mesmo  vontade. 
Shelby compreendeu isso instintivamente enquanto o desejo explodia como um vulco em seu interior. Porm junto com o desejo estava a certeza de que estava se entregando 
demais, e o temor de que pudesse mud-la com um simples beijo. 
    - Alan - tirou foras da fraqueza quando cada poro, cada clula de seu corpo suspirava para submeter-se - J basta. - disse contra seus lbios. 
    - No. No basta...
    - Alan - se afastou o suficiente para ver seu rosto - Quero que pare.
    Tinha a respirao acelerada e o olhar escurecido de paixo, porm a resistncia que seu corpo opunha era real. Alan se viu assaltada por uma onda de fria que 
conseguiu dominar habilmente, assim como por uma pontada de desejo, com a qual no teve tanta sorte.
    - Est bem - afrouxou seu abrao - Por qu?
    Era estranho para Shelby se ver forada a fazer algo to natural nela como relaxar. E mesmo depois de t-lo feito, persistia uma certa tenso.
    - Voc beija muito bem. - comentou, forando um tom despreocupado.
    - Para um poltico?
    Shelby se levantou, maldizendo-o pela facilidade e preciso com que havia lanado aquela farpa. Era um tipo arrogante. Sim: arrogante, convencido e concentrado 
unicamente em si mesmo. A tarde havia cado e a casa estava quase s escuras. Acendeu uma luz, surpresa de que tivesse passado tanto tempo quando tinha a sensao 
de exatamente o contrrio.
    - Alan... - comeou a dizer, uma vez tomada a deciso de se mostrar paciente com ele.
    - No respondeu a minha pergunta - lembrou enquanto se recostava comodamente contra as almofadas.
    - Talvez no tenha sido bastante clara. - lutou contra o impulso de dizer algo contundente que pudesse tirar aquela expresso zombeteira de seu rosto. Praguejou 
em silncio. Era um tipo muito inteligente, com respostas para tudo. Adoraria poder voltar a se bater verbalmente com ele quando no estivesse to alterada - Ontem 
eu falava absolutamente a srio quando disse o que disse.
    - E eu tambm. - Alan envolveu seu rosto com as mos, como se quisesse estud-la sob outro ngulo - Porm, quem sabe, como sua lora, eu tambm seja um especialista 
em guardar rancor.
    Quando viu que ficava tensa, a soltou rapidamente.
    - No insista.
    - No me agrada pr o dedo em velhas feridas - a ferida estava ali; podia v-la em seus olhos, naquela fria to bem arraigada. Dava-lhe trabalho lembrar que 
fazia menos de um dia que a tinha conhecido e que no tinha direito de pedir-lhe nada nem esperar nada dela - Sinto muito. - completou enquanto se levantava.
    A tenso de Shelby desapareceu com aquela desculpa. Aquele homem era absolutamente sincero, sem dissimulaes, e gostava dele por isso... alm de por muitas 
outras coisas.
    - Muito bem - atravessou a sala e voltou depois de alguns instantes com sua camisa - Aqui est. Ficou como nova. - entregou-lhe a pea - Bom, foi uma visita 
agradvel. No quero ret-lo mais.
    - Ao menos me acompanharia at a porta? - perguntou Alan, sorrindo.
    Sem se incomodar em dissimular um sorriso, Shelby suspirou.
    - Sempre fui informal demais para essas coisas. Boa noite, senador. Tenha cuidado ao atravessar a rua. - foi abrir a porta que dava para as escadas. 
    Alan vestiu a suter. Sempre pensara que era seu irmo, Caine, quem nunca havia sido capaz de encarar cavalheiresca e desportivamente uma rotunda negativa. Talvez 
estivesse enganado, e se tratasse mais de uma caracterstica dos MacGregor.
    - Os escoceses podem chegar a ser muito teimosos. - comentou, parando ao seu lado no caminho para a sada.
    - J sabe que sou uma Campbell. Quem pode saber disso melhor do que eu? - Shelby abriu a porta um pouco mais. 
    - Ento ambos sabemos em que situao nos encontramos. - ergueu seu queixo com suavidade para dar-lhe um ltimo e contundente beijo, que se parecia suspeitosamente 
com uma ameaa - At a prxima.
    Shelby fechou a porta as suas costas e ficou apoiada nela durante alguns instantes. Sabia que iria ter problemas. Alan MacGregor ia se transformar num problema 
muito srio.
    
    
    
    CAPTULO III
    
    Para uma manh de segunda, Shelby estava muito atarefada. s onze j havia vendido vrias peas de cermica, inclusive trs que tinha tirado do forno na tarde 
anterior. Entre cliente e cliente, sentava-se atrs do balco para conectar um cabo ao abajur de argila que havia torneado segundo o modelo de uma nfora grega. 
Ficar na loja o tempo todo limpando o p das cermicas ou trocando-as de lugar seria impossvel para Shelby, ento deixava essa tarefa para Kyle, para satisfao 
de ambos.
    Como fazia calor, tinha deixado a porta da loja aberta. Shelby sabia que era mais tentador se aproximar e espiar uma porta aberta que abrir uma fechada. E ao 
mesmo tempo deixava entrar a brisa primaveril, junto com os vrios sons da rua. Havia uma grande quantidade de abelhudos e curiosos que nunca compravam nada, mas 
Shelby no se importava com isso. Faziam-lhe muito mais companhia que os potenciais compradores. A senhora que levava seu poodle para passear protegido do frio com 
um suter azul constitua uma interessante diverso. O inquieto adolescente que se aproximava para comentar seus problemas de trabalho, tambm; Shelby costumava 
contrat-lo para limpar os vidros da vitrine. 
    Naquele instante, enquanto o garoto lavava as vidraas da loja do outro lado da rua, Shelby continuava trabalhando com o abajur enquanto ouvia o rdio porttil 
que tinha no cho, aos seus ps. Adorava ouvir os ocasionais fragmentos de conversas dos transeuntes que chegavam at seus ouvidos. 
    - Viu o preo desse vestido?
    - Se no me ligar essa noite, vou...
    Gostava de desenvolver mentalmente aquelas conversas enquanto trabalhava. J estava puxando o cabo atravs do abajur quando Myra Ditmeyer entrou na loja. Usava 
um vestido de vero vermelho brilhante, combinando com o batom em seus lbios. O penetrante aroma de seu perfume invadiu o pequeno ambiente. 
    - Ol, Shelby. Sempre com as mos ocupadas, hein?
    Com um sorriso de puro prazer, Shelby se inclinou sobre o balco para beijar as faces de Myra. Se algum queria fofocar sobre qualquer assunto, ou simplesmente 
se divertir, no havia melhor interlocutora que ela.
    - Pensei que estaria em casa, idealizando todos os maravilhosos pratos com que vai me alimentar esta noite.
    - Oh, querida, deixo isso para meu cozinheiro.  o homem mais criativo do mundo.
    - Sempre adorei comer em sua casa - confessou Shelby - No h nada como esses maravilhosos e exticos molhos que costuma servir. Disse que mame tambm vai, 
no?
    - Sim, com o embaixador Dilleneau.
    - Ah, sim... o francs das orelhas grandes.
    - Isso  maneira de se referir a um diplomata?
    - J est a um bom tempo se encontrando com ele - comentou Shelby - Me pergunto se terei um padrasto europeu...
    - Poderia ser pior. - respondeu Myra.
    - Mmmm. Diga-me uma coisa, Myra... que tipo de homem tem reservado para mim esta noite?  
    - Reservado! - repetiu, enrugando o nariz - Que expresso to pouco romntica.
    - Perdo. Contra quem... est planejando disparar as flechas do Cupido?
    - Continua sendo muito pouco romntico quando voc fala nesse tom. De qualquer forma, acho que vai ficar surpresa. E voc sempre gostou de surpresas. 
    - Gosto mais de d-las do que receb-las.
    - Eu bem sei! Tinha oito anos, se bem me lembro, quando voc e Grant surpreenderam os participantes de uma pequena e influente reunio no salo de sua me com 
caricaturas tremendamente boas dos membros do gabinete ministerial.
    - Aquilo foi idia do meu irmo. - explicou Shelby, e acrescentou com uma pontada de nostalgia - Papai passou vrios dias morrendo de rir.
    - Tinha um maravilhoso senso de humor.
    - Agora me lembro: voc ofereceu a Grant uma boa quantia em dinheiro por sua caricatura do Secretrio de Estado.
    - E o malandro no me vendeu. Meu Deus! - exclamou divertida -Tenho certeza de que teria valido a pena! E como est Grant? No tornei a v-lo desde o Natal.
    - Continua to brilhante... e to rabugento como sempre. - respondeu Shelby com uma gargalhada. - Defendendo com capa e espada a sua intimidade. Acho que este 
vero vou gostar de perturb-lo durante algumas semanas. 
    -  um jovem to magnfico. Que desperdcio de sua parte se enclausurar nesse pequeno pedao de costa...
    -  isso que ele quer... no momento.
    - Perdo?
    Ambas as mulheres se voltaram para a porta, onde esperava um jovem mensageiro. Shelby olhou para a cesta coberta com papel de presente que levava debaixo do 
brao. 
    - Posso ajud-lo em algo?
    - A senhorita Shelby Campbell?
    - Sim, eu sou Shelby.
    - Ento isto  para voc. - baixou a cesta enquanto se aproximava dela.
    - Obrigada. - automaticamente procurou na caixa um dlar para dar a ele - Quem mandou?
    - Tem um carto dentro. - informou enquanto guardava a gorjeta - Espero que fique contente.
    Shelby observou e apalpou a cesta por todos os lados, tentando adivinhar seu contedo. Era um hbito que havia adquirido desde menina, quando recebia seus presentes 
de natal: seu jogo favorito.
    - Oh, vamos! - exclamou Myra, impaciente - Abra-o de uma vez!
    - J vai... - murmurou - Poderia ser... uma cesta de comida. Quem poderia me mandar uma cesta de comida? Ou um filhotinho de cachorro, ou de gato... - aproximou 
o ouvido do embrulho e escutou - No. No se ouve nada. E cheira a... - fechando os olhos, aspirou profundamente - Que curioso. Quem poderia me mandar... - rasgou 
o envoltrio - ...morangos?
    A cesta estava repleta de morangos, grandes e suculentos. Seu aroma evocava recordaes das ensolaradas pradarias em que tanto havia brincado quando criana. 
Shelby pegou um e o aproximou do nariz, deleitada. 
    - Maravilhoso. Sim, realmente maravilhoso.
    Myra pegou outra e comeu a metade. 
    - Mmmm. No vai ler o carto?
    Ainda com o morango na mo, pegou o envelope e o sopesou vrias vezes. Depois o olhou por todos os lados, sem abri-lo.
    - Shelby!
    - Ok, ok... - rasgou o envelope e extraiu o carto.
    O texto era bastante curto: "Shelby, os morangos me fazem pensar em voc. Alan."
    Observando-a detidamente, Myra leu em seus olhos a surpresa, o prazer e algo que no era nem tristeza nem receio, mas um misto de ambas as coisas.
    - Algum que eu conhea? - inquiriu ao ver que no abria a boca.
    - O que? - Shelby a olhou sem compreender, e sacudiu a cabea - Sim, suponho que sim. - porm voltou a guardar o carto no envelope sem dizer-lhe nada - Myra, 
acho que estou encrencada.
    - Bem - sorriu, assentindo - J era hora de que estivesse. Gostaria que eu deixasse meu cozinheiro louco e acrescentasse outro nome na minha lista de convidados 
para o jantar dessa noite?
    A perspectiva era tentadora. Shelby esteve a ponto de aceitar, porm se conteve a tempo. 
    - No. No creio que isso fosse muito prudente de minha parte.
    - Apenas os jovens pensam saber tudo sobre o que  ou no prudente. - respondeu Myra com tom desdenhoso - Muito bem, ento; te vejo s sete. - escolheu outro 
morango antes de pegar a bolsa - Ah, e empacote esse abajur e traga-o para mim. Coloque na minha conta.
    "Terei que ligar para ele", Shelby disse a si mesma quando se viu sozinha. Praguejou em silncio. Sim, teria que ligar para agradecer. Mordeu um morango, deleitada, 
desfrutando da sensao do sumo fresco derramando-se no interior da sua boca... um sabor sensual, de sol e terra. Um sabor que lhe lembrava Alan. Por que no havia 
enviado, em vez de morangos, algo to simples e comum como flores? Flores das quais poderia se esquecer em seguida. Baixou o olhar para a cesta, repleta de morangos 
de um tentador vermelho brilhante. Como podia resistir a um homem que lhe enviava algo assim numa manh de primavera?
    Evidentemente, era um efeito calculado. Um homem como ele conhecia bem as pessoas. Sentiu uma dupla pontada de desgosto e admirao. No lhe agradava que pudesse 
prever to bem suas reaes, porm... tampouco podia evitar admirar algum que sabia faz-lo com tanta facilidade. Pegou o fone.
    
    Segundo seus clculos, Alan ainda dispunha de uns quinze ou vinte minutos antes que o chamassem outra vez para a votao no Senado. Usaria esse tempo para revisar 
os cortes oramentrios que acabavam de ser propostos. Teriam que corrigir um dficit que se aproximava perigosamente dos duzentos milhes de dlares, porm Alan 
no considerava aceitvel compens-lo a custa do oramento de educao.
    Contudo, naquele momento tinha mais coisas na cabea que dficits e oramentos. Embora tivesse transcorrido apenas um ano desde as ltimas eleies, o lder 
da maioria d Senado j havia entrado em contato com ele. No precisava de dons de adivinho para imaginar que podia se transformar no candidato presidencial para 
a prxima dcada. Porm... ele queria realmente que esse momento chegasse?
    Pelo que se referia a seu pai, sempre estivera convencido de que seu filho mais velho disputaria as eleies presidenciais... e venceria. Daniel MacGregor gostava 
de pensar que ainda continuava controlando os fios com que havia manejado seus rebentos desde a infncia. E, algumas vezes, at eles mesmos alimentavam suas iluses 
sem que se vissem obrigados a isso. Alan ainda podia lembrar a sensao que sua irm Rena causou na famlia quando, no inverno passado, anunciou que estava grvida. 
Atualmente a ateno de Daniel estava centrada nisso, e nas bodas de seu irmo, Caine, de modo que as presses sobre Alan haviam se atenuado um pouco. "Por enquanto", 
pensou, irnico. Certamente no passaria muito tempo antes que recebesse um dos famosos telefonemas de seu pai.
    - Sua mo sente a sua falta. Est preocupada com voc. Quando vai arrumar tempo para vir visit-la? E por que no se casou ainda?
    Seus telefonemas eram sempre desse tipo. Era estranho, sempre desprezara as expectativas de seu pai sobre casamento e filhos, mas agora...
    Por que uma mulher que conhecia apenas h poucos dias o fazia pensar daquele jeito em casamento? As pessoas no se apressavam a se comprometer s cegas. Shelby 
no pertencia ao tipo de mulher que o havia atrado no passado. No seria uma boa anfitri de elegantes reunies da classe poltica. No seria especialmente diplomtica; 
certamente, at careceria de um mnimo de tato. E, pensou Alan com um sorriso, nem sequer se prestaria a jantar com ele. 
    Um desafio. Shelby havia se transformado num desafio, algo que Alan sempre adorara. Mas no era esse o nico motivo. Havia tambm o mistrio. Ela era um mistrio, 
e ele sempre gostara de resolv-los, passo a passo. Shelby tinha a energia dos muito jovens, o talento dos artistas e a insolncia dos rebeldes. Tinha uma personalidade 
absolutamente passional, olhos da cor da nvoa no inverno, lbios vermelhos como morangos... e uma mente que parecia funcionar com uma lgica totalmente distinta 
da sua. A qumica que funcionava entre eles era absurda, mas ainda assim...
    Ainda assim, e aos seus trinta e cinco anos, Alan estava comeando a acreditar em amor a primeira vista. Assim que poria  prova sua pacincia e tenacidade contra 
a energia explosiva de Shelby, e veriam quem ganharia no final. 
    De repente o telefone tocou. Alan no se preocupou em atender at que se lembrou que sua secretria no estava no escritrio. Aborrecido, apertou o boto que 
no parava de piscar.
    - Senador MacGregor.
    - Obrigada.
    Seus lbios se curvaram num sorriso enquanto se recostava em sua poltrona. Era Shelby.
    - De nada. Estavam gostosos?
    - Fantsticos. Agora minha loja cheira maravilhosamente a morangos. Maldio, Alan. - disse com um exasperado suspiro - Isso dos morangos foi jogo sujo. Supunha-se 
que deveria ter me enviado orqudeas ou brilhantes.
    - Quando vamos nos ver, Shelby?
    Por um instante ficou calada, destroada por dentro, tentada. Que ridculo, pensou movendo a cabea. Que aquele homem tivesse desprezado um protocolo to bsico 
como presentear com flores no era razo suficiente para deitar por terra um princpio de toda uma vida.
    - Alan, simplesmente no funcionaria. Ao te responder que no, estou livrando voc e a mim mesma de um monte de problemas.
    - No me parece que seja o tipo de pessoa que vive para evitar problemas.
    - Talvez no... mas no seu caso vou fazer uma exceo. Quando for av, e tiver dez netos, vai me agradecer.
    - Terei que esperar tanto tempo at que se digne a jantar comigo?
    Shelby comeou a rir, amaldioando-o ao mesmo tempo.
    - Gosto de voc, Alan, de verdade, - escutou outra leve exclamao de frustrao do outro lado da linha - mas no continue insistindo. Ambos terminaremos caminhando 
sobre uma fina camada de gelo. E no quero que esse gelo ceda sob meus ps outra vez.
    Alan se disps a replicar, porm naquele preciso momento o chamaram para a votao da cmara.
    - Shelby, temos que ir. Em breve continuaremos a falar sobre isto.
    - No - sua voz j era mais firme - Detesto repetir as coisas. Apenas se lembre de que te fiz um favor. Adeus, Alan. - e desligou.
    Em seguida fechou a tampa da cesta de morangos, perguntando-se, desesperada, como aquele homem podia afet-la tanto.
    
    Enquanto se vestia para o jantar de Myra, Shelby se dedicou a ouvir um antigo filme de Bogart. A ouvi-la, e no a v-la, porque duas semanas antes a imagem da 
televiso havia sumido. Era divertido. Era como ter um enorme e ostentoso aparelho de rdio que excitava e provocava continuamente sua imaginao.
    Reconfortada pela caracterstica voz spera e sedutora de Bogey, se concentrou em colocar seu justo vestido bordado com contas. Havia superado com xito a inquietao 
que a tinha assaltado aquela tarde. Sempre pensara que negando-se a reconhecer que se sentia alterada ou deprimida, de fato deixava de se sentir alterada ou deprimida. 
Em qualquer caso, no tinha dvida alguma de que depois de ter esclarecido as coisas com Alan MacGregor e de t-lo rejeitado pela terceira vez, havia conseguido 
expuls-lo para sempre da sua vida. Calou os sapatos de salto alto e guardou na bolsa os artigos mais essenciais.
    - Vai ficar aqui esta noite, Nelson? - perguntou ao gato, que se achava tombado sobre a cama, antes de sair do quarto. - Est bem, no me espere de p. - j 
se dispunha a partir, carregando a caixa que continha o abajur de Myra, quando tocaram a campainha - Est esperando algum? - se dirigiu a Tia Emma.
    A lora se limitou a agitar as asas, despreocupada. Sem soltar a caixa, Shelby foi abrir a porta.
    Prazer. Teve que reconhecer que sentiu tanto prazer quanto desgosto quando viu Alan no umbral.
    - Outra visita de vizinho? - inquiriu sem deix-lo entrar. Se fixou em seu traje escuro, de corte formal, com sua gravata de seda - Embora no parea que tenha 
se vestido para dar um passeio pelo parque.
    O sarcasmo de suas palavras no pareceu afet-lo. Inclusive chegou ao ponto de se inclinar para ela para colocar-lhe delicadamente no cabelo um diminuto ramo 
de penias.
    - Vim lev-la a casa dos Ditmeyer.
    Deleitada por sua deliciosa fragrncia, Shelby sentiu o impulso de tocar aqueles delicados botes. E se perguntou desde quando estava to vulnervel ao encanto 
daquele homem.
    - Quer me acompanhar ao jantar de Myra?
    - Sim. Est pronta?
    Shelby estreitou os olhos, perguntando-se como Myra havia descoberto a identidade do homem que tinha lhe enviado os morangos naquela manh.
    - Quando ela o convidou?
    - Mmmm? - por um instante tinha ficado distrado observando-a - Semana passada... na casa dos Write.
    Suas suspeitas diminuram um pouco. Talvez, no fim das contas, se tratasse apenas de uma coincidncia... 
    - Bem, agradeo o gesto, senador, mas pretendo ir no meu carro. Nos vemos l.
    - Pois ento voc me leva. - respondeu em tom afvel - Assim pouparemos gasolina e no contaminaremos tanto o meio ambiente. - apontou a caixa com o abajur, 
que ainda continuava segurando - Quer que leve isso at o carro?
    Shelby o xingou em silncio, cativada por seu sorriso. Aquele homem a fazia sentir-se como se fosse a nica mulher sobre a terra a qual tivesse dirigido o olhar.
    - Alan - comeou a dizer, levemente divertida apesar de sua insistncia - O que  tudo isto?
    - Isto... - se inclinou de novo, porm dessa vez para beij-la brevemente nos lbios - ...  o que nossos antepassados chamavam de "assediar uma fortaleza". 
E os MacGregor sempre se caracterizaram por sua habilidade nos assdios.
    Shelby emitiu um trmulo suspiro, que se mesclou com seu hlito morno.
    - Tampouco se d mal no combate corpo a corpo.
    Alan comeou a rir. E a teria beijado de novo se ela no tivesse retrocedido um passo.
    - Est bem - ela cedeu enquanto lhe entregava a caixa - Iremos juntos. No quero que me acusem de contaminar gratuitamente o ar. Mas voc dirige. - decidiu, 
sorrindo - Assim poderei desfrutar de um segundo copo de vinho durante o jantar.
    Desceram as escadas. O sol estava a ponto de se pr, tingindo o cu de tons vermelhos e alaranjados. Quando chegaram  rua, Shelby se voltou para Alan para adverti-lo 
com tom risonho.
    - Mas isso continua sem ser um encontro, MacGregor. Poderamos chamar de... um acordo temporrio de natureza estritamente cvica. Sim, acho que soa burocrtico 
o bastante para voc. Gosto do seu carro - acrescentou ao ver seu Mercedes -  to formal...
    Alan abriu o bagageiro e guardou a caixa.
    - Tem uma maneira muito original de insultar os outros. - comentou enquanto o fechava.
    Shelby comeou a rir, sem poder evitar, e se aproximou dele.
    - Maldio, Alan, gosto de voc. - abraou-o com um gesto carinhoso e fraternal, que apenas conseguiu excit-lo ainda mais - Gosto de verdade. - acrescentou 
com um sorriso radiante - Provavelmente j fiz esse comentrio h uma dzia de homem sem que um s deles se desse conta de que o estava insultando.
    - Ora - apoiou as mos em sua cintura - Ento parece que me destaco por minha sagacidade.
    - E por algumas outras coisas. - ao baixar os olhos at seus lbios, sentiu que a fora de seu anseio enfraquecia todas as lembranas que a assediavam, todas 
as promessas que se fizera - Vou detestar a mim mesma por isto - murmurou - mas quero voltar a beij-lo. Aqui, agora, quando o sol est se pondo. - seus olhos procuraram 
os dele, ainda sorrindo, mas de repente escureceram com um desejo que Alan compreendeu que nada tinha a ver com rendio - Sempre pensei que, durante um pr-do-sol, 
pode-se fazer as coisas mais loucas sem conseqncias.
    E envolvendo-lhe o pescoo com os braos, aproximou os lbios dos seus. Alan teve o cuidado de no ceder ao impulso de estreit-la com fora. Dessa vez a deixaria 
tomar a iniciativa e, ao faz-lo, ela mesma se encaminharia at onde ele queria chegar.
    A luz do dia ia sumindo aos poucos. Na rua, do outro lado da loja, soou a buzina impaciente de um carro. Da janela de um apartamento, chegavam at eles os acordes 
de um blues de Gershwin. Apesar dos rudos da rua, Shelby podia ouvir o firme e acelerado corao de Alan contra o seu.
    O sabor de sua boca era o mesmo que to bem lembrava. Mal podia acreditar que tivesse vivido tanto tempo sem t-lo descoberto antes. E lhe parecia quase impossvel 
poder continuar vivendo sem ele. O mesmo acontecia com os braos fortes que a rodeavam... com aquele poderoso corpo que lhe transmitia segurana e perigo ao mesmo 
tempo.
    Alan saberia como proteg-la se algum risco chegasse a amea-la alguma vez. Tambm saberia como faz-la se aproximar do abismo em que tanto havia temido cair.
    Porm sua boca era to tentadora, seu sabor era to cativante... E o entardecer ainda no havia dado lugar a noite escura. Por isso se deixou levar por aquela 
magia durante alguns segundos mais do que deveria... e no tanto quanto desejava.
    Alan sentiu que seu nome se formava nos lbios de Shelby antes que se afastasse. Olharam-se fixamente por um momento, com seus corpos ainda entrelaados.
    Shelby via fora em seu rosto... um rosto no qual podia confiar. Porm haviam coisas de mais que se interpunham entre eles.
    -  melhor ns irmos. - murmurou ela - J  quase noite.
    
    A casa dos Ditmeyer estava completamente iluminada, apesar de ainda no ter escurecido de todo. Assim que chegou, Shelby deu uma olhada nas placas dos carros 
estacionados e descobriu o do diplomata francs: sinal que sua me j estava ali.
    - Conhece o embaixador Dilleneau? - perguntou a Alan enquanto caminhavam at a entrada.
    - Ligeiramente.
    - Est apaixonado por minha me. E acho que  correspondido. - acrescentou, sorridente.
    - E isso a diverte? - sem deixar de observ-la, Alan tocou a campainha.
    - Um pouco. - admitiu - Tem algumas reaes muito curiosas. Por exemplo: fica ruborizada. - confessou, rindo - Certamente  curioso para uma filha ver como sua 
me fica ruborizada diante de um homem...
    - Voc nunca fez isso? - Alan acariciou delicadamente sua face com um polegar, e Shelby se esqueceu instantaneamente de sua me.
    - No fiz o qu?
    - Enrubescer. - respondeu com tom suave, continuando a carcia por sua mandbula - Diante de um homem.
    - Uma vez... quando tinha doze anos e ele trinta e dois. - Shelby sabia que tinha que continuar falando... apenas para no se esquecer de quem era e do que estava 
fazendo ali - Ele... bem, tinha ido consertar o aquecedor.
    - E o que fez para voc ficar ruborizada?
    - Sorriu para mim. E eu pensei que era um tipo realmente muito sexy.
    Alan soltou uma gargalhada e a beijou justamente no exato momento em que Myra abria a porta. 
    - Ora, ora... - a mulher no se incomodou em disfarar um sorriso de satisfao - Boa noite. Vejo que j se conhecem. 
    - O que a faz pensar isso? - a desafiou Shelby enquanto entrava na casa.
    Olhando de um para o outro, Myra replicou:
    - Por acaso no est cheirando a morangos por aqui?
    - Seu abajur. - cortou Shelby, apontando a caixa que Alan segurava - Onde quer que a coloquemos?
    - Oh, deixe-o por a mesmo, Alan.  to agradvel receber os amigos... - acrescentou enquanto os pegava pelo brao para gui-los at a sala - Herbert, sirva-lhes 
dois copos desse maravilhoso licor aperitivo... tm que prov-lo. Acabo de descobrir um fantstico licor de amora.
    - Herbert - Shelby se dirigiu ao juiz de paz e o beijou carinhosamente no rosto - Vejo que saiu para velejar outra vez. - admirou seu rosto bronzeado - Quando 
vamos a praia fazer windsurfe?
    - Esta menina quase  capaz de me convencer de que ainda posso fazer essas coisas... - Oh, me alegro em v-lo, Alan. Suponho que j conhece todo mundo. Vou buscar 
seus copos.
    - Ol, mame. - ao ir cumprimentar sua me, Shelby se fixou nos lindos brincos de esmeraldas que usava aquela noite - No os tinha visto antes... porque nesse 
caso teria pedido imediatamente que me emprestasse.
    - Foi presente de Anton. - explicou, corando levemente - Em agradecimento por aquela festa que organizei para ele. 
    - Entendo. - Shelby desviou o olhar para o diplomata francs, alto e esbelto, que a acompanhava - Tem um bom gosto estupendo, embaixador. - comentou enquanto 
lhe oferecia a mo.
    - Est to bela como sempre, Shelby. - respondeu com um brilho nos olhos, levando sua mo aos lbios - Senador, - se dirigiu a Alan -  um prazer poder encontr-lo 
em um ambiente to descontrado como este. 
    - Senador MacGregor, - sorriu Deborah - no sabia que conhecia minha filha.
    - Neste momento estamos tentando acabar com uma velha tradio. - respondeu, aceitando o copo que o juiz lhe oferecia.
    - Est se referindo  inimizade de nossos cls escoceses. - Shelby explicou a sua me ao ver seu olhar confuso. Tomou um gole de licor e sentou-se no brao da 
poltrona de Myra. 
    - Oh... Ah - exclamou Deborah ao se lembrar - Claro. Os Campbell e os MacGregor eram ferozes inimigos na Esccia... embora eu no consiga lembrar o motivo.
    - Eles nos tiraram nossa terra. - esclareceu Alan.
    - Isso  o que vocs dizem. - respondeu Shelby enquanto tomava outro gole de licor - Nosso cl adquiriu as terras dos MacGregor por meio de um decreto real.
    Alan sorriu, pensativo.
    - Gostaria de v-la discutir esse assunto com meu pai.
    - Que belo duelo! - exclamou Myra - Herbert, imagina nossa Shelby num duelo com Daniel? Com essa teimosia que o caracteriza. Deveria tentar arranjar um encontro 
entre os dois, Alan.
    - J havia pensado nisso.
    -  mesmo? - perguntou Shelby, surpresa.
    - Claro que sim.
    - Seria perfeito, querida. - Myra lhe deu uma carinhosa palmada na perna - Sim, - se dirigiu aos outros - Shelby  uma garota muito, mas muito especial mesmo.
    - E eu nunca soube muito bem por que saiu assim. - interveio Deborah - Embora a verdade  que meus dois filhos sempre foram um mistrio para mim. Talvez por 
isso sejam to inteligentes e inquietos. Apesar de tudo, ainda no abandonei a esperana de que algum dia se assente. - de repente se voltou para Alan - Voc tambm 
no se casou ainda, no , senador?
    - Se preferir - disse Shelby naquele momento, com o olhar fixo em seu copo - posso me retirar para que falem tranqilamente sobre os termos do dote.
    - Shelby, por favor... - murmurou Deborah, enquanto o juiz ria, divertido.
    -  to difcil para os pais enxergarem seus filhos como seres adultos e responsveis... - comentou o embaixador francs com tom leve e compreensivo - No que 
se refere a mim, tenho duas filhas e vrios netos, e ainda assim, continuo me preocupando. E como vo seus filhos, Myra? Tem um neto, no?
    Nada podia ter servido melhor para mudar de assunto. Shelby lanou ao embaixador um olhar carregado de admirao antes de voltar-se para Myra, que j havia comeado 
uma entusiasta descrio dos dons e graas de seu neto. Sim, aquele homem convinha a sua me, decidiu enquanto observava Deborah discretamente. Ela pertencia ao 
tipo de mulher que nunca se sentia realizada sem um homem ao lado. E, desde menina, havia sido educada para se transformar na esposa de um poltico; ali estavam 
para demonstrar isso suas maneiras elegantes, seu estilo, sua altivez... Shelby suspirou. Como as duas podiam parecer tanto e ao mesmo tempo ser to diferentes? 
A elegncia sempre tinha lhe parecido uma espcie de gaiola dourada... e uma gaiola significava restries e escravido.
    Uma escravido que ainda lembrava bem demais.
    Os guarda-costas, embora discretamente, sempre estavam presentes. As festas cuidadosamente programadas, os sofisticados sistemas de alarme, as intruses da imprensa... 
A segurana no tinha salvado a vida de seu pai, embora um fotgrafo tivesse conseguido tirar uma instantnea do assassino segundos antes que disparasse.
    Shelby conhecia muito bem o que se escondia atrs daquela elegncia e altivez; os jantares polticos, os discursos, as festas de gala. Havia centenas de pequenos 
temores, milhares de dvidas. A recordao de muitos assassinatos ou tentativas de assassinato num perodo pouco maior que vinte anos.
    Deixando que a conversa flusse a sua volta, Shelby tomou um gole de licor. E seu olhar cruzou com o de Alan. Ali estava: aquela tranqila e tenaz pacincia 
que prometia durar toda uma vida. Quase podia senti-lo desmontando pouco a pouco todas as barreiras que ela havia erguido em torno de seu ntimo, do seu corao.
    "Maldito", quase pronunciou em voz alta. Alan deve ter adivinhado o que estava pensando, porque lhe sorriu, irnico. Definitivamente o cerco havia comeado.
    Shelby s esperava que tivesse provises suficientes para suport-lo.
    
    
    
    CAPTULO IV
    
    Shelby trabalhou muito durante a semana, empregando toda a sua criatividade. Kyle ficou atendendo a loja durante trs dias seguidos enquanto ela se trancava 
no ateli, passando horas e horas sentada em frente ao torno ou pintando. Se comeava s sete da manh, no parava at a tarde j estar bem avanada. Conhecia a 
si mesma o bastante para saber e aceitar que essa era sua defesa natural quando algo a incomodava ou preocupava demais.
    Quando trabalhava, era capaz de se concentrar de corpo e alma no projeto que tinha entre as mos, e dessa maneira o problema deixava de incomod-la at que encontrava 
uma soluo. Mas dessa vez aquela ttica no estava funcionando. O mpeto que a tinha impulsionado durante a maior parte da semana se esgotou na sexta  noite. Alan 
ainda continuava habitando sua mente, contra todo prognstico.
    Depois do jantar na casa dos Ditmeyer, quando a levou para casa, a deixou novamente sem flego com um daqueles seus beijos lentos e devastadores. Porm no insistiu 
em entrar. Shelby teria ficado agradecida por isso, se no tivesse suspeitado que aquela conteno fazia parte de seu plano de ataque. Sim, sua tcnica no era outra 
seno a de confundir o inimigo, criv-lo de dvidas, colocar a prova sua pacincia e seus nervos. Uma estratgia muito inteligente. 
    Alan estava h vrios dias em Boston. Shelby sabia disso porque ele havia ligado para lhe dizer. Pelo menos assim podia desfrutar de uma breve trgua. Se ele 
se encontrava h vrias centenas de quilmetros de distncia, ao menos no poderia aparecer em sua porta inesperadamente; era um pequeno consolo. Prometeu-se que, 
quando Alan regressasse e voltasse a manifestar sua inteno de visit-la, se negaria a deix-lo passar. Oxal tivesse foras para cumprir essa promessa.
    Mas ento, pelo meio da semana, recebeu aquele porquinho... um grande porquinho azul de pelcia, com um enorme sorriso e orelhas de veludo. Shelby tinha tentado 
enfi-lo no fundo de um armrio para se esquecer dele. Ao que parecia, Alan havia conseguido chegar at ela atravs de seu senso de humor. O que se podia pensar 
de um homem to srio e formal que, apesar de tudo, se atrevia a entrar numa loja de brinquedos para comprar um enorme boneco de pelcia? Shelby esteve a ponto de 
se enternecer. Gostava de saber que era capaz de um gesto desses. E gostava tambm de saber que era capaz de fazer aqueles gestos por ela. Porm... No havia forma 
humana de que Alan enfraquecesse sua resoluo, e menos ainda com um estpido brinquedo.
    O batizou como "MacGregor" e o colocou em sua cama: uma simples piada, com a qual sups que os dois se divertiriam. Decididamente aquele porquinho era o nico 
MacGregor com quem se permitiria deitar.
    Porm sonhava com ele.  noite, deitada em sua enorme cama de cabeceira de bronze, por mais duro que tivesse trabalhado, sempre pensava em Alan. Uma vez sonhou 
com uma dzia de homens idnticos a ele, rodeando sua casa; no podia ir a lugar nenhum sem que a capturassem, e tampouco podia ficar onde estava sem que acabasse 
louca. Despertou amaldioando-o e a sua frtil imaginao.
    Para o final daquela semana, Shelby se prometeu que no aceitaria mais encomendas e que desligaria o telefone assim que ouvisse a voz de Alan. Se a razo e a 
pacincia no haviam podido com ele, ento a brusquido e a rudeza o fariam. At um MacGregor teria que conservar algum bom senso.
    Devido ao programa de atividades que se havia imposto uma semana antes, Shelby tinha entregado a Kyle as chaves da loja, com instrues para abri-la no sbado 
s dez. Ela ficou dormindo. No tinha nenhuma necessidade de trabalhar no ateli; durante os ltimos dias havia acumulado estoque suficiente para vrias semanas.
    De repente ouviu que batiam  porta. Por um instante pensou em no se levantar, mas, finalmente, meio dormindo, decidiu ir atender. No tinha sangue frio suficiente 
para deixar o telefone tocar ou ignorar as batidas  porta. Vestida com um roupo, e estreitando os olhos para que a luz do sol no a cegasse, abriu a porta.
    - Bom dia, srta. Campbell. Outro envio.
    Era o mesmo garoto que tinha entregado o cesto de morangos e o porco de pelcia. Olhou-a sorrindo.
    - Obrigada. - aturdida demais para lembrar a promessa que tinha feito, aceitou o original presente: pelo menos duas dzias de bales rosas e amarelos. Apenas 
quando o garoto foi embora Shelby percebeu o que havia acontecido - Oh, no.
    Erguendo o olhar viu os globos coloridos flutuando. Pendendo do fio que os atava havia um pequeno carto branco.
    Num primeiro momento disse a si mesma que no o leria. De qualquer forma, j sabia de quem vinha o presente. De quem mais podia ser? No, no o leria. De fato, 
procuraria um alfinete e estouraria cada um dos bales. Aquilo era ridculo. Para se firmar em sua deciso, soltou os bales, que ficaram grudados no teto. Se Alan 
pensava que ia fazer valer sua vontade por meio de estpidos presentes e notas criativas... pois estava absolutamente certo. Praguejou entre dentes.
    Shelby saltou para tentar alcanar o fio. No conseguiu. Teve que subir numa cadeira para poder alcanar o carto, que dizia assim:
    "Os amarelos so pela luz do sol, os rosas pela primavera. Compartilhe-os comigo".
    - Est me deixando louca. - murmurou sem descer da cadeira, com os bales numa mo e o carto na outra. Como sabia, como podia adivinhar as coisas que a comoviam 
tanto? Morangos, porquinhos, bales. Era desesperador. Mas tinha que se mostrar firme. Muito, muito firme, disse a si mesma enquanto descia da cadeira. Se o ignorasse, 
Alan lhe enviaria alguma outra coisa. Ento ligaria para ele e lhe pediria que no... no, exigiria que parasse. Diria que a estava incomodando. Sim, isso seria 
suficientemente insultante. Shelby amarrou os fios dos bales no pulso e pegou o telefone. Ele havia lhe dado o nmero do telefone de sua casa, que ela se negara 
a anotar.  claro, lembrava at o ltimo dgito.
    Discou o nmero, enfurecida.
    - Al.
    Mas de repente sua fria se desinflou como um pneu furado.
    - Alan.
    - Shelby.
    Tentou no se deixar comover pelo timbre clido de sua voz.
    - Alan, isso tem que acabar.
    - Voc acha? Mas se apenas comeou.
    - Alan... - tentou recordar sua deciso de se manter firme - Falo srio. Tem que parar de me mandar coisas; s est perdendo tempo.
    - Posso me permitir esse luxo - respondeu - Que tal foi a semana?
    - Estive muito ocupada. Escute, eu...
    - Senti sua falta.
    Aquela simples confisso a fez esquecer de tudo o que quisera lhe dizer.
    - Alan, no...
    - Cada dia - continuou ele - Cada noite. Alguma vez esteve em Boston, Shelby?
    - Er... sim. - respondeu como pde, lutando contra a fraqueza que a acometia. Impotente, olhou para os bales. Como podia lutar contra algo to insubstancial 
como o ar de que estavam cheios?
    - Gostaria de lev-la at l no outono, para desfrutar do aroma das folhas midas, da lenha fresca...
    - Alan, no liguei para falar de Boston. Direi de uma forma muito simples: quero que pare de me ligar, de me visitar e de... - sua voz comeou a tingir-se de 
frustrao ao imaginar seu sorriso tranqilo e sua expresso paciente - Quero que pare de me mandar bales, porquinhos e todas essas coisas! Est claro?
    - Perfeitamente. Passe o dia comigo.
    Aquele homem no perdia nunca a pacincia? Shelby no suportava homens pacientes.
    - Pelo amor de Deus, Alan!
    - Podemos chamar de... "uma sada especial". - sugeriu no mesmo tom - No ser um encontro.
    - No! - exclamou, contendo a duras penas uma risada - No, no, no!
    - Ah, entendo. No te parece uma expresso suficientemente burocrtica.
    Sua voz era to tranqila e aprazvel, to senatorial... pensou Shelby, com uma enorme vontade de gritar. Porm aquele projeto de grito se assemelhava perigosamente 
a uma gargalhada.
    - Deixe-me pensar... - continuou ele - J sei. Uma sada convencional de um dia para promover as relaes entre dois cls rivais.
    - Est tentando me seduzir de novo, Alan.
    - E estou conseguindo?
    Algumas perguntas era melhor ignorar.
    - Juro que j no sei como faz-lo entender, Alan.
    Por um instante Alan se perguntou o que tanto o atraa nela. Talvez o fato de que aquela cigana de esprito livre pudesse em um segundo se transformar numa aristocrtica 
princesa. Certamente ignorava que era tanto uma coisa como outra.
    - Tem uma voz deliciosa. A que horas estar pronta?
    Shelby franziu o cenho, refletindo.
    - Se aceitar passa algum tempo com voc hoje... Deixaria de me mandar coisas?
    Alan ficou calado por alguns segundos.
    - Confiaria na palavra de um poltico?
    - Est bem - ela riu - Voc no me deixa outro remdio.
    - Faz um dia magnfico, Shelby. E faz pelo menos um ms que no tenho um sbado livre. Saia comigo.
    Shelby brincava com o fio do telefone, pensativa. Uma negativa lhe parecia to brusca, to fora de lugar... Realmente Alan estava lhe pedindo muito pouco e... 
Xingou-o em silncio. Queria v-lo.
    - Est bem, Alan. Receio que cada regra precisa de uma exceo para s-lo.
    - Se voc o diz... Aonde gostaria de ir? H uma exposio de arte flamenga na Art Gallery.
    - Ao zoolgico. - respondeu sorrindo, e esperou sua reao.
    - Estupendo. - aceitou Alan de imediato - Estarei a em dez minutos.
    Suspirando, Shelby disse a si mesma que aquele tipo no era nada fcil de desanimar.
    - Alan, ainda no estou vestida.
    - Passarei para peg-la em cinco.
    
    
    - Gosto das serpentes. So to sutilmente arrogantes...
    Enquanto Alan a observava, Shelby praticamente se colou ao vidro para contemplar uma jibia que parecia mais entediada que desdenhosa. Quando ela sugeriu que 
visitassem o zo, no soube se o fez porque realmente queria ir ou para pr a prova sua reao. No teve muito trabalho em concluir que havia sido por uma mescla 
de ambas as coisas.
    Uma visita ao zoolgico nacional numa ensolarada manh de primavera prometia multides e multides de crianas. A Casa das Serpentes ressoava com seus gritos 
de espanto e entusiasmo, porm isso no parecia importar para Shelby enquanto se aproximava para observar uma grossa pton.
    - Parece com o congressista de Nebraska.
    Shelby comeou a rir ao imaginar o personagem em questo, e se voltou parra Alan. Seus lbios estavam apenas h alguns centmetros dos dela. Podia ter retrocedido, 
ou simplesmente virado a cabea novamente para a pton. Mas em vez disso, ergueu o queixo e o olhou nos olhos.
    O que via naquele homem que a fazia querer tanto tentar ao destino?, se perguntou. Aquela sada amistosa estava se transformando em algo mais perigoso. Alan 
no era um homem do qual uma mulher pudesse se desligar facilmente. Um homem como ele podia dominar e seduzir sutilmente as pessoas que o rodeavam sem que ningum 
se desse conta disso. Somente por esse motivo j devia recear, tratando-o com mais cautela que a qualquer outra pessoa. Porque no podia esquecer quem ele era: um 
jovem senador de futuro brilhante, dedicado por inteiro  poltica.
    No, para poupas ambos os lados da dor, se dominaria e tomaria muito cuidado. Para seu pesar.
    - Isto est indo longe demais. - ela comentou num murmrio.
    - Sabe? - roou involuntariamente uma perna na dela quando um menino abriu caminho para colar o nariz contra o vidro - Acho que quanto mais tempo passo aqui, 
mas simpatizo com as serpentes.
    - , o mesmo acontece comigo.  sua aura diablica que as faz to sedutoras. - cercados como estavam de gente por todos os lados, viu-se ainda mais comprimida 
contra ele, e seus seios fizeram contato com seu peito.
    - O pecado original. - murmurou Alan, aspirando deleitado seu aroma - A serpente tentou Eva, e Eva tentou Ado.
    - Sempre achei que esse relato  muito injusto. - comentou Shelby. Seu corao batia acelerado contra o de Alan, mas ainda assim no se afastou. No teria outro 
remdio a no ser experimentar aquilo antes de ter conseguido pensar numa maneira de evit-lo - As serpentes e as mulheres carregaram toda a culpa, enquanto o homem 
se fazia de inocente.
    - Inocente por no ser capaz de resistir  tentao encarnada numa mulher.
    A voz de Alan havia se tornado insuportavelmente terna. Decidindo-se por uma retirada estratgica, Shelby o pegou pela mo e se esforou para sair dali.
    - Vamos ver os elefantes.
    Shelby abriu caminho entre as pessoas, puxando Alan. Uma vez do lado de fora, ps seus culos de sol sem se deter.
    O cheiro dos animais, intenso e primitivo, impregnava o ar. De repente parou na rea dos felinos e se apoiou no muro de proteo para contempl-los entre admirada 
e assombrada, como se nunca tivesse visto nenhum. Continuavam cercados por famlias inteiras, pessoas jovens e idosas, e crianas saboreando seus sorvetes.
    - Ei, me lembra voc. - apontou uma pantera negra que se espreguiava ao sol, atenta ao que acontecia ao seu redor.
    -  assim que me v? - Alan observou o animal - Indolente? Preguioso?
    - Oh, no, senador. - riu Shelby - Paciente, sereno. E arrogante o bastante para pensar que pode suportar perfeitamente este confinamento. - voltando-se, apoiou-se 
no muro para olhar alternadamente de Alan para o felino - Analisou a situao, e concluiu que est muito melhor assim como est. O que me intriga... - franziu o 
cenho, concentrada - ...  o que far se sentir realmente contrariada, ou desgostosa. No parece que tenha gnio forte. O mesmo acontece com os gatos at que se 
aborream... ento, podem ser mortais.
    Alan lhe lanou um estranho sorriso antes de peg-la pela mo para voltarem a caminhar.
    - Esta pantera no parece se desgostar ou aborrecer muito freqentemente.
    - Vamos ver os macacos. - sorriu Shelby - Sempre me lembram a tribuna do Senado.
    - Isso  de muito mau-gosto. - Alan replicou enquanto a despenteava carinhosamente.
    - Eu sei. No pude evitar. - por um instante apoiou a cabea em seu ombro enquanto caminhavam - A verdade  que sou muito travessa. Parece que meu irmo Grant 
e eu herdamos a mesma tendncia ao sarcasmo... ou talvez seja cinismo. Provavelmente o tenhamos herdado de nosso av paterno.  como um desses rinocerontes que vimos. 
Rabugento, mau-humorado, austero...
    - E voc o adora.
    - Sim. Vamos, te comprarei uma pipoca. - se dirigiu at o ambulante - No  possvel passar o dia todo no zoolgico sem comer pipoca. Um saco grande. - pediu 
ao vendedor enquanto tirava uma nota do bolso traseiro do jeans - Alan... - comeou a dizer, mas logo, mudando de idia, comeou a andar de novo.
    - O qu? - perguntou ao mesmo tempo em que pegava algumas pipocas do saco.
    - Ia fazer uma confisso. Mas logo lembrei que as confisses no me caem bem. Continuo com vontade de ver os macacos.
    - No acha que vou aceitar tranqilamente uma negativa como essa depois de tal provocao, no ?
    - Bem, ok. Sabe, quando insistiu para sairmos junto, pensei que a melhor maneira de desanim-lo seria propondo ir a algum lugar como este, onde pudesse me comportar 
com voc... da maneira mais odiosa possvel. - reconheceu por fim.
    - Voc se comportou de maneira odiosa comigo? - perguntou Alan com tom tranqilo - Eu achava que esse era seu comportamento natural.
    - Touch. - murmurou Shelby - De qualquer modo, tenho a impresso de que no o desanimei nem um pouco.
    - Mesmo? - pegou mais pipocas e se inclinou para perguntar-lhe ao ouvido - E de onde tirou essa impresso?
    - Oh... - clareou a garganta -  apenas uma intuio.
    Alan julgou muito interessante aquele nervosismo que parecia detectar nela. Sim, o quebra-cabeas j estava se recompondo, pea a pea. 
    - Curioso. Em nenhum momento, desde que viemos para o zo, disse-lhe que gostaria de encontrar um lugar afastado e secreto para fazer amor com voc vrias vezes?
    - No. - encarou-o com cautela - Para sua sorte.
    - Est bem. - deslizou uma mo por sua cintura - No mencionarei isso enquanto estamos aqui.
    Um sorriso bailou nos lbios de Shelby, porm sacudiu a cabea.
    - No vai se dar bem, Alan. No pode ser.
    - Neste ponto temos um desacordo fundamental. - se deteve quando estavam cruzando uma ponte. A seus ps, os cisnes deslizavam pela gua, despreocupados.
    - Voc no me entende. - Shelby se voltou para observar o rio, pois os olhos de Alan estavam despertando reaes e respostas das quais nem sequer ela mesma tinha 
conscincia - Uma vez que tomo uma deciso, jamais volto atrs.
    - Pois ento temos algo mais em comum do que nossos antepassados escoceses. - maravilhado, Alan observou como o sol arrancava reflexos dourados de sua cabeleira 
avermelhada. Ao estender a mo para tocar-lhe o cabelo, apenas com as pontas dos dedos, se perguntou como seria quando fizessem amor... talvez como uma vermelha 
labareda de fogo. - Desejei voc desde o primeiro instante em que te vi, Shelby. Te desejo mais a cada instante que passa.
    Ao ouvir aquelas palavras, voltou-se para ele entre surpresa e excitada. No tinha sido uma frase vazia, tpica. Alan MacGregor dizia sempre o que desejava realmente 
dizer.
    - E quando desejo algo com tanta intensidade e desespero... - murmurou enquanto lhe acariciava a mandbula - ... nunca me dou por vencido.
    Shelby entreabriu os lbios quando ele o roou com o polegar. E no pde evitar sentir uma pontada de desejo.
    - Pois ento... - esforando-se para aparentar indiferena, pegou um punhado de pipocas antes de sentar-se num banco - ... concentre suas energias em me convencer 
de que eu o desejo.
    Alan sorriu. Lenta, irresistivelmente, comeou a acariciar-lhe o pescoo.
    - No tenho que convenc-la disso. Tenho que convenc-la... - acrescentou enquanto a aproximava mais de si - ...  de que a postura que est adotando  to intil 
como improdutiva.
    Shelby podia sentir como ia enfraquecendo por dentro, ansiando por dar-se por convencida. Alan roou-lhe os lbios com os seus. Ainda assim se mostrava muito 
discreto, apesar da vulnerabilidade que percebia nela. Entendia-o perfeitamente: Alan sempre havia se mostrado muito circunspecto em pblico, ao contrrio de Shelby. 
Isso a irritava. E a intrigava tambm.
    Seus olhos, to srios e to serenos, pareciam destruir qualquer defesa lgica que ela tivesse interposto entre eles. De repente, e antes que pudesse fazer qualquer 
movimento, algum puxou sua camiseta com impacincia.
    Confusa, Shelby baixou o olhar e viu um menininho de aspecto oriental, de uns seis anos, olhando-a fixamente. Imediatamente a criatura soltou um incompreensvel 
discurso, complementado com gestos e caretas desesperadas. Se no suas palavras, Shelby compreendeu ao menos sua frustrao.
    - Fique calmo. - ordenou em tom suave enquanto se agachava na frente dele. Seu primeiro pensamento foi de que havia se perdido de seus pais. Tinha lindos olhos 
negros, de expresso mais irritada que assustada. Novamente continuou falando numa lngua que a Shelby pareceu coreano, at que, com um suspiro de impacincia, lhe 
mostrou algumas moedas de cinco centavos, apontando ao mesmo tempo a mquina de comida para pssaros que atrs deles.
    Dez centavos, compreendeu Shelby, divertida. Queria comprar comida na mquina, mas no entendia o sistema de moedas. Antes que pudesse levar uma mo ao bolso, 
Alan pegou a moeda de dez centavos que o menino precisava e lhe explicou atravs de sinais que as duas que tinha faziam uma de dez. De repente os olhos do menino 
se iluminaram de compreenso e quis fazer a permuta. No comeo Alan no tinha inteno alguma de tomar suas moedas em troca da sua, mas mudou de idia ao ver sua 
expresso: em vez disso as aceitou ao mesmo tempo em que lhe fazia uma reverncia ao estilo oriental. O menino soltou outra torrente de palavras em coreano, lhe 
devolveu a reverncia e se voltou para a mquina.
    Shelby pensou que qualquer outro homem teria insistido em se mostrar magnnimo a todo custo. Mas Alan no, porque desde o princpio havia compreendido que o 
menino tinha seu orgulho. Havia aceitado a permuta das duas moedas de cinco por outra de dez como se fosse uma transao comercial entre dois adultos. E tudo isso 
sem pronunciar uma s palavra.
    Com os cotovelos apoiados na mureta da ponte, dedicou-se a observar o menino que alimentava alegremente os cisnes. Alan se aproximou por trs, as mos de cada 
lado de seu corpo apoiadas sobre a grade. Esquecendo-se de tudo, exceto daquele instante mgico, Shelby por sua vez se apoiou contra seu peito, inclinando a cabea 
para trs e descansando-a em seu ombro.
    - Faz uma tarde linda. - murmurou.
    Alan colocou as mos em cima das suas, reconfortando-as com seu calor.
    - A ltima vez que estive no zo eu tinha doze anos. Meu pai havia feito uma de suas viagens, que sempre me pareciam muito estranhas, a Nova York, e insistiu 
em que o segussemos em massa. - roou seu cabelo com o queixo, desfrutando de sua deliciosa textura - Me senti obrigado a fingir que era crescido demais para me 
divertir vendo os lees e os tigres, e meu pai riu muito a minhas custas.  curiosa essa precoce pretenso de maturidade pela qual os adolescentes sempre passam.
    - No meu caso, essa fase durou uns seis meses. - recordou Shelby - Coincidiu com a poca na qual comecei a chamar minha me por seu nome de batismo.
    - Que idade tinha ento?
    - Treze anos. Costumava dizer a minha me com tom presunoso: "Deborah, creio que j estou bastante crescida para fazer umas mechas loiras no cabelo". E ela 
costumava responder algo do tipo "depois falamos sobre isso". E comeava a falar de como se sentia orgulhosa que eu j fosse crescida o bastante tomar decises como 
uma adulta, e do alvio que lhe produzia que no tivesse sado uma garota caprichosa ou frvola, como tantas outras companheiras de minha idade.
    - E, naturalmente, voc se deleitava com isso e se esquecia das mechas.
    - Naturalmente. - com uma risada pegou-o pelo brao e retomaram o caminho - Acho que at completar vinte anos no cheguei a me dar conta de como Deborah era 
inteligente. Grant e eu nunca fomos umas crianas fceis.
    - Ele se parece com voc?
    - Grant? Comigo? - Shelby refletiu por um momento - Em alguns aspectos sim, porm Grant  um solitrio, coisa que eu nunca fui. Quando Grant est rodeado de 
pessoas, observa tudo... ou melhor, absorve. Se relaciona facilmente em sociedade, e se isola quando quer. E pode ficar sem ver ningum durante semanas ou meses 
inteiros. Eu no posso.
    - No, mas tambm tem facilidade para se relacionar. E no creio que tenha deixado ningum... pelo menos nenhum homem... - se corrigiu, ladeando sua cabea para 
estudar seu perfil - ... se aproximar demais de voc.
    Irritada por seu comentrio, Shelby decidiu replicar com outro mais sutil.
    - Ora, soa como se seu orgulho estivesse falando por voc... E s porque te dei o fora.
    - Talvez, - reconheceu, levando sua mo aos lbios - mas a verdade  que aqui estamos, os dois juntos.
    - Mmmm - Shelby contemplou o mar de pessoas no qual se encontravam - Sem dvida, e sobretudo num ambiente to ntimo. - ironizou.
    - Ambos estamos acostumados a multides.
    Cedendo a um perverso e malicioso impulso, Shelby se deteve no meio do caminho e jogou os braos em torno do seu pescoo.
    -  uma maneira de dizer, senador.
    Esperava que comeasse a rir e que a abraasse de novo, at mesmo que soltasse um exasperado suspiro antes de se afastar. O que no esperou em absoluto foi que 
a segurasse dessa forma, olhando-a muito srio com aquela promessa nos olhos. Neles podia ler quase uma ameaa de paixo, de intimidade. No, no havia esperado 
que usasse seu prprio truque contra ela.
    Seu corao comeou a bater aceleradamente. Ainda que a sensao tenha durado apenas um breve instante, se sentiu total e absolutamente comovida, de corpo e 
alma. No pde evitar sentir uma pontada de nostalgia pelo que nunca poderia ser nem existir entre eles: jamais pudera imaginar que sua reao seria to intensa, 
nem to aguda. Quando se afastou, a dor estava presente tanto em seus olhos como em sua voz.
    - Acho que  melhor voltarmos.
    - Sim. J  muito tarde. Demais. - a ponto de praguejar de pura frustrao, Alan a guiou at o estacionamento.
    Shelby arqueou uma sobrancelha ao escutar seu tom. Irritao; sim, era a primeira vez que o via irritado. Ora, ento... quem sabe fosse essa a chave. Sim, o 
irritaria e exasperaria at dissuadi-lo de sua inteno de assedi-la.
    Deu-se conta de que sua pele ainda ardia em reao a seu contato. Do jeito que as coisas iam, acabaria se relacionando com ele, quisesse ou no. Ou talvez j 
estivesse relacionada e comprometida emocionalmente com Alan. O fato de que no fossem amantes no o impedia de estar presente em todos os seus pensamentos e sensaes. 
Se quisesse se poupar alguma dor, o rompimento tinha que ser rpido e imediato.
    Assim que teria que encrespar-lhe os nervos... Ao entrar no carro, Shelby lhe lanou um sorriso que era mais uma careta. Se havia algo que fazia bem, era encrespar 
os nervos dos outros.
    - Bom, foi divertido. - disse em tom leve enquanto Alan manobrava para sair do estacionamento - Me alegro que no fim das contas tenha me convencido a sair. No 
tinha absolutamente nada para fazer at s sete. Tinha o dia todo em branco.
    Alan se remexeu em seu assento, incomodado, esforando-se para aceitar aquele duro golpe contra seu orgulho. 
    - Sempre estou mais que disposto a preencher espaos vazios. - teve que recorrer a toda sua fora de vontade para controlar a velocidade do veculo. O fato de 
t-la abraado, longe de atenuar sua excitao, apenas servira para lembr-lo todo o tempo do que acontecera da ltima vez em que o fez.
    - De fato, Alan, acho que  um homem agradvel. Para um poltico. - "agradvel?", se repetiu Shelby enquanto apertava o boto para baixar o vidro de sua janela. 
O sangue ainda lhe fervia nas veias depois de ter encarado seus olhos durante menos de dez segundos. Se Alan tivesse sido mais "agradvel", agora mesmo estaria loucamente 
apaixonada por ele e a caminho do desastre. - Bom, quero dizer que no  nada presunoso.
    Alan lhe lanou um longo e frio olhar, que aumentou sua confiana em si mesma.
    - No sou? - murmurou ao cabo de um tenso silncio.
    - Quase nada. - lhe sorriu Shelby - Provavelmente at vote em voc por isso.
    Depois de parar o carro num semforo vermelho, Alan a observou pensativo durante alguns instantes.
    - Hoje seus insultos no so nada sutis, Shelby.
    - Insultos? - o olhou espantada -  estranho, eu pensava que o estava elogiando. O voto no  a nica coisa que os polticos almejam? Votos, e essa implacvel 
necessidade de ganhar.
    O semforo mudou para verde e Alan ps o carro novamente em movimento.
    - Tenha cuidado.
    - Voc parece incomodado. Tudo bem. No tenho nada contra pessoas sensveis.
    - No se trata de minha sensibilidade, e sim do seu pssimo comportamento.
    - Oh, ora, j chegamos! - deliberadamente olhou para o relgio quando pararam em frente a seu apartamento - Que bom. Assim terei tempo de tomar um bom banho 
e me trocar antes de voltar a sair. - inclinou-se para ele para plantar um leve e despreocupado beijo em seu rosto antes de sair do carro - Obrigada, Alan. Tchau.
    Desprezando a si mesma, Shelby se dirigiu rapidamente at a entrada antes que ele pudesse acompanh-la. Apenas ento se voltou para olh-lo como se estivesse 
surpresa por ainda encontr-lo ali.
    - Que diabo  tudo isso? - Alan exigiu saber, agarrando-a pelo brao.
    - O que quer dizer?
    - No brinque comigo, Shelby.
    Shelby suspirou, simulando uma expresso de aborrecido cansao.
    - A tarde foi muito boa, foi... como uma mudana de ritmo para os dois, eu suponho. - abriu a porta do apartamento.
    Alan apertou ligeiramente seu brao para impedi-la de entrar. Nunca, ou quase nunca, perdia as estribeiras. Era como uma herana familiar. Disse a si mesmo que 
tinha que lembrar disso.
    - E?
    - E? - repetiu Shelby, arqueando as sobrancelhas - No h nenhum "e", Alan. Passamos algumas horas no zo, rimou um pouco... Sem dvida isso no quer dizer que 
tenha que me deitar com voc.
    Pde ver um brilho de fria em seus olhos. Um pouco intimidada por sua intensidade, retrocedeu um passo. Instantaneamente sua garganta secou. Se perguntou se 
aquele furor havia estado latente durante todo o tempo.
    - Acha que isso  tudo o que eu quero? - perguntou Alan em tom spero - Se a quisesse apenas na cama, agora mesmo j estaria l.
    - Parece que se esquece de que sou uma pessoa autnoma, com vontade prpria. - retrucou, surpresa com o tremor de sua prpria voz. Seria medo?, se perguntou 
rapidamente. Ou excitao?
    Quando Alan deu um passo em sua direo, Shelby se apoiou na porta para abri-la completamente e entrar, com tanta m sorte que teria cado no cho se ele no 
a tivesse segurado a tempo. De repente os dois se encontraro do lado de dentro: Alan a estreitava entre seus braos e ela tinha as mos apoiadas em seus ombros. 
    Shelby ergueu ento o olhar, furiosa consigo mesma porque os joelhos pareciam ter se derretido de medo, e o pulso acelerado de desejo.
    - Alan, no pode...
    - No posso? - com uma mo enterrada em seu cabelo, a obrigou a encar-lo. Em seus olhos ardia a fria, o ressentimento, a paixo... nunca havia experimentado 
tantas emoes ao mesmo tempo. - Posso. Ns dois sabemos que posso, e que tambm teria podido antes. Agora mesmo me deseja; posso ver em seus olhos.
    Shelby negou com a cabea, porm foi incapaz de se libertar. Como pudera esquecer to rpido da pantera?
    - No, no  verdade.
    - Acha que pode me castigar impunemente, no , Shelby? Acha que pode me castiga e no pagar nenhum preo por isso.
    - Est se comportando como se eu o tivesse provocado a fazer algo, quando a verdade  justamente o contrrio. - retrucou, quase conseguindo fingir um tom de 
irritao - Solte-me, Alan.
    - S quando eu quiser.
    Aproximou a boca da sua. Shelby arquejou; no sabia se de protesto ou de expectativa. Porm Alan se deteve no ltimo momento. A nica coisa que ela podia ver 
em seus olhos era a fria, e seu prprio reflexo em suas pupilas. Sim, tinha se esquecido da pantera, e daquele diablico comportamento de Heathcliff, o personagem 
de Emily Bronte que tanto lhe recordava.
    - Acha que voc  o que quero? O que posso, de uma maneira racional, dizer que quero? Pois no . Voc  tudo o que no me convm. Desafia tudo o que  fundamental 
para minha vida.
    Aquilo lhe doeu. Embora isso fosse precisamente o que quisera que sentisse, lhe doa que fosse capaz de diz-lo.
    - Eu sou exatamente o que sou. - alfinetou Shelby - Exatamente o que quero ser. Por que no me deixa em paz e vai procurar uma dessas loiras que tanto agradam 
os polticos? Foram feitas sob medida para os senadores.
    - Ande, diga-me. - desafiou-a, ainda mais furioso - Diga-me que no me deseja.
    Shelby respirava rapidamente, como se no pudesse encher os pulmes de ar. Nem sequer tinha conscincia de que estava cravando os dedos em seus ombros ou do 
movimento nervoso de sua lngua ao umedecer os lbios. Nunca havia duvidado da licitude de mentir, sempre que fosse necessrio. E naquele momento precisava da mentira.
    - No te desejo.
    Porm aquela negativa terminou num arquejo de excitao quando Alan a beijou nos lbios. Dessa vez no foi o paciente e sereno exerccio de seduo de seu primeiro 
beijo, mas sim sua anttese. Dura e implacvel, sua boca dominou a dela como ningum nunca havia feito. Como nenhum homem se atrevera a fazer.
    Em seus lbios pde saborear seu furor, e ao mesmo tempo reagir com uma desesperada paixo que no pde controlar, com um fogo que a incendiou por dentro. No 
houve sinal de arrependimento: estava exatamente onde queria estar.
    Alan a estreitou ainda com mais fora, esquecendo-se da ternura que sempre o havia caracterizado em suas relaes com o sexo oposto. A boca de Shelby reagia 
com a melhor das disposies, deleitando-se com aquele beijo. Porm daquela vez no se contentaria apenas em beij-la. E deslizou uma mo sob sua camisa para tentar 
chegar at ela.
    Podia sentir a batida de seu corao sob sua palma, to acelerado como o de um maratonista. Shelby arqueou as costas, gemendo algo incompreensvel que poderia 
muito bem ter sido seu nome. Seu sabor era to intenso e to embriagador quanto seu aroma, que j parecia ter ficado gravado a fogo em sua memria. Podia tom-la, 
fazer-lhe amor ali mesmo ou onde fosse, e demorar apenas alguns segundos ou uma hora inteira.
    Mas Alan sabia que, caso se apressasse demais, ainda que ela se mostrasse to disposta, se arriscava a ficar sem nada depois que tudo estivesse consumado. Se 
arriscava a faz-lo sem ternura.
    Praguejando entre dentes, se afastou. Seus olhos, quando se encontraram com os de Shelby, no refletiam fria menor que uns instantes antes. Se encararam em 
silncio durante alguns segundos. At que, sem dizer uma palavra, virou-se e saiu pela porta aberta.
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    CAPTULO V
    
    Shelby tentou no pensar nele. Enquanto folheava a revista dominical do jornal sentada com os ps para o alto e com uma xcara de caf ao lado, tentou realmente 
no pensar nele. Nelson se espreguiava no encosto, como se estivesse lendo por cima do seu ombro.
    Tomou um gole de caf e deu uma olhada num artigo sobre cozinha francesa. No podia evitar de pensar nele.
    A culpa tinha sido inteiramente sua; isso no podia negar. Mostrar-se to grosseira e desagradvel era algo que no costumava fazer freqentemente, mas naquela 
ocasio havia se sado muito bem. Magoar uma pessoa era algo que s fazia quando se deixava levar pela raiva. E o que tampouco podia negar era que nos olhos de Alan 
tinha visto tanto dor como raiva. At quando seu nico propsito havia sido a prpria sobrevivncia.
    Teria muita dificuldade para perdoar a si mesma. Recordou as palavras de Alan: "Acha que voc  o que eu quero?".
    No. Se incorporou no sof, agarrando a xcara com as duas mos. No, desde o comeo soubera que no combinava com Alan, com sua imagem, mais do que ele combinava 
com a sua. Mas ainda assim tinha percebido algo nele, e em si mesma, naquela primeira noite no terrao da manso dos Write. Desde ento algo estranho estivera rondando 
no fundo da sua mente. Que Alan poderia ser o nico homem para ela. Estpidas fantasias para uma mulher que nunca tinha se acreditado capaz de considerar nenhum 
homem como "nico", porm das quais ainda no tinha conseguido se livrar at o momento.
    Perguntou-se se algum dia poderia se livrar de Alan. Certamente havia merecido sua fria e a raiva fria que tinha visto em seus olhos quando deu meia volta e 
partiu, na porta de sua casa. Ela tivera o poder de trazer  luz aquele terrvel temperamento seu. Era algo intimidante e, de alguma forma... sim, tambm sedutor.
    Porm Shelby o tinha magoado. O magoara por pura sobrevivncia, ao perceber que o poder que exercia sobre ela tinha se tornado intenso demais. Assim que talvez 
tambm tivesse merecido, ainda que no fosse nada fcil admitir, a dor e a frustrao que sua partida repentina lhe havia causado.
    Umedeceu os lbios com a lngua, evocando o sabor do seu beijo. Havia duas naturezas em Alan MacGregor. Uma era equilibrada e razovel; a outra era dura e impiedosa. 
O que no fazia mais que aumentar sua atrao.
    Deixando a xcara de caf de lado, se esforou para se concentrar. Depois de tudo, tinha conseguido afugent-lo, que era o que tinha pretendido desde o incio. 
No tinha sentido se lamentar por isso. Levantou-se do sof e se ps a andar pela sala enquanto refletia. No ligaria para pedir desculpas. Isso s serviria para 
piorar as coisas.
    Ainda assim, se deixasse claro que se tratava de uma desculpa formal e nada mais... No, isso no era nada inteligente. Pior ainda: era estpido e contraditrio. 
J havia tomado uma deciso nesse sentido. E Shelby sempre se gabara de ser coerente consigo mesma e com seus atos.
    Fitou os bales coloridos, amontoados sobre a mesa da cozinha. Tinham perdido a fora para continuar flutuando, e ali estavam, como os restos esquecidos de uma 
animada festa. Suspirou. Deveria t-los estourado antes. Deslizou um dedo pela superfcie de um balo amarelo. Agora j era tarde demais.
    Se ligasse, mas ao mesmo tempo se recusasse a se envolver numa conversa com ele... Apenas uma desculpa, nada mais. Trs minutos. Mordendo o lbio, se perguntou 
se poderia encontrar sua ampulheta para poder contar exatamente esses trs minutos. Limparia a conscincia com algumas frases simples e corteses. O que podia acontecer 
em trs minutos de conversa telefnica? Voltou a olhar para os bales. "Muito", se respondeu. Tinha sido uma simples ligao que desencadeara todo o desastre do 
dia anterior.
    Quando se achava de p no meio da sala, indecisa, tocaram a campainha. A ansiedade e a expectativa a fizeram apressar-se: talvez fosse Alan. Antes que tocassem 
pela segunda vez, escancarou a porta.
    - Eu s... Oh, ol, mame.
    - Lamento no ser quem estava esperando. - Deborah lhe deu um carinhoso beijo no rosto antes de entrar.
    -  melhor assim. - murmurou enquanto fechava a porta - Prepararei um caf para voc. - ofereceu, sorrindo - No  freqente v-la por aqui num domingo de manh.
    - Posso prescindir do caf se est esperando algum.
    - No, no estou esperando ningum. - declarou Shelby, contundente.
    Deborah observou pensativa sua filha por um instante, perguntando-se por que parecia to perturbada. J fazia uns dez anos que Shelby era um verdadeiro enigma 
para ela.
    - Se no tem nada para fazer esta tarde, me ocorreu que talvez gostasse de me acompanhar numa visita a nova exposio de arte flamenga da National Gallery.
    Quando estava preparando o caf, Shelby queimou o dedo. Em seguida o chupou, praguejando entre dentes. 
    - Oh, voc se queimou. Deixe-me ver...
    - No  nada. - negou com a mesma brusquido de antes - Perdo - se desculpou, j mais tranqila - No  nada. Sente-se, mame. - com um gesto quase violento, 
varreu os bales com uma mo, desocupando a mesa.
    - Bem, isto no mudou nada. - observou Deborah - Continua mantendo sua prpria maneira de ordenar as coisas. - esperou que se sentasse a sua frente - Algo vai 
mal?
    - Mal? No, por qu?
    - Voc no costuma estar to inquieta. - enquanto pegava seu caf, lanou-lhe um de seus longos e penetrantes olhares - Leu o jornal dessa manh?
    - Claro. - Shelby cruzou as pernas, adotando uma atitude relaxada - Por nada no mundo perderia a tira de Grant.
    - No, no me referia a isso.
    Vagamente interessada, Shelby arqueou as sobrancelhas.
    - Dei uma olhada nas manchetes e no vi nada especialmente interessante. Deixei passar algo despercebido?
    - Parece que sim. - sem dizer mais nada, Deborah se levantou para recolher o jornal do sof. Depois de encontrar a seo que procurava, estendeu-o para sua filha.
    Havia uma fotografia muito ntida na qual Shelby aparecia em companhia de Alan, observando os cisnes da ponte do zo.         Lembrava muito bem daquela cena: 
havia apoiado as costas contra seu peito com a cabea sobre o vo do seu ombro. O fotgrafo tinha capturado aquele instante, com aquela expresso de felicidade em 
seu rosto da qual ento no estivera consciente.
    O artigo correspondente a foto era breve: citava o nome e a idade de Shelby, junto a uma referncia a seu pai e a seu negcio de cermica. Tambm mencionava 
a campanha na qual Alan havia se envolvido para facilitar um alojamento digno a pessoas sem teto, antes de passar a especular a relao que os unia. No tinha nada 
especialmente ofensivo naquele pequeno fragmento da coluna social de Washington. Por isso mesmo se surpreendeu ainda mais com a pontada de ressentimento que a assaltou 
ao ler aquelas linhas.
    Estivera certa, disse a si mesma enquanto voltava a observar a foto. Aquele oitavo de pgina lhe demonstrava que tivera razo desde o princpio. A poltica, 
em todos os seus aspectos, sempre tinha se interposto entre os dois. Tinham desfrutado de uma tarde ensolarada como um casal normal, mas aquilo no tinha durado 
muito. Nunca durava.
    Deliberadamente Shelby deixou o jornal de lado antes de pegar sua xcara de caf.
    - Bem, no me surpreenderia se na segunda tivesse um monto de clientes na porta da loja graas a isto. No inverno passado veio uma mulher expressamente de Baltimore, 
s porque viu uma fotografia na qual eu aparecia com o sobrinho de Myra. - tomou um gole, consciente de que corria o perigo de comear a divagar -  uma sorte que 
semana passada fiz um esforo extra e enchi o estoque de peas. Gostaria de um donut com o caf? Acho que os tenho em algum lugar...
    - Shelby - Deborah ps as mos sobre seus ombros antes que pudesse se levantar - No sabia que se importava tanto com esse tipo de publicidade. Essa  a fobia 
de Grant, no a sua.
    - Por que haveria de me importar? - desafiou, esforando-se para no cerrar os punhos - Quando muito me render algumas vendas a mais. Isso  inofensivo...
    - Sem dvida que sim. - assentindo lentamente com a cabea, Deborah tentou acalm-la.
    - No, no ! - Shelby explodiu de repente, sem poder evitar - No  inofensivo. Nada disso tudo . - se levantou da mesa para andar pela sala, como sua me 
a tinha visto fazer incontveis vezes antes - No posso suportar isso. Simplesmente no posso. - chutou uma sapatilha que se interps em seu caminho - Por que diabos 
no podia ser cientista, ou jardineiro? Por que tem sempre que me olhar como se me conhecesse a vida toda e no lhe importassem meus defeitos? No quero me deixar 
arrastar por ele! No quero! - num ltimo acesso de raiva, jogou o jornal no cho - No importa. - de repente se deteve, passando uma mo pelo cabelo enquanto tentava 
se acalmar - No importa. - repetiu - De qualquer modo, tomei uma deciso, assim que...
    Acostumada demais a suas sbitas mudanas de humor para estranhar alguma coisa, Deborah assentiu.
    - E... o que decidiu, Shelby?
    - Que no vou me relacionar com ele. - depois de lhe entregar a xcara, voltou a se sentar - Por que no comemos na cafeteria da Galeria?
    - De acordo. - Deborah tomou um gole de caf - Passaram bem no zo?
    Shelby encolheu os ombros.
    - Sim, foi um dia agradvel. - aproximou a xcara dos lbios, mas no final deixou-a de lado sem beber.
    Deborah observou de novo a foto do jornal. Quando foi a ltima vez que vira Shelby to tranqila e serena. Por acaso alguma vez a vira assim? Suspirando, comentou:
    - Suponho que tenha deixado isso claro ao senador MacGregor.
    - Desde o incio disse a Alan que no queria sair com ele.
    - Mas semana passada se apresentou com ele na casa dos Ditmeyer.
    - Isso foi diferente... e ontem foi um descuido.
    - Ele no  seu pai, Shelby.
    Shelby a olhou com uma expresso to inesperadamente atormentada que Deborah se apressou a segurar sua mo.
    - Se parece tanto com ele... - sussurrou -  aterrorizante. Essa tranqilidade, essa dedicao, essa segurana de conquistar o triunfo a no ser que... - se 
interrompeu, fechando os olhos com fora. A no ser que algum louco armado o impedisse, por alguma causa obscura. - Oh, Deus, acho que estou me apaixonando por ele, 
e quero fugir...
    - Para onde? - Deborah lhe apertou a mo.
    - Para qualquer lugar. - Shelby respirou profundamente e abriu os olhos - No quero me apaixonar por ele por muitas razes. No nos parecemos em nada.
    - Por acaso deveriam se parecer? - perguntou sua me, sorrindo pela primeira vez desde que a viu nesse estado.
    - No me confunda quando estou tentando ser lgica. - respondeu, para logo acrescentar forando um sorriso - Mame, eu o deixaria louco numa semana. Nunca poderia 
pedir-lhe que se adaptasse ao meu estilo de vida. E eu nunca seria capaz de me adaptar ao seu. S precisa conversar alguns minutos com ele para se dar conta de que 
tem uma mente ordenada, que trabalha com um computador de xadrez.  acostumado a comer em horrios fixos, a saber que camisa tem que colocar para lavar...
    - Querida, at voc tem que se dar conta do quanto isso soa ridculo.
    - Em si mesmo, talvez sim. - Shelby desviou o olhar para os bales murchos - Mas quando se soma todo o resto...
    - Por "todo o resto", se refere ao fato de que  um poltico. Shelby... - esperou que a filha a olhasse nos olhos - ... no pode escolher a dedo o homem por 
quem se apaixona.
    - No vou me apaixonar por ele. - afirmou com teimosia - Gosto da minha vida como est. Ningum vai me fazer mud-la antes da hora. Vamos. Veremos sua exposio 
de arte flamenga e depois a convidarei para almoar.
    Deborah observou como Shelby procurava seus sapatos por todo o apartamento. No, no desejava que sua filha sofresse, mas sabia que a dor seria inevitvel. Teria 
que suportar isso.
    
    
    Alan se encontrava sentado ante a enorme mesa do escritrio de sua casa, com a janela aberta a suas costas. Podia sentir o aroma das lilases florescendo no jardim. 
Recordou que a tarde em que conheceu Shelby tambm cheirava a lilases. Porm no comearia a pensar nela agora.
    Sobre sua mesa havia todo o tipo de informao sobre os albergues para pessoas sem lar que estava promovendo. Havia marcado um encontro para o dia seguinte com 
o prefeito de Washington, e confiava que o resultado seria to bom quanto o do que tivera com o prefeito de Boston. Tinha tudo diante de si. Os dados, que sua equipe 
tinha demorado semanas para reunir, e as fotografias. Observou uma das fotos, na qual apareciam dois homens dividindo uma manta numa passagem subterrnea da cidade. 
No era apenas uma realidade triste, mas tambm indesculpvel. Um refgio para pessoas sem lar era uma necessidade bsica.
    Uma coisa era se concentrar nas causas, como o desemprego, a recesso econmica, os cortes dos gastos sociais, e outra era ver pessoas viverem sem os recursos 
mais elementares enquanto as solues se retardavam. Seu projeto consistia precisamente em satisfazer essas necessidades, mas para isso precisava de fundos, e o 
que era igualmente importante: voluntrios. Tinha comeado a conseguir algo em Boston, depois de uma longa e eventualmente frustrante batalha, mas ainda era cedo 
demais para exibir resultados substanciais. Teria que depender da informao reunida por sua equipe e de sua prpria capacidade de persuaso. E se a isso pudesse 
somar a influncia dos prefeitos, a sim seria capaz de ter acesso aos fundos federais de que tanto necessitava.
    Recolheu os documentos e os guardou em sua maleta. No havia nada mais que pudesse fazer at o dia seguinte. E estava esperando um visitante... conferiu seu 
relgio... para dentro de dez minutos. Recostando-se em sua confortvel cadeira, procurou relaxar.
    Sempre tinha sido capaz de relaxar naquele aposento de teto alto e paredes forradas de madeira escura. No inverno costumava acender o fogo da bela chamin de 
mrmore rosado. Sobre sua prateleira se alinhavam retratos de sua famlia: desde antepassados que nunca haviam abandonado o solo escocs at modernas instantneas 
de seus irmos. Logo acrescentaria um retrato de seu sobrinho ou sobrinha, quando sua irm Rena desse  luz.
    Alan ficou observando a fotografia de uma elegante jovem loira de olhar alegre e expresso decidida: Rena. Sem saber por que, aquela imagem lhe recordou Shelby, 
com aquela sua cabeleira de rebeldes cachos vermelho fogo.
    Indisciplinada. Essa palavra lhe caa  perfeio. Envolver-se com ela seria um desafio constante, que duraria toda uma vida. T-la a seu lado seria uma permanente 
surpresa. Era estranho que um homem como ele, que sempre tinha preferido a ordem e a lgica, descobrisse finalmente que sua vida nunca estaria completa sem o caos 
que Shelby podia lhe proporcionar.
    Olhou ao seu redor: as paredes, cheias de estantes de livros cuidadosamente alinhados; o impoluto tapete cinza plido; o severo sof de estilo vitoriano... Aquele 
aposento estava to ordenado e bem organizado... como sua vida. Porm ele precisava de um transtorno, um torvelinho. Um torvelinho ao qual no tinha interesse em 
se submeter, mas apenas experimentar.
    Quando soou a campainha, olhou de novo seu relgio. Myra havia chegado a tempo.
    - Bom dia, McGee. - sorrindo, Myra cumprimentou o mordomo escocs de Alan.
    - Bom dia, senhora Ditmeyer.
    McGee media um metro e noventa e era slido como uma rocha. Apesar de rondar os setenta anos, se conservava muito bem. Durante uns trinta havia exercido a funo 
de mordomo da famlia MacGregor antes de trocar, por vontade prpria, Hyannis Port por Georgetown. "O senhor Alan precisar de mim", havia sentenciado com seu marcado 
sotaque. E, sem duvidar, havia partido com ele.
    - No ter preparado por acaso alguma dessas suas maravilhosas pastas?
    - Pois sim, senhora. Com nata batida. - respondeu McGee, dissimulando um sorriso.
    - Ah, McGee, eu o adoro. Alan... - Myra lhe estendeu a mo enquanto avanava pelo corredor - foi muito amvel ao permitir que o incomodasse num domingo.
    - Voc nunca me incomoda, Myra. - beijou-a no rosto antes de gui-la at a sala. 
    Aquele aposento estava decorado em tons sbrios e masculinos. A maior parte do mobilirio era de estilo Chippendale, com um tapete persa. A nica surpresa daquela 
sala to confortvel e tranqila era um grande quadro representando uma paisagem de tormenta: escabrosas montanhas, nuvens escuras amontoadas, raios ameaadores... 
Myra sempre o havia considerado um curioso e interessante detalhe.
    Sentou-se numa poltrona, suspirando, e a primeira coisa que fez foi tirar os sapatos.
    - Que alvio. - murmurou - Jamais consigo comprar o nmero adequado de sapato. Suponho que  o preo a pagar por minha vaidade... Recebi uma amvel nota de Rena. 
- contou, esfregando um p contra o outro para recuperar a circulao, e explicou com um sorriso - Queria saber quando Herbert e eu iramos a Atlantic City para 
gastarmos dinheiro em seu cassino.
    - Eu tambm lhe fiz uma visita da ltima vez que estive por l. - Alan relaxou em seu assento, sabendo que Myra s abordaria o objetivo concreto de sua visita 
no momento que ela considerasse adequado.
    - Como vai Caine? Que menino danado ele sempre foi... - e continuou antes que Alan pudesse responder - Quem teria pensado que com o tempo se transformaria num 
advogado to brilhante?
    - A vida est cheia de surpresas. - murmurou Alan, lembrando que ele havia sido o irmo bom e Caine o travesso. Mas... por que tivera que lhe ocorrer isso?
    - Oh, como tem razo. Ah, a vm minhas pastas. Graas a Deus. - exclamou ao ver McGee entrar com uma bandeja. - Podemos nos servir, McGee, obrigada. - Myra 
comeou a servir o ch enquanto Alan a observava divertido. Qualquer que fosse sua inteno, estava decidida a desfrutar primeiro de seu ch com pastas. - Como o 
invejo por ter um mordomo assim! - disse enquanto lhe entregava sua xcara - Sabia que h vinte anos tentei roub-lo de seus pais?
    - No, no sabia. - sorriu Alan - Pelo visto, McGee foi discreto o bastante para no mencionar isso.
    - E suficientemente leal para no aceitar minhas ofertas de suborno. Foi a primeira vez que provei essas pastas... - Myra mordeu uma delas e ergueu os olhos 
para o cu, extasiada - Naturalmente imaginei que a cozinheira as tinha feito e pensei em roub-la, mas quando descobri que eram do mordomo... Bem, meu nico consolo 
 que se houvesse tido xito em meu empenho, agora estaria to gorda como um elefante. O que me lembra... - limpou os dedos num guardanapo - Percebi que desenvolveu 
certo interesse por elefantes.
    Alan arqueou uma sobrancelha enquanto tomava um gole de ch. Ento era isso. Uma conversa sobre poltica. Os republicanos eram coloquialmente chamados de "elefantes".
    - Sempre me interessei por nosso partido rival. - afirmou com tom tranqilo.
    - Oh, no estou falando de poltica. Passou momentos agradveis no zo?
    - Voc leu os jornais.
    - Claro. Devo dizer que pareciam estar muito bem juntos. Eu j sabia. - satisfeita tomou um gole de ch - Shelby est muito aborrecida pela foto?
    - Eu ignoro. - Alan franziu o cenho, aturdido. Sempre havia convivido com a constante presena da mdia, por isso no lhe ocorreu pensar que Shelby poderia se 
incomodar com isso - Deveria estar?
    - Habitualmente, no; porm Shelby tem a tendncia a sentir e a fazer coisas inesperadas. No pretendo ser intrometida, Alan... bem, sim, eu pretendo. - se corrigiu 
Myra com um irresistvel sorriso - Mas s porque conheo os dois desde que eram crianas. Tenho muito carinho por vocs. - cedendo  tentao, pegou outra pasta 
- Fiquei muito contente quando vi a foto esta manh.
    Desfrutando tanto de seu apetite saudvel como de sua irreprimvel curiosidade, Alan sorriu.
    - Por qu?
    - Bem, de fato... - Myra serviu-se uma generosa colherada de nata - ... a verdade  que estava planejando junt-los. Por isso me alegro que os dois tenham resolvido 
o assunto sem minha ajuda; assim, a nica coisa que terei que fazer ser aprovar o resultado final. 
    Alan se recostou em sua cadeira, apoiando o brao sobre o encosto. Sabia como a mente de Myra funcionava.
    - Uma tarde no zo no  o mesmo que um casamento.
    - Fala como um verdadeiro poltico. - com um suspiro de prazer, se inclinou em seu assento, satisfeita - Oxal pudesse arrancar de McGee a receita dessas pastas...
    - Receio que isso no vai ser possvel. - sorriu Alan, divertido.
    - Ah, claro... Por acaso eu estava na loja de Shelby quando ela recebeu certa cesta de morangos... - comentou casualmente - Voc no saberia algo a respeito, 
querido?
    - Morangos? Tambm me agradam muito.
    - Olhe, no pense que pode me enganar: sou esperta demais. - acusou com o dedo em riste - Um homem como voc no envia cestas de morangos nem passa tardes no 
zo a no ser que esteja enrabichado por uma mulher.
    - Eu no estou enrabichado por Shelby. - corrigiu Alan com tom tranqilo enquanto tomava um gole de ch - Estou apaixonado por ela.        
    A rplica de Myra foi imediata.
    - Bem, pois ento. Foi mais rpido do que eu havia esperado.
    - A verdade  que foi instantneo. Uma flechada. - murmurou Alan que j no se sentia to confortvel depois de ter se confessado.
    - Encantador. - inclinou-se para frente para dar-lhe um carinhoso tapinha no joelho - No posso pensar em ningum que merea mais que voc uma flechada de amor.
    - Embora o mesmo no acontea com Shelby.
    - O que quer dizer? - perguntou Myra, franzindo o cenho.
    - O que eu disse. - Alan descobriu que aquilo continuava doendo. A recordao de suas frias palavras, daquele tom indiferente, ainda o magoava. - Nem sequer 
est interessada em continuar me vendo.
    - Tolices! - resmungou Myra, deixando de lado uma pasta mordiscada - Eu estava com ela quando recebeu esses morangos. E conheo Shelby to bem como conheo voc. 
Foi a primeira vez em minha vida que vi essa expresso em seu rosto.
    Alan ficou olhando-a pensativo durante alguns instantes.
    -  uma mulher muito teimosa. Est decidida a evitar qualquer tipo de compromisso comigo devido a minha profisso.
    - Ah, entendo. - a mulher assentiu lentamente - Devia ter adivinhado.
    - Ela no se mostra indiferente comigo... - acrescentou Alan, evocando a paixo com que havia reagido a seus beijos - S obstinada. Rebelde.
    - No, no  isso.  - Myra o corrigiu - Est assustada. Era muito afeioada a seu pai.
    - J imaginava, Myra, e compreendo que perd-lo deve ter sido um duro, durssimo golpe para ela, mas no consigo entender o que isso tem a ver conosco. - sua 
impacincia, assim como sua frustrao, estava chegando a limites insuportveis. Incapaz de continuar sentado, levantou-se e comeou a andar pela sala - Se seu pai 
tivesse sido arquiteto, por que haveria de odiar os arquitetos? - passou uma mo pelo cabelo, num gesto de exasperao pouco usual nele - Maldio.  ridculo que 
no queira saber de nada comigo s porque seu pai era senador...
    - Est sendo lgico, Alan. - respondeu Myra com tom paciente - E Shelby raramente o ... a no ser que sua lgica seja de outro tipo. Shelby adorava Robert Campbell, 
e no exagero ao empregar essa expresso. Tinha apenas onze anos quando o assassinaram... e ela estava a poucos metros dele.
    Alan se deteve para se voltar imediatamente.
    - Shelby estava l?
    - Os dois: Grant e ela. - Myra deixou sua xcara de lado, evocando aquelas lembranas dolorosas - Milagrosamente, Deborah conseguiu evitar que a imprensa explorasse 
esse fato e acossasse as crianas. Teve que lanar mo de todos os contatos que tinha.
    Alan sentiu uma pontada de compaixo to intensa e aguda que o deixou aturdido.
    - Oh, meu Deus, nem sequer posso imaginar como isso deve ter sido terrvel para ela...
    - Durante dias no falou... Nem uma s palavra. Eu passava muito tempo com ela enquanto Deborah lidava sozinha com sua prpria dor, com a das crianas, com a 
imprensa... - Myra sacudiu a cabea ao recordar as desesperadas tentativas de Deborah para falar com sua filha, e a muda rejeio de Shelby - Foi uma poca horrorosa, 
Alan. Os assassinatos polticos colocaram nossa dor particular sob o olho pblico da mdia. - suspirou profundamente - Shelby s explodiu um dia depois do funeral. 
Chorava como... como uma fera ferida. E aquele desabafo durou tanto quanto seu silncio anterior. Depois o superou, talvez bem demais.
    Alan no tinha muita certeza de querer ouvir mais, imaginando a menina que tinha sido a mulher que amava destroada pela dor, perdida e desorientada. Naquela 
poca ele estava estudando em Harvard, tranqilo em seu mundo seguro, sempre em contato com sua famlia. Alan jamais havia experimentado uma perda to devastadora. 
Tentou imaginar o que teria sentido se tivesse perdido seu pai, o robusto e vital Daniel MacGregor... e no pde. Permaneceu de p em frente  janela, com o olhar 
perdido.
    - O que Shelby fez?
    - Viveu... aproveitando ao mximo essa grande energia que sempre teve. Quando tinha dezesseis anos... - recordou Myra - ... me disse que a vida era um jogo chamado 
"Quem sabe?", e que queria experimentar tudo antes que casse em suas armadilhas.
    - Sim, isso me parece muito prprio dela. - murmurou Alan. 
    - Com efeito, e pesando tudo  a criatura mais flexvel e adaptvel que j conheci. Est satisfeita com seus prprios defeitos... quem sabe at um pouco orgulhosa 
de alguns deles. Mas Shelby  um redemoinho de sentimentos. Quanto mais gasta, mais tem. Talvez nunca tenha deixado de sofrer.
    - Mas no pode negar o que sente. - disse Alan, frustrado - Por mais que a morte do seu pai a tenha afetado.
    - , mas ela pensa que pode.
    - Ela pensa demais. - murmurou ele.
    - No, sente demais. No ser uma mulher fcil de amar, nem de se conviver.
    Alan se obrigou a sentar novamente.
    - Deixei de desejar uma mulher fcil de amar quando conheci Shelby. - tudo parecia estar se esclarecendo agora. Os problemas concretos e especficos eram sua 
especialidade. Concentrou-se em rememorar tudo o que Shelby tinha lhe dito no dia anterior... aquele frio e depreciativo comportamento que tivera com ele. Lembrou, 
enquanto se obrigava a permanecer tranqilo, aquela fugaz pontada de arrependimento que vislumbrara em seus olhos. - Mas ontem ela me disse que no queria saber 
de nada comigo.
    Myra deixou sua xcara no pires com um gesto brusco.
    - Absurdo. O que essa menina precisa... - interrompeu-se, bufando desgostosa - Se vai desistir to facilmente, no sei por que me incomodo em dizer alguma coisa... 
Suponho que os jovens esperam receber tudo numa bandeja. Ao primeiro obstculo, desanimam. - Seu pai... - continuou acalorada - ... podia com tudo. E sua me, com 
quem voc se parece tanto, podia superar qualquer problema com a maior discrio, sem algazarra alguma. Que belo presidente vai ser...! Acho que vou mudar meu voto.
    - Eu no aspiro  presidncia. - retrucou Alan, dissimulando um sorriso.
    - Por enquanto.
    - Sim, por enquanto. E vou me casar com Shelby.
    - Oh! - exclamou Myra, j mais satisfeita - Talvez vote em voc, afinal de contas. Quando?
    Com o olhar fixo no teto, Alan refletiu por alguns instantes.
    - Sempre gostei de Hyannis Port no outono. - disse sorrindo - E Shelby adoraria se casar num antigo castelo escocs, no acha?
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    CAPTULO VI
    
    Uma semana tinha apenas sete dias. Shelby suportou quase seis dizendo a si mesma que no estava ficando louca. Porm, na sexta feira  tarde j havia esgotado 
quase todas as desculpas para seu mau-humor e sua falta de concentrao.
    No estava dormindo bem; por isso se sentia to fraca. No estava dormindo bem porque tinha estado muito ocupada... na loja e com um bom nmero de compromissos 
sociais. Durante toda a semana no havia rejeitado sequer um convite dos que recebera. Como se sentia deprimida, ou esgotada ou o que fosse, vinha se esquecendo 
de um bom nmero de coisas, entre elas algumas to bsicas como... comer.
    Como se sentia fraca, estava sempre de mau-humor. E como estava sempre de mau-humor, havia perdido o apetite.
    Shelby tinha se agarrado a esse tipo de explicao circular durante dias inteiros, sem reconhecer que o verdadeiro motivo tinha a ver com Alan. Vrias vezes 
havia tentado se convencer de que no pensara nele em nenhum momento. Em nenhum. E numa ocasio se sentiu to satisfeita por no ter lhe dedicado um s pensamento, 
que agarrou um vaso de cermica e o atirou contra a parede do ateli.
    Foi um gesto to incomum nela, que se viu obrigada a rever a explicao que havia dado para seu estado de nimo.
    Trabalhava at o esgotamento: at  altas horas da noite, quando no conseguia dormir, ou s primeiras horas da manh, pela mesma razo. Quando saa, se esforava 
tanto para se mostrar alegre e despreocupada que algumas de suas amigas haviam comeado a se preocupar com ela. Uma tarde combinou um encontro para jantar com seus 
amigos... do qual se esqueceu logo depois, para ficar trancada trabalhando no ateli.
    Podia ser culpa do tempo, refletiu enquanto se sentava atrs do balco, distrada. No rdio anunciaram que at domingo no pararia de chover. Para Shelby, o 
domingo estava h anos luz de distncia.
    A chuva deixava muita gente deprimida, e Shelby teve que reconhecer que o fato de nunca t-la deprimido antes no significava que no pudesse acontecer agora. 
Dois dias inteiros chovendo podiam afligir qualquer um.
    E a chuva tampouco era boa para o seu negcio. Naquele dia e no anterior no tivera mais que um punhado de clientes. Geralmente teria fechado a loja com um gesto 
resignado e procuraria outra coisa para fazer, mas em vez disso havia ficado ali dentro, tristonha, com um humor to sombrio quanto aquele cu nublado.
    Pensou em ir para algum lugar no final de semana. Talvez pegar um avio, viajar para o Maine e fazer uma surpresa para Grant. Seu irmo ficaria furioso. Ao pensar 
nisso, esboou seu primeiro sorriso sincero em vrios dias. Grant a mandaria para o inferno por aparecer sem avisar, mas depois se divertiriam muito conversando 
e brincando.
    Grant era terrivelmente divertido, mas tambm perspicaz demais, pensou Shelby imediatamente. Adivinharia que algo ia mal, e embora fosse extremamente zeloso 
de sua prpria intimidade, no se daria por vencido at que ela lhe contasse tudo. Shelby podia contar para sua mo, ou pelo menos uma parte, porm no a Grant. 
Talvez porque a compreendesse bem demais.
    Ento... Shelby soltou um profundo suspiro e repassou as opes que tinha. Podia ficar em Georgetown e continuar deprimida durante todo o fim de semana ou podia 
partir. Seria divertido colocar algumas coisas no carro e dirigir at deixar a chuva para trs. Para Skyline, na Virgnia, ou para as praias de Nags Head. Sim, uma 
mudana de cenrio, decidiu de repente. Uma mudana total.
    J tinha se levantado para colocar a placa de "Fechado" quando a porta se abriu de um golpe, dando passagem a uma corrente de ar frio e uma rajada de chuva. 
Uma mulher com um impermevel amarelo e botas de borracha entrou rapidamente e fechou a porta com pressa.
    - Que tempo horrvel. - exclamou.
    - O pior. - respondeu Shelby, encantada de ter ao menos um cliente. Dez minutos antes estivera quebrando a cabea tentando encontrar uma forma de atra-los - 
Deseja ver algo em particular?
    - No, s queria dar uma espiada.
    Forando um sorriso, Shelby pensou que se no fosse por aquela intromisso, naquele momento estaria se preparando para partir para uma praia ensolarada. Inclusive 
esteve a ponto de avis-la que s dispunha de uns dez minutos.
    - Fique  vontade. - disse por fim, resignada.
    - Uma vizinha me falou de sua loja. - a mulher se deteve para observar um vaso largo, adequado para um ptio ou terrao. - Fiquei encantada com o jogo de caf 
que ela comprou. Azul celeste, decorado com flores.
    - Sim, eu me lembro. - Shelby continuava obrigando-se a sorrir - No fao cpias, mas se est interessada em jogos de caf, tenho alguns parecidos... - olhando 
ao seu redor, tentou lembrar onde os tinha guardado.
    - Bem, o que mais me atraiu no foi tanto as cermicas em si, mas sua maneira de trabalhar. Minha vizinha me disse que voc pessoalmente torneava as peas que 
vendia.
    - Isso mesmo. - Shelby a observou detidamente. Era uma mulher atraente, de meia idade, cabelo liso e negro com mechas loiras. Sua expresso era muito afvel. 
- O torno fica nos fundos da loja. - disse, fazendo um esforo para dominar a vontade que tinha de fechar a loja e partir de uma vez - Tambm as esmalto e decoro.
    Viu que se inclinava para contemplar uma urna, examinando-a meticulosamente.
    - Utiliza algum tipo de molde?
    - Uma vez ou outra, para fazer figuras, mas prefiro o torno.
    - Sabe? Voc tem um talento excepcional... e uma grande capacidade de trabalho. - levantando-se, a mulher deslizou suavemente um dedo pela borda de uma cafeteira 
de barro. - Imagino o tempo e a pacincia que empregou para levar adiante esta produo.
    - Obrigada. Suponho que quando gosta muito de algo, voc se esquece do tempo que lhe dedica.
    - Mmmm.  verdade. Eu sou decoradora. - aproximou-se dela para entregar seu carto, na qual podia-se ler: Maureen Francis. Decoradora de interiores.  - Neste 
momento estou decorando um apartamento de minha propriedade, e gostaria de comprar essa cafeteira, aquela urna e esse vaso. - apontou cada uma das peas antes de 
se voltar para Shelby - Importaria-se de guard-las para mim at domingo? No quero que se estraguem com a chuva.
    - Claro. Eu as embalarei e poder peg-las quando quiser.
    - Estupendo. - Maureen tirou um talo de cheques da bolsa - Sabe de uma coisa? Tenho a sensao de que voc e eu podemos fazer bons negcios juntas. Estou em 
Washington apenas h um ms, porm j tenho algumas encomendas interessantes. - sorriu - Gostaria de usar suas cermicas em meus projetos de decorao.
    - De onde voc ? - perguntou Shelby, curiosa.
    - De Chicago. Estive trabalhando l durante bastante tempo para uma grande empresa... dez anos. - destacou o cheque preenchido e o entregou - At que decidi 
abrir um negcio prprio. 
    Assentindo, Shelby terminou de fazer a fatura.
    - Voc  uma boa profissional?
    Maureen pestanejou vrias vezes, surpresa por uma pergunta to direta, porm depois sorriu.
    - Muito boa.
    Shelby estudou seu rosto por um momento; tinha um olhar sincero, com um toque de humor. Seguindo um impulso, escreveu um nome e um telefone no verso da fatura.
    - Esta  Myra Ditmeyer. - explicou - Se existe algum nesta regio que queira redecorar sua casa, Myra com certeza saber. Conhece todo mundo. Diga a ela que 
eu lhe disse para procur-la.
    Impressionada, Maureen ficou olhando para a fatura. Estava h pouqussimo tempo na capital, mas j ouvira falar de Myra Ditmeyer.
    - Obrigada.
    - Myra s exigir em troca que lhe conte a histria da sua vida, mas... - Shelby se interrompeu quando a porta voltou a se abrir. E ficou paralisada de surpresa.
    Alan fechou a porta e tirou a capa molhada. Depois de cumprimentar Maureen educadamente com uma inclinao de cabea, pegou Shelby pelo queixo, se inclinou sobre 
o balco e a beijou nos lbios.
    - Te trouxe um presente.
    - No! - exclamou, retrocedendo - V embora.
    Alan se apoiou no balco enquanto se voltava para Maureen.
    - Voc acha que isso  jeito de se reagir ante um presente?
    - Bem, eu... - a mulher olhou de um para outro, encolhendo os ombros e sem saber o que dizer.
    - Claro que no. - continuou Alan, como se tivessem lhe dado razo. Tirou uma caixinha do bolso de sua capa e a colocou sobre o balco.
    - No vou abri-la. - Shelby fitou a caixa para evitar olhar para ele. No queria arriscar que lhe arrebatasse o juzo to rpido - E j fechei a loja.
    - No  verdade. - Alan se dirigiu novamente a Maureen - Shelby s vezes  um pouquinho rspida com as pessoas. Gostaria de ver com o que a presenteei?
    Indecisa, Maureen hesitou. E sem esperar que se decidisse, Alan abriu a caixa e extraiu uma finssima jia de cristal colorido em forma de arco-ris. Muito a 
contragosto, Shelby se sentiu encantada com o presente. E emocionada. 
    - Maldio, Alan. - perguntou-se como podia ter adivinhado que tinha vontade de ver um arco-ris depois de todos aqueles dias de chuva.
    - Costuma reagir assim. - explicou a Maureen - Isso quer dizer que gostou.
    - J disse que parasse de me mandar coisas.
    - No te mandei. - apontou enquanto depositava o arco-ris na palma de sua mo - Eu te trouxe.
    - No quero. - negou acalorada, porm fechou os dedos - Se no fosse um cabea-dura MacGregor, me deixaria em paz de uma vez.
    - Afortunadamente para ambos, compartilhamos essa mesma caracterstica. - antes que ela pudesse impedi-lo, segurou-lhe uma mo - Seu pulso voltou a acelerar, 
Shelby.
    Maureen clareou a garganta para chamar sua ateno.
    - Bem, creio que j  hora de eu ir. - guardou a fatura na bolsa enquanto Shelby olhava impotente para Alan - Voltarei na segunda. - acrescentou, embora nenhum 
dos dois parecesse se dar conta de sua partida - Ah. Se algum me presenteasse com um arco-ris num dia como este... - comentou, dirigindo-se para a porta - ... 
acho que teria cado de costas.
    Shelby demorou alguns segundos para reagir, e ento sua ltima cliente j havia partido. Cometera seu primeiro erro. J no podia disfarar o quanto estava alterada.
    - Alan, vou fechar a loja.
    - Boa idia. - foi at a porta para colocar o cartaz de fechado.
    - Ei, espere um momento, no pode... - interrompeu-se ao ver que se aproximava dela novamente. A tranqila e decidida expresso de seu olhar a obrigou a retroceder 
um passo, nervosa - Esta  minha loja, e voc... - se viu encurralada contra a parede no exato momento em que Alan dava a volta no balco.
    - E ns... - parou  sua frente - ... vamos sair para jantar.
    - Eu no vou a parte alguma.
    - Vai. - ele a corrigiu.
    Shelby ficou olhando-o fixamente, nervosa e confusa. A voz de Alan no era autoritria nem impaciente. No havia fria alguma em seus olhos. Teria preferido 
a fria quela contundente e demolidora confiana. Era mais simples combater o furor com o furor. Porm, se ele iria se mostrar to tranqilo, ela tentaria fazer 
o mesmo.
    - Quem  voc para me dizer o que tenho que fazer?
    Como resposta Alan a puxou para si.
    - No vou sair com voc. - insistiu - Tenho planos para este fim de semana. Vou... vou  praia.
    - Onde guarda seu casaco?
    - Alan, estou te dizendo que...
    Encontrou sua jaqueta no cabide atrs do balco. Pegou-a e lhe entregou sem perder tempo.
    -  E sua bolsa?
    - Algum dia vai entrar na sua cabea que no quero ir com voc a lugar algum?
    Ignorou-a e pegou sua bolsa. Recolhendo as chaves que estavam sobre o balco, agarrou-a pelo brao e a levou para a porta.
    - Maldio, Alan, j disse que no vou sair. - de repente se encontrou sob a chuva enquanto Alan fechava a porta - No quero ir a lugar algum com voc.
    - Pior para voc. - guardou as chaves nos bolsos da capa enquanto Shelby obstinadamente no se afastava da porta.
    - No pode fazer isto comigo. - disse, afastando o cabelo molhado dos olhos.
    Alan arqueou uma sobrancelha e a fitou pensativo. Estava plida e ensopada, mas tambm mais linda do que nunca. E percebeu, com grande satisfao, que se sentia 
um pouco insegura. Estava no caminho certo.
    - Teremos que comear a contar as vezes que me diz que no posso fazer isso ou aquilo. - comentou antes de agarr-la de novo pelo brao e lev-la at seu carro.
    - Se acha que... - se interrompeu quando Alan a meteu no veculo, sem cerimnias. - Se acha que... - comeou de novo - ... vou me deixar impressionar por suas 
tticas de homem das cavernas, est muito enganado. Devolva minhas chaves. - exigiu, estendendo a mo com a palma para cima.
    Porm Alan a segurou para depositar um beijo em seu centro, e imediatamente arrancou com o carro.
    - Alan, no sei que diabos est acontecendo com voc, mas isto tem que acabar. Quero que devolva minhas chaves agora mesmo.
    - Depois do jantar. Como foi sua semana?
    Shelby cruzou os braos. S ento se deu conta de que ainda segurava o arco-ris que ele lhe presenteara. Num impulso, guardou-o no bolso da jaqueta, que acabava 
de tirar.
    - No vou jantar com voc.
    - Pensei que seria melhor que fssemos a um lugar tranqilo. - virou  direita, em meio ao intenso trfego - Parece um pouco cansada, querida; no tem dormido 
bem?
    - Tenho dormido perfeitamente. - mentiu - Sai ontem  noite. - voltou-se para ele para acrescentar - Tinha um encontro.
    Alan teve que dominar uma pontada de cimes. Mas a habilidade que Shelby tinha para irrit-lo j no o surpreendia.
    - Voc se divertiu.
    - Me diverti muito. David  msico, e tem uma sensibilidade deliciosa. E, alm do mais,  muito passional. Estou louca por ele. - pensou que David teria ficado 
muito surpreso se pudesse ouvi-la naquele momento, j que na verdade estava comprometido com uma de suas amigas mais ntimas - De fato, - continuou, inspirada - 
s sete vai passar para me pegar. Por isso agradeceria que desse a volta agora mesmo e me levasse para minha casa.
    Porm, em vez de satisfazer seu desejo ou explodir de raiva, Alan fitou tranqilamente seu relgio.
    - Lamento. Duvido que estejamos de volta a tempo. - enquanto ela continuava mergulhada num ptreo silncio, freou e estacionou o carro -  melhor vestir a jaqueta; 
teremos que andar um pouco. - como viu que no se movia e nem falava, inclinou-se sobre ela como se fosse abrir a porta e lhe disse ao ouvido - A no ser que prefira 
ficar no carro.
    Shelby se voltou, disposta a retrucar algo, porm Alan aproveitou aquele instante para beij-la rapidamente nos lbios. Depois daquilo optou por no dizer nada 
e se apressou a descer do carro, colocando a jaqueta sobre os ombros. "Em breve as coisas mudaro", prometeu-se enquanto tentava acalmar sua respirao acelerada. 
E quando recuperasse suas chaves, o faria pagar muito caro.
    Assim que se juntou a ela na calada, Alan a segurou pelas mos e ficou olhando-a fixamente. Pouco a pouco pde sentir como sua resistncia inicial ia se desvanecendo.
    - Voc tem gosto de chuva. - murmurou, antes de ceder a tentao de beij-la de novo. Essa semana que passara longe dela esteve a ponto de deix-lo louco.
    A chuva continuava caindo sobre eles, e lembrou a Shelby por um instante a imagem de uma catarata. Quando a jaqueta resvalou de seus ombros, pensou num arco-ris. 
Evocou de repente todas as suas necessidades, todos os seus anseios, todos os seus sonhos em formao. Como pudera viver durante anos sem ele, quando j no podia 
suportar uma s semana sem v-lo, sem sentir suas carcias?
    Relutante, Alan se afastou. Estava convencido de que se esperasse s mais um segundo, teria acabado esquecendo de que se encontravam em plena rua. Seu rosto, 
banhado pela chuva, tinha a cor do marfim. As gotas resvalavam por suas longas pestanas como diminutos diamantes. Deveriam estar sozinhos, pensou, em algum radiante 
bosque outonal ou numa descoberta pradaria. Ento no teriam existido motivos para se deter, para se afastar. Voltou a colocar a jaqueta sobre seus ombros.
    - Gosto do seu cabelo molhado. - com um gesto lento e possessivo, o acariciou. E sem dizer mais nada, a envolveu com um brao e comearam a andar.
    Shelby conhecia o restaurante. Era elegante e ntimo, com msica muito suave, porm s dez se enchia de gente e de barulho. Um homem como Alan no o freqentaria 
depois desse horrio, enquanto ela sim. Naquele momento estava fracamente iluminado, com velas em cada mesa, e s se ouviam leves murmrios.
    - Boa noite, senador. - o maitre o cumprimentou, antes de se voltar para Shelby - Encantado em tornar a v-la, senhorita Campbell.
    - Boa noite, Mario. 
    - Sua mesa est esperando. - os guiou at uma mesa afastada - Que vinho vo querer? - perguntou enquanto puxava a cadeira de Shelby.
    - Pouilly Fuisse, Bichot. - respondeu Alan, sem consult-la.
    - Mil novecentos e setenta e nove. - disse Mario com um gesto de aprovao - Muito bem. O garom j vir atend-los.
    Shelby afastou o cabelo molhado dos olhos.
    - Acho que teria preferido uma cerveja.
    - Na prxima vez. - respondeu Alan com tom afvel.
    - No haver uma prxima vez. E falo srio. - acrescentou quando ele comeou a acariciar-lhe o dorso da mo com a ponta de um dedo - Agora mesmo no estaria 
aqui se no tivesse me tirado a fora da minha loja. E no me toque assim. - protestou, furiosa. 
    - Como gostaria ento que a tocasse? Tem mos muito sensveis. - murmurou antes que ela pudesse responder algo. Ao acariciar-lhe o n dos dedos com o polegar, 
percebeu um ligeiro tremor - Quantas vezes pensou em mim durante esta semana?
    - No pensei em voc. - alfinetou Shelby, embora em seguida sentisse uma pontada de culpa por aquela nova mentira - Est bem. - cedeu - E se o fiz? - tentou 
retirar a mo, mas Alan fechou os dedos sobre os seus e a reteve. Era um gesto simples e convencional, quase insignificante, porm a inundou de prazer - A conscincia 
me remoia pelo comportamento que tive com voc. Embora depois do que fez esta noite, o que lamento  no ter me mostrado ainda mais desagradvel. E isso  algo que 
sei fazer muito bem. - acrescentou em tom ameaador.
    Alan limitou-se a sorrir enquanto Mario se dispunha a servir-lhe o vinho.  Sem deixar de olh-la nos olhos, provou-o lentamente e assentiu com a cabea.
    - Muito bom.  o tipo de sabor que permanece na boca durante horas. Mais tarde, quando a beijar, ainda no ter desaparecido de seus lbios.
    Shelby sentiu que a pulsao trovejava em seus ouvidos.
    - Se estou aqui,  s porque voc me obrigou.
    Mario no derramou nem uma s gota de vinho enquanto servia suas taas, o que merecia crdito, j que no perdia nenhuma palavra daquela conversa.
    Os olhos de Shelby arderam ao ver que Alan continuava sorrindo.
    - E considerando que se nega a devolver minhas chaves, vou at o telefone mais prximo ligar para um chaveiro. E voc pagar a conta.
    - Depois do jantar. - disse Alan - Que tal o vinho?
    Franzindo o cenho, Shelby pegou a taa e bebeu metade de seu contedo.
    -  bom. - respondeu, e o encarou desafiante - Mas lembre que isso no  um encontro.
    - Est se parecendo cada vez mais com um tenso debate parlamentrio, no? Mais vinho?
    Shelby estava perdendo a pacincia. Desejava bater os punhos sobre a mesa; isso faria tremer copos e pratos, pensou, tentada pela idia. E seria bem merecido. 
Mas depois pensou no escndalo que se montaria na imprensa, e mudou de idia.
    - Nem o vinho nem a luz das velas te serviro de nada.
    - Ah, no? - continuava segurando-lhe a mo - Bem, eu pensei que estava na hora de algo mais tradicional. 
    -  mesmo? - Shelby no pde evitar um sorriso - Ento deveria ter me dado uma caixa de bombons ou um buqu de rosas. Isso sim  tradicional.
    - Mas eu sabia que preferiria um arco-ris.
    - Voc sabe demais. - pegou o menu que o garom lhe ofereceu e enfiou o nariz nele. J que a tinha arrastado at ali, o melhor que podia fazer era desfrutar 
do jantar. Por fim, depois de tantos dias, havia recuperado o apetite. E a energia tambm, admitiu a contragosto. Desde o momento em que voltara a v-lo, sua depresso 
havia evaporado.
    - J decidiu o que deseja jantar, senhora Campbell?
    Shelby ergueu o olhar para o garom e forou um sorriso.
    - Sim. Quero uma salada de mariscos com abacate, consom e lombo de cordeiro com salsa a bearnesa. Ah, e batata assada com molho de alcachofra. A sobremesa eu 
escolherei depois.
    O garom tomou nota, impassvel.
    - Senador?
    - A salada da casa. - disse, sorrindo ao ver a expresso de assombro com que Shelby o olhou - E os camares. Vejo que o passeio sob a chuva abriu seu apetite, 
querida.
    - J que estou aqui, o melhor que posso fazer  encher o estmago.  Bom... - em outra de suas sbitas mudanas de humor, cruzou os braos sobre a mesa e acrescentou 
em tom animado - Teremos que matar o tempo de algum jeito, no? Do que vamos falar, senador? Como vai no Senado?
    - Muito ocupado.
    - Ah, o clssico comentrio. Sei que tem trabalhado duro para barrar o projeto de lei de Breiderman. Um bom feito; isso tenho que reconhecer. Ah, e depois vem 
seu projeto preferido. Teve progresso na obteno dos fundos que precisa?
    - Dei alguns passos na direo correta. - a fitou pensativo por um instante. Para uma mulher com tanta averso  poltica, estava muito bem informada. - O prefeito 
de Washington se mostrou muito entusiasmado com a idia de criar aqui o mesmo tipo de albergue que comeamos a construir em Boston. Mas por enquanto, teremos que 
depender em grande parte da ajuda dos voluntrios... at que tenhamos acesso aos fundos federais.
    - Tem uma longa batalha pela frente... tendo em vista os cortes dos gastos pblicos e a atual poltica oramentria.
    - Sei disso. Mas no final ganharei. - um leve sorriso surgiu em seus lbios - Posso chegar a ser to paciente... como insistente.
    Desconfiando do brilho que via em seus olhos, Shelby no disse nada enquanto o garom servia as saladas.
    - Voc teve muito trabalho com o assunto de Breiderman; com certeza retiraro o projeto.
    - Assim  o jogo. Sem complicaes, no se consegue nada que realmente valha a pena. E eu... - encheu de novo o copo - ... sou muito propenso a super-las conforme 
me vo se apresentando.
    Dessa vez Shelby no pde ignorar o duplo sentido de suas palavras. Levou um garfo de salada  boca e mastigou, pensativa.
    - No pode planejar uma aventura romntica como se fosse uma campanha poltica, senador. Sobre tudo com algum que conhece todos os truques.
    O bom humor de Alan se refletiu em sua expresso. Sem que pudesse evitar, Shelby descobriu que ansiava acariciar aquele rosto.
    - Mas vai admitir que sempre fui sincero com voc. Asseguro que no tenho feito nem uma s promessa que no pretenda cumprir.
    - Eu no sou um de seus eleitores.
    - Nem por isso vou mudar meu programa.
    Shelby sacudiu a cabea, entre exasperada e divertida.
    - No vou discutir com voc no seu territrio. - brincando com os restos da salada, ergueu o olhar para ele - Suponho que tenha visto a fotografia no jornal.
    - Sim. - Alan se deu conta de que aquilo no havia lhe agradado, embora tentasse dissimular com tom leve e a sombra de um sorriso - Adorei que me recordassem 
aquele momento to especial. Lamento que tenha te incomodado.
    - No me incomodou. - se apressou a negar - De verdade. - se interrompeu enquanto o garom retirava a salada para servir o consom. Comeou a revolv-lo com 
gesto ausente - Suponho que s me recordou que voc est constantemente sob a mira da imprensa. Isso o incomoda?
    - Sim e no. A publicidade faz parte de minha profisso. Pode ser tanto um meio para alcanar um fim, como um aborrecido inconveniente. - de repente quis v-la 
sorrir - Claro, ardo de vontade de ver a cara de meu pai quando descobrir que estive no zoolgico com uma Campbell.
    Tal como havia previsto, Shelby comeou a rir. A tenso de seus ombros diminuiu um pouco.
    - Por acaso teme perder sua herana, Alan?
    - Temo mais pela minha pele. Ou ao menos por meu ouvido. Acho que ficarei surdo quando falar com ele ao telefone.
    Sorrindo, Shelby levou seu copo aos lbios.
    - Voc o deixa acreditar que pode intimid-lo?
    - De vez em quando. Assim fica contente.
    - Sabe? - pegou um pozinho, partiu-o em dois e lhe ofereceu a metade - Se fosse mais esperto, evitaria minha companhia. No deveria se arriscar a ficar sem 
ouvido; na poltica, um ouvido afiado  algo imprescindvel.
    - Eu me encarregarei de meu pai... quando chegar a hora.
    - Quer dizer depois de ter se encarregado de mim, no ?
    Alan ergueu seu copo  guisa de brinde.
    - Exatamente.
    - Alan... - sorriu de novo, j mais confiante - No vai conseguir.
    - Isso j veremos. - respondeu com tom tranqilo - Ah, a est seu lombo.
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    CAPTULO VII
    
    Shelby desejaria no ter gostado tanto do jantar. Desejaria que Alan no tivesse sido capaz de faz-la rir com tanta facilidade. Ou de persuadi-la a acompanh-lo 
at a M Street para tomar um ltimo copo de vinho num pequeno e abarrotado caf.
    Mas no pde evitar. Pela primeira vez em uma semana podia rir, relaxar e se divertir sem esforo. Haveria conseqncias; sempre havia. Porm pensaria nelas 
no dia seguinte.
    Mais de uma vez algum se aproximou de sua mesa para cumpriment-la, e de passagem olhar com curiosidade para Alan. Aquilo lhe lembrou que esse tipo caf era 
seu territrio, no o dele.
    - Ol, linda.
    Shelby ergueu os olhos enquanto sentia pousarem as mos sobre seus ombros.
    - Ol, David. Ol, Wendy.
    -Ei, supunha-se que deveria ter nos ligado essa noite. - lhe recordou David - Tivemos que assistir essa nova pea em Fords sem voc.
    Wendy, sacudindo sua longa e bela cabeleira, deslizou o brao em torno da cintura de David.
    - A verdade  que voc no perdeu nada.
    - Eu... bem, me distra um pouco. - Shelby desviou o olhar para Alan - Deixe-me apresent-los a Alan. Estes so David e Wendy.
    - Encantado em conhec-los. - sorriu - Querem se sentar?
    - Obrigado, mas j estvamos indo. - David despenteou Shelby carinhosamente, antes de pegar seu copo de vinho para dar um gole rpido - Amanh temos que comparecer 
a um casamento.
    - David ainda continua tentando se convencer de que ter que comparecer ao nosso no ms que vem. - brincou Wendy - Ei, vou te ligar para pedir o telefone daquela 
empresa de fornecimento grega da qual me falou. - e acrescentou, dirigindo-se a Alan - Shelby disse que o ouzo anima muito as festas. Bem, nos vemos por a. At 
logo.
    Alan os observou enquanto se dirigiam para a sada, curioso.
    - Esse rapaz vai muito rpido.
    - David? - Shelby o fitou, espantada -  a pessoa mais devagar e tranqila do mundo, exceto quando tem uma guitarra nas mos.
    -  mesmo? - um brilho de humor relampejou em seus olhos - No me disse antes que ontem vocs caram juntos na farra e que estava louca por ele? Pois esta noite 
voc o deixou plantado e ele j est pensando em se casar com outra. Se isso no  ir muito rpido...
    - Oh - dividida entre a irritao e seu prprio senso de ridculo, se ps a brincar com seu copo. - Bem, os homens so criaturas muito volveis. Mudam de opinio 
muito facilmente num mesmo dia...
    -  o que parece. - inclinando-se para ela, ergueu seu queixo com um dedo - Vejo que est digerindo muito bem esta decepo amorosa.
    - No gosto de ficar expressando demais meus sentimentos - exasperada e divertida ao mesmo tempo, reprimiu uma risada - Maldio, por que tinha que me encontrar 
com David justamente esta noite? - continuou fingindo, embora soubesse que no tinha mais nenhuma credibilidade.
    - E com todos os bares que existem neste bairro...
    Shelby j no se reprimiu mais e comeou a rir.
    - Bem, d na mesma... - levantou seu copo - Brindemos aos coraes partidos?
    - Ou s pessoas que no sabem mentir bem?
    - Antes mentia muito bem. - confessou - Alm disso,  verdade que estive saindo com David... mas isso faz uns trs anos. - terminou seu vinho - Ou talvez quatro. 
Pode apagar esse sorriso convencido e arrogante do seu rosto, senador.
    - Estava sorrindo? - perguntou, levantando-se e entregando-lhe sua jaqueta - Que grosseria da minha parte.
    - Teria sido muito mais educado fingir que no havia me surpreendido em tal mentira. - recriminou Shelby enquanto abria caminho entre a multido e saam para 
a rua, sob a chuva que no havia cessado.
    - Sim. - rodeou seus ombros com um brao, sem que ela protestasse - E suponho que a culpa  minha por no ter lhe dado tempo para pensar numa mentira mais elaborada 
e efetiva.
    - Isso mesmo. - Shelby ergueu o rosto para o cu, esquecendo-se de que apenas algumas horas antes havia amaldioado aquela chuva com todas as suas foras. Gostava 
de sentir seu frescor, teria sido capaz de continuar caminhando assim durante horas... - Mas no vou lhe agradecer pelo jantar.  - acrescentou com um brilho divertido 
nos olhos. Quando chegaram ao carro se voltou para ele, apoiando-se na porta aberta. - Nem tampouco pelo vinho.
    Alan contemplou seu rosto banhado pela chuva e a desejou com desespero. Teve que afundar as mos nos bolsos para no ceder a um impulso do qual poderia se arrepender 
depois.
    - Que me diz do arco-ris?
    Um leve sorriso bailou nos lbios de Shelby.
    - Talvez por isso sim eu te agradea. Ainda no me decidi. - entrou rapidamente no carro. Havia se dado conta de que lhe tremiam os joelhos... com um s olhar 
que Alan lhe lanara. Teria sido muito mais prudente conservar a atitude leve e despreocupada haviam mantido no caf... Ao menos at que se encontrasse s e salva 
dentro do seu apartamento. - Sabe? - acrescentou quando ele se sentou ao volante - Esta noite pensava em dirigir at uma praia. E voc arruinou meus planos.
    - Gosta de praias na chuva?
    - Esperava que no chovesse. Mas sim; tambm me agradam na chuva.
    - Eu as prefiro numa tormenta. - explicou enquanto dirigia - Quando o sol est sumindo... quando ainda h luz suficiente para ver como o cu se enfrenta com 
o mar...
    -  mesmo? - intrigada, observou seu perfil - Eu teria pensado que preferia as tranqilas praias de inverno, onde pode passear sozinho e meditar...
    - Tudo tem sua hora.
    Shelby podia imaginar muito bem a paisagem que ele descrevera: os relmpagos, os troves, o uivo do vento... Algo, que no era o vinho que havia bebido, estava 
lhe esquentando o sangue. Vibraes. Tinha percebido as vibraes que Alan emitia desde o primeiro momento em que o viu, porm agora era como se aflorassem  luz, 
 superfcie. E, se no tomasse cuidado, acabaria sucumbindo a elas.
    - Minha irm vive em Atlantic City. - comentou Alan - Gosto de ir para l nas raras ocasies em que no tenho muito trabalho, para passar alguns dias caminhando 
pela praia ou perdendo dinheiro em seu cassino.
    - Sua irm tem um cassino?
    - Ela e o marido tm vrios. - sorriu, divertido pela surpresa que a voz de Shelby refletia - Rena costumava jogar blackjack. Ainda joga de vez em quando. Imaginava 
que eu tinha uma famlia to formal e severa como aborrecida, no ?
    - No exatamente. - respondeu, embora em grande parte tivesse razo - Ao menos no pelo que sabia de seu pai. Myra parece gostar muito dele.
    - Adoram discutir. So igualmente categricos em suas opinies. - estacionou diante do apartamento de Shelby, e desceu rapidamente para abrir-lhe a porta.
    Uma vez na entrada, Shelby procurou as chaves no bolso por puro reflexo.
    - Eu continuo com elas. - lhe recordou Alan enquanto as tirava de um bolso. Sem deixar de olh-la nos olhos, comeou a brincar com as chaves. - Acho que valem 
uma xcara de caf.
    - Isso  chantagem. - retrucou ela, franzindo o cenho.
    - Chantagem? - fitou-a com expresso tranqila - Eu penso que est mais para uma transao comercial.
    Shelby hesitou por um instante, mas por fim cedeu, suspirando. Conhecia-o bem o bastante para saber que podiam continuar discutindo durante uma hora inteira 
na entrada... e ainda assim acabaria saindo com uma das suas e tomando essa xcara de caf. Ficando de lado, apontou a porta fechada.
    - Adiante.
    Uma vez dentro de casa jogou descuidadamente a jaqueta sobre uma cadeira da cozinha, sobre a qual casualmente o gato se achava deitado. O animal se espreguiou, 
saltou para o cho e encarou-a com seu nico olho.
    - Oh, desculpe. - abriu um armrio e tirou uma embalagem de comida para gatos - No me olhe assim. A culpa  dele. - disse a Nelson e depois se voltou para Alan 
- Ele no gosta que eu volte tarde para casa e lhe d o jantar a essa hora.  muito rgido com os horrios de suas refeies.
    - No parece que passe fome.
    - No, fome no passa, - se aproximou da pia para encher a cafeteira d'gua - mas fica muito irritado. Se algum dia... - perdeu o fio do que estava dizendo ao 
sentir as mos de Alan deslizando por seus ombros - ... se algum dia me esqueo de lhe dar de comer... - quando sentiu o roar de seus lbios na orelha, a cafeteira 
escapou-lhe das mos e caiu na pia - ... se aborrece. - por fim conseguiu ench-la e deix-la sobre o balco.
    - Imagino. - murmurou Alan. Afastando-lhe delicadamente o cabelo do pescoo, acariciou-lhe a nuca - Shelby...
    Disse a si mesma que tinha que ignor-lo. Ignorar completamente o que estava lhe fazendo...
    - O qu?
    - Mmmm. - com os lbios traou um caminho ardente ao longo de todo o seu pescoo, lambendo-o.
    Trmula, Shelby teve que se apoiar no balco.
    - O qu?
    - Voc no... - plantou um pequeno beijo num canto de sua boca, e depois no outro - ... ps o caf na cafeteira.
    Fechando os olhos, Shelby se sentia mais fraca que nunca.
    - O qu?
    - No ps caf na cafeteira. - a beijou nos cantos dos lbios.
    - Oh... Agora mesmo... - murmurou ao sentir o delicioso contato de seus lbios nas plpebras fechadas. O ouviu rir suavemente e se perguntou por que aquele riso 
lhe soava to triunfante. Teve que fazer uso de toda sua fora de vontade para lutar contra aquele fogo interno que j tinha se transformado num incndio - Alan... 
Est tentando me seduzir.
    - No, no  verdade. - mordiscou-lhe o lbio inferior antes de descer novamente at sua garganta. Ansiava desesperadamente sentir a batida de seu pulso - Estou 
te seduzindo.
    - No. - Shelby apoiou as mos em seu peito com inteno de afast-lo de si. No soube como aconteceu, mas no final o que fez foi lanar os braos em volta de 
seu pescoo.
    Alan mal pde dominar a urgente pontada de desejo que o atravessou enquanto enterrava os dedos em seu cabelo.
    - No? - concentrou-se novamente em sua boca - Por qu?
    - Porque... - se esforou para lembrar onde estava. Ou quem era. - Porque... este  o caminho da perdio?
    Alan sufocou uma risada antes de continuar acariciando-lhe os lbios com a lngua.
    - Tente outra vez.
    - Porque... - era demais. Supunha-se que o desejo no era to doloroso. Sabia disso porque j havia experimentado desejo antes. No. Aquilo tinha que ser algo 
diferente, algo que no sabia como nomear. Era uma fraqueza to imensa, e ao mesmo tempo uma fora to abrasadora que ameaava reduzir a cinzas todas as suas convices, 
tudo em que acreditara at o momento - No. - o pnico, pulsante e real, explodiu em sua mente - No, eu te desejo demais. No posso deixar que isso acontea; ser 
que no se d conta?
    - Tarde demais. - ainda cobrindo seu rosto de beijos, a guiou atravs do apartamento -  tarde demais, Shelby. - abriu-lhe a blusa e deslizou-a por seus ombros, 
deixando que casse ao cho. Pensou que dessa vez, dessa primeira vez, seria sim uma seduo. Uma seduo que ambos recordariam durante todos os anos que estavam 
por vir. Sem pressa, acariciou-lhe os braos e os ombros nus - Sabe quantas vezes me imaginei assim com voc? Quantas vezes me imaginei tocando-a... - roou-lhe 
um seio por cima da combinao - ... assim? - a saia no demorou em seguir o caminho da blusa. - Ouve a chuva, Shelby?
    - Sim. - respondeu enquanto tombavam na cama.
    - Vamos fazer amor. - mordiscou-lhe de novo uma orelha - E cada vez que voc ouvir chover, vai se lembrar disto.
    No precisava da chuva para lembrar disso. Seu corao nunca havia batido to rpido. Sim, podia escutar a chuva, tamborilando sem parar no telhado, ou contra 
as vidraas das janelas. Mas no precisava voltar a escutar esse som para lembrar a forma to perfeita como a boca de Alan se adaptava a sua, como seu prprio corpo 
parecia encaixar no dele. S teria que pensar nele para evocar o brilho daquelas gotas de chuva em seu cabelo, ou seu nome dito num sussurro por seus lbios.
    Nunca havia se entregado to completamente a um homem, embora nem sequer ela mesma tivesse conscincia disso. Naquele instante estava se rendendo, deixando que 
ele a conduzisse at onde se mostrara to relutante, ou to temerosa, em ir.  inconscincia.
    Alan parecia querer toc-la e sabore-la por inteiro, toda ela, mas o fazia com tanta lentido e meticulosidade que Shelby acreditava estar flutuando de prazer, 
perdida numa nvoa de sensaes. Somente com as pontas dos dedos, com os lbios, estava arrastando-a at um nvel de excitao insuportvel. At comear a abrir 
os botes de sua camisa, Shelby no havia compreendido o significado da palavra "languidez". Os braos lhe pesavam tanto... Suas mos e seus dedos, sempre to hbeis, 
se moviam com verdadeira inaptido, para seu prprio desespero...
    Mas, de repente, Alan se apoderou avidamente de sua boca, estreitando-a contra si e imobilizando suas mos. Quem sabe fosse uma demonstrao inconsciente de 
dominao da sua parte, ou talvez j no conseguira mais se reprimir; fosse como fosse, Shelby deixou de se entregar para comear a tomar. A partir desse momento 
sua avidez se equiparou a dele, e quando ameaou ultrapass-la, o autocontrole de Alan comeou a vacilar. Seus dedos j no tremiam enquanto desnudava o torso forte 
e musculoso. Era como uma corrida entre os dois para ver quem excitava o outro mais intensamente, e mais rpido.
    Alan ento se dedicou a descobrir com os lbios as zonas de prazer que Shelby nem sequer sabia que existiam, concentrando-se por inteiro nelas. Apressadamente 
a livrou das ltimas barreiras de roupas. A sentia tremer onde a tocava, onde sua lngua incendiava sua pele. Sabia que j havia deixado seu medo para trs. Aquilo 
era paixo, a paixo pura e simples que Alan sempre soubera que receberia se esperasse o suficiente. Era o redemoinho e o caos que tanto tinha ansiado e esperado 
dela.
    Agressiva, toda fogo e esplendor, Shelby se movia com ele, contra ele, para ele, at que acabou por esgotar e destruir sua capacidade de controle. Podia saborear 
todo seu ser respirando seu alento: um alento maravilhosamente doce e tentador.
    
    Ningum tinha a iniciativa, e sim se viam igualmente arrastados um pelo outro. Shelby o acolheu dentro de si com um grito que abafou contra seus lbios e que 
nada teve a ver com uma rendio. Trovo e relmpago, se devoraram mutuamente.
    
    
    A chuva continuava caindo. Podiam ter continuado assim, abraados, durante horas inteiras. Nenhum deles havia pensado no tempo. Apenas no aqui e agora.
    Shelby se aconchegou contra Alan, os olhos fechados, to tranqila e sossegada como se aquela tormenta de sensaes nunca tivesse acontecido. Mas ela havia sim 
explodido: tinha se rendido a ela e como conseqncia descobrira uma serenidade de esprito que nunca antes havia experimentado. Alan. Alan era sua paz, seu corao, 
seu lar. Firme, slido, enigmtico, tenaz. Com suas mltiplas facetas. Talvez fosse por isso que se sentia to inevitavelmente atrada por ele.
    De repente Alan se moveu, puxando-a mais para si. Ainda podia sentir o que havia experimentado antes com tanta intensidade: a excitao, a paixo, as sensaes 
que no sabia nomear. Shelby continuava invadindo seu ser. Era como um redemoinho, um vento impetuoso que soprava em todas as direes ao mesmo tempo. Ou uma doce 
brisa que aliviava as asperezas do mundo que to bem conhecia. Sim, precisava dessa magia que s Shelby sabia lhe dar, da mesma forma que precisava, em troca, satisfazer 
todos os seus desejos.
    Lenta, sensualmente, deslizou a mo por suas costas.
    - Mmmm. Outra vez. - murmurou Shelby.
    Rindo em voz baixa, Alan repetiu a carcia e ela ronronou de prazer.
    - Shelby... - como resposta, a ouviu suspirar novamente enquanto continuava se aconchegando contra ele - Shelby, tem algo quente e peludo debaixo dos meus ps.
    - Mmmm.
    - Se  seu gato, no est respirando.
    -  MacGregor.
    - O qu? - beijou-a no cabelo.
    Shelby abafou uma risada contra seu ombro.
    -  MacGregor. - repetiu - Meu porquinho.
    Seguiu-se um momento de silncio enquanto Alan tentava digerir aquela informao.
    - Perdo?
    O tom seco e srio de sua voz lhe arrancou uma nova risada.
    - Oh, diga outra vez. Adorei. - como tinha que ver seu rosto, Shelby encontrou a energia necessria para se inclinar sobre ele, riscar um fsforo da caixa que 
estava sobre a mesinha e acender uma vela - Chama-se MacGregor. - disse, dando-lhe um rpido beijo antes de apontar o boneco de pelcia que estava aos ps da cama.
    Alan ficou olhando aquele rosto suno to sorridente.
    - Colocou meu nome num porco de pelcia?
    - Alan, isso  maneira de falar do nosso filho?
    Estava olhando-a com uma expresso to masculina e irnica que Shelby se deixou cair sobre seu peito, rolando de rir.
    - Coloquei seu nome porque supostamente esse seria o nico MacGregor com quem estaria disposta a me deitar.
    -  mesmo? - riu, divertido.
    - Pois sim. E pode ver que me enganei. Voc sabia muito bem que eu seria incapaz de resistir para sempre a seus bales e a seus arco-ris. - contemplando deleitada 
o reflexo dourado da vela em seu rosto, se dedicou a seguir seu contorno com a ponta de um dedo. - A verdade  que no esperava que isto acabasse acontecendo.
    Alan segurou seu pulso para depositar um terno beijo sobre sua palma.
    - Refere-se ao fato de termos feito amor?
    - No. - o olhar de Shelby viajou de sua boca at seus olhos - Me refiro a me apaixonar por voc. - sentiu que seus dedos se retesavam por um instante em seu 
pulso, enquanto seu olhar, cravado em seus olhos, se tornava mais escuro. Percebeu, inclusive, que o corao lhe dava um salto no peito - E voc?
    - Sim. - a palavra, apenas audvel, ressoou em sua mente. Atraiu-a para si, aconchegando-lhe a cabea contra seu peito. No tinha esperado receber tanto dela 
em to pouco tempo - Quando? - perguntou.
    - Quando? - repetiu Shelby, desfrutando do slido contato de seu peito sob sua face - Em algum momento entre nosso primeiro encontro na casa dos Write e o instante 
em que abri o pacote que me mandou e vi que era uma cesta de morangos.
    - Demorou tanto? Mas se a nica coisa que tive que fazer foi olhar para voc. - brincou.
    Shelby ergueu a cabea para olh-lo nos olhos. Sabia que na verdade no estava exagerando.
    -  verdade. Se me dissesse isso h uma semana, ou h um dia, pensaria que estava louco. - beijou-o nos lbios, rindo - Talvez esteja... mas no me importa. 
No me importa absolutamente nada. - acrescentou, suspirando.
    Sabia que era uma pessoa terna... sobretudo com as crianas e os animais. Nunca antes havia sentido verdadeira ternura por um homem. Porm, quando naquele momento 
voltou a beij-lo, com aquelas palavras de amor ainda ecoando em sua cabea, se sentiu verdadeiramente inundada, transbordante de ternura. Acariciou novamente seus 
traos com seus dedos de artista, moldando seus relevos e contorno e gravando-os a fogo na memria.
    Depois desceu pela poderosa coluna de seu pescoo, at suas costas musculosas. Tinha costas largas e fortes... o bastante para poder arcar com o peso de qualquer 
problema que ela pudesse ter... Porm no o faria. Bastava-lhe t-lo ao seu lado, saber que estava ali. Sem tirar os lbios dos seus, reconheceu o rastro de seu 
prprio cheiro nele, e aquele detalhe lhe pareceu  maravilhoso. Ficaram abraados em silncio durante mais alguns instantes: nus, saciados, felizes.
    - Posso dizer algo sem que te suba  cabea? - murmurou Shelby enquanto deslizava os lbios por seu peito.
    - Provavelmente no. - respondeu com voz rouca de prazer - Sinto-me lisonjeado com muita facilidade.
    - Quando esteve em meu ateli... - beijou-o num mamilo, sentindo a rpida batida de seu corao - ... lembra que tirou o suter para que o lavasse? Quando o 
vi, senti uma vontade terrvel de fazer isto. - deslizou as mos por seu torso, at chegar  estreita cintura.  - Assim e assim... E a verdade  que estive a ponto 
de faz-lo.
    Alan sentiu que seu sangue comeava a se alvoroar... na cabea, no corao, em seu sexo...
    - Eu no teria oferecido muita resistncia.
    - Se tivesse decidido fazer amor com voc, senador... - murmurou com um riso sensual - ... voc no teria nenhuma chance.
    - Voc acha?
    - Mmmm. - afirmou, lambendo-o com deliciosa sensualidade - Acho. Um MacGregor sempre cede diante de uma Campbell.
    Quando Alan se dispunha a protestar, Shelby optou por acarici-lo mais abaixo. No queria evitar o debate, mas sim continu-lo... sem palavras.
    Ao final de alguns segundos, estava extasiada com a textura de sua pele, com as sombras que a luz das velas projetava sobre seu corpo. A chuva continuava entoando 
sua montona cano, porm dessa vez salpicada pelos leves suspiros e sussurros de Shelby.
    Movia-se lentamente, acariciando aqui, mordiscando acol. Uma carcia podia enfraquecer ou excitar. Um beijo podia enternec-lo ou deix-lo louco de desejo. 
O pulso de Alan tinha acelerado de uma maneira insuportvel, e decidiu que j era hora de mudar a situao. Com um rpido movimento, se colocou sobre ela. 
    Viu que estava ruborizada, acalorada, ofegante. A cascata vermelha de sua cabeleira havia se esparramado sobre a colcha verde. As sombras projetadas pela vela 
bailavam em seus traos, lembrando-lhe a primeira impresso que teve ao v-la pela primeira vez: a de uma linda e sedutora cigana. Em seus olhos cinzentos ardia 
a expectativa.
    - Ns MacGregor - murmurou - sabemos muito bem como lidar com os Campbell.
    Baixou a cabea, porm no ltimo instante se deteve a poucos centmetros de sua boca. Notou que havia baixado as plpebras, sem chegar a fech-las. Tinha a respirao 
acelerada. Lentamente, Alan inclinou cabea para deslizar os lbios pela linha de sua mandbula. 
    Shelby fechou os olhos com um gemido que era tanto de protesto como de deleite. Sua boca ansiava pela dele, porm a sensao daqueles lbios sensuais roando-lhe 
a pele a fazia estremecer deliciosamente. De repente, Alan comeou a acarici-la.
    Suas mos deslizavam por seu corpo nu, com lentido e meticulosidade, sem pressa alguma.
    Com a lngua, os dentes e os lbios desenhava lnguidos, amplos e devastadores crculos em torno de seus seios, ao mesmo tempo em que lhe acariciava o ventre, 
cada vez mais abaixo, tentando, prometendo... at que Shelby se arqueou para ele, desesperada para senti-lo dentro de si. Mas Alan no parecia ter nenhuma pressa, 
e continuou concentrando-se em aumentar seu prazer com uma pacincia que a deixou sem flego. Sua boca descia pouco a pouco, acendendo com a lngua um fogo que suas 
mos se ocupavam em avivar.
    Nenhum dos dois teve conscincia do momento em que o mundo deixou de existir. Pode ter se extinguido lentamente, ou quem sabe de um golpe. De qualquer forma, 
tudo desapareceu, exceto eles, carne contra carne, pele contra pele, suspiro contra suspiro.
    Shelby tremia quando Alan a penetrou, decidido a esperar at que ambos enlouquecessem de desejo. Fez amor com deliciosa lentido, escutando seus trmulos arquejos 
que se mesclavam com os seus, embriagando-se do ardente, mido sabor de sua boca.
    At que tudo comeou a girar ao seu redor, como um redemoinho. E Alan enterrou o rosto em seu pescoo para se deixar arrastar  loucura.
    
    
    CAPTULO VIII
    
    As manhs cinzentas e sombrias costumavam incitar Shelby a se enfiar sob os lenis e continuar dormindo mais uma hora depois que seu despertador mental tocava. 
Por isso naquela manh, sentindo o clido corpo de Alan a seu lado, se aconchegou contra ele e se disps a fazer o mesmo.
    Mas era bvio, pela maneira como comeou a acariciar-lhe as costas e o traseiro, que Alan tinha outros planos.
    - Est acordada? - murmurou-lhe ao ouvido - Ou eu devo acord-la?
    - Mmmm.
    - Suponho que isto quer dizer que est indecisa. - Alan deslizou os lbios ao longo do seu pescoo at chegar a sua base, ali onde seu pulso batia lento e firme. 
Perguntou-se quanto tempo demoraria para aceler-lo - Quem sabe eu possa acabar com suas dvidas.
    Lentamente, desfrutando de sua sonolenta resposta, comeou a beij-la e a acarici-la. Parecia impossvel, pensou, que pudessem ter feito amor tantas vezes durante 
a noite anterior e ainda a desejasse com tanto ardor aquela manh. Porm sua pele era to fina e suave... assim como sua boca. No demorou para comear a sentir 
a acelerao de seu pulso.
    A paixo foi despertando em Shelby, que se deixou tocar e explorar sem se mover, excitando-o somente com seus gemidos. A manh avanava, porm acreditavam ter 
o tempo em suas mos.
    Aquele novo encontro amoroso foi como uma sonhadora e nebulosa nuvem, que comeou com uma primeira e inofensiva carcia e terminou com um ltimo beijo sem flego.
    - Acho - disse Shelby, com a cabea de Alan entre seus seios - que deveramos ficar na cama at que parasse de chover.
    - Isso  cedo demais. - murmurou - Tinha que ter pensado nisso h alguns dias. - com os olhos fechados, podia v-la jazendo preguiosa sob seu corpo, com a pele 
ainda ardendo por suas carcias - Vai abrir a loja hoje?
    Shelby bocejou enquanto deslizava as palmas das mos por suas costas musculosas.
    - Kyle se encarrega disso aos sbados. Podemos ficar aqui e dormir o quanto quisermos.
    Alan beijou-lhe a curva de um seio, antes de subir novamente at sua garganta.
    - Ao meio-dia tenho um almoo de negcios, e tambm preciso resolver alguma papelada antes de segunda.
    "Claro", pensou Shelby, reprimindo um suspiro. Para um homem como Alan, o sbado era simplesmente outro dia da semana. Deu uma olhada no relgio; ainda no eram 
sete horas. Como obedecendo a um ato reflexo, se aconchegou contra ele. O tempo j estava lhe escapando entre os dedos. 
    - Isso significa que ainda podemos ficar mais algumas horas na cama.
    - O que acha de tomarmos o desjejum?
    Shelby refletiu por um instante, para acabar decidindo que se sentia mais preguiosa que faminta.
    - Sabe cozinhar?
    - No.
    - No sabe fazer nada? - inquiriu, surpresa - Isso  algo bastante machista tratando-se de um homem que prioriza as propostas feministas em seu programa poltico.
    - Mas eu tampouco espero que voc seja capaz de cozinhar. - retrucou, arqueando uma sobrancelha, com um brilho divertido nos olhos - Voc sabe?
    - Muito pouco. - respondeu, dissimulando um sorriso.
    - Parece estranho para algum com um apetite como o seu.
    - Como fora com freqncia. E voc?
    - McGee se encarrega disso.
    - McGee?
    - J trabalhava como mordomo da famlia quando eu era criana, e quando me mudei para Washington insistiu, com seu estilo estico e imperturbvel, em me acompanhar. 
- sorriu - Sempre fui seu favorito.
    - Ah, sim? - indolente, Shelby cruzou as mos atrs da cabea - E por qu?
    - Se no fosse to modesto, diria que sempre fui um garoto tranqilo e bem educado que jamais deu a seus pais nem um s problema.
    - Mentiroso. Como quebrou o nariz?
    - Rena me acertou um soco.
    - Sua irm quebrou seu nariz? - Shelby soltou uma gargalhada - Era a expert em blackjack, no? Oh, eu a adoro!
    Alan ento beliscou-lhe o nariz com dois dedos.
    - No ria, que foi muito doloroso para mim.
    - Imagino. Por acaso tinha o costume de bater em voc?
    - Na verdade no estava tentando me acertar. - a corrigiu em tom digno - Estava tentando acertar Caine porque ele rira da atrao que sentia por um de seus amigos. 
Dizia que o olhava com olhos de bezerra.
    - Tpica brincadeira de irmo.
    - O caso  que eu me interpus entre os dois. Ela foi dar-lhe outro soco, errou e quem o levou fui eu. - explicou enquanto Shelby no conseguia deixar de rir 
- Depois disso desisti de me transformar em diplomata.  sempre o rbitro quem recebe os golpes.
    - Estou certa de que Rena deve ter lamentado muito. - comentou, divertida.
    - A princpio sim. Mas se me lembro bem, uma vez que parei de sangrar, e ameacei matar Caine e ela, sua reao foi bastante parecida com a sua.
    - Insensvel, no? - Shelby comeou a salpicar-lhe o rosto de beijos, a guisa de desculpa - Pobrezinho. Olhe, faremos uma coisa: como penitncia, tentarei preparar 
o desjejum. - com um arranque de energia, lhe deu um ltimo beijo e se levantou da cama - Vamos para a cozinha. - vestiu a camisola enquanto ele se calava. - Voc 
pode ir preparando o caf enquanto eu tento encontrar algo na geladeira.
    - Estupendo.
    - Mas no tenha muitas iluses, ok? - advertiu.
    Atravessaram a sala, onde o gato, que continuava dormindo no sof, os ignorou.
    - Ainda est aborrecido. - comentou Shelby, suspirando - Agora terei que comprar-lhe comida especial, nuggets de frango ou algo assim. - se deteve para tirar 
a vasilha d'gua da gaiola da lora - Que mal gnio tem esse animal, no , Tia Em?
    O pssaro retrucou com um grito impaciente. Era at onde chegava seu escasso vocabulrio.
    - Parece que se levantou com a perna, ou melhor, com a garra esquerda. - comentou Alan.
    - Ora, que nada. Quando fala  porque est de bom humor.
    - E ela falou? - a fitou, divertido.
    Como resposta Shelby lhe entregou a vasilha d'gua, que estava vazia.
    - Ande, se encarregue de ench-la antes de preparar o caf. - e sem esperar sua resposta, abriu a geladeira - Parece que a turn do presidente pelo Oriente Mdio 
ainda no acabou... - comentou - Voc gosta de viajar?
    Consciente do significado, e tambm do temor que se ocultava por trs daquela pergunta, Alan respondeu.
    - s vezes sim. E outras vezes  simplesmente uma necessidade. Nem sempre  possvel escolher quando e onde se quer ir.
    - , suponho que no. - respondeu Shelby, tentando reprimir o abatimento que comeava a sentir. Continuava examinando a geladeira quando o viu sair da cozinha 
com a tigela d'gua. "No pense nisso", se ordenou com firmeza. "No pense nisso hoje". - Bem, - acrescentou com tom mais animado quando Alan voltou - temos aqui 
um quarto de litro de leite, um pouco de comida chinesa, uma pequena fatia de queijo de cabra e um ovo.
    Alan se inclinou para dar uma olhada por cima do seu ombro.
    - Um ovo?
    - Isso mesmo, mas espere um momento... - mordeu o lbio inferior - Antes teramos que examinar todas as opes, no?
    - Est se referindo a visitar o restaurante da esquina?
    - No, no, espere um momento. - murmurou, concentrando-se - Vejamos. Tambm temos trs, quatro, cinco fatias de po. Po francs. - de repente esboou um sorriso 
triunfante - Isso significa que so duas fatias e meia para cada um.
    - Que banquete, no?
    - Gluto. - estalando os lbios, Shelby se disps a tirar o ovo e o leite da geladeira.
    Durante vrios minutos trabalharam em meio a um cmodo silncio; enquanto ele preparava o caf, Shelby verteu o que considerava uma adequada quantidade de leite 
numa tigela. Logo se ps a vasculhar um armrio at que, por fim, conseguiu encontrar uma frigideira, que em seguida colocou para esquentar.
    - A verdade  que no acredito que v sair muita comida. - reconheceu afinal.
    - Eu sugeriria novamente ir a esse restaurante da esquina, se no fosse porque... - a fitou apreciativamente, vestida com aquela camisola que ressaltava sua 
figura - ... teria que se vestir.
    Shelby acolheu com um sorriso aquele convite sutil, mas quando Alan deu um passo em sua direo, se ps a mergulhar o po no leite.
    - Traga-me dois pratos.
    Alan obedeceu, embora no demorasse em voltar a carga. Inclinando-se sobre ela, que j tinha comeado a fritar o po na frigideira, roou-lhe uma orelha com 
os lbios.
    - Os que se queimarem - advertiu Shelby - voc  quem vai comer.
    - Tem acar em p?
    - Para qu? - inquiriu ela.
    - Para ado-los, - respondeu Alan, enquanto se punha a procurar os talheres.
    - No usa mel?
    - No.
    Encolhendo os ombros num gesto despreocupado, Shelby acabou de fritar a ltima fatia de po.
    - Bem, pois hoje ter que faz-lo. Acho que tenho o mel no... segundo armrio da esquerda. - teve tempo de servir o caf e de pr a mesa antes que ele tivesse 
localizado o frasco. 
    - No encontrei nenhuma colher grande. - disse Alan enquanto deixava o mel na mesa, ao seu lado.
    - Pois ento coloquemos cada um uma colherada e meia das pequenas. - pronunciou enquanto se sentava, e estendeu a mo para que lhe entregasse o mel. Depois de 
servir-se cuidadosamente, devolveu-lhe o frasco.
    - Deve ter pelo menos seis caixas de comida para gatos nesse armrio. - comentou Alan.
    - Nelson se aborrece se no cuido da variedade de sua comida.
    Alan achou aquele desjejum muito mais saboroso do que havia esperado.
    - Custo a entender como algum to teimosa e obstinada como voc se deixa intimidar por um gato.
    Shelby encolheu os ombros e continuou comendo.
    - Todos temos nossas fraquezas. Alm do mais, como companheiro de apartamento, Nelson  perfeito. No escuta s escondidas quando falo ao telefone e nem pede 
roupas emprestadas.
    - So esses seus requisitos?
    - Sem dvida, figuram entre os dez primeiros.
    Observando-a, Alan assentiu.
    - Se eu me comprometesse a no fazer jamais nenhuma dessas coisas... se casaria comigo?
    Shelby ficou paralisada, com a xcara de caf a meio caminho dos lbios. Desde que a conhecera, Alan nunca a tinha visto to completa e absolutamente assombrada. 
Estava estupefata.
    Voltou a deixar a xcara na mesa e ficou observando-a enquanto centenas de pensamentos invadiam sua mente. E, dominando todos, a simples e bsica emoo do medo.
    - Shelby?
    Sacudiu rapidamente a cabea. No instante seguinte se levantou com seu prato e o deixou na pia. No falou; ainda no se atrevia a falar. A palavra que ameaava 
aflorar a seus lbios era "sim", e isso era o que mais temia. Sentia uma opresso no peito, um peso, uma dor. S ento se lembrou de respirar e soltou o ar que estivera 
retendo. Enquanto o fazia, se apoiou com todo o seu peso na pia, com o olhar cravado na chuva que continuava caindo do outro lado da janela. Quando sentiu as mos 
de Alan sobre seus ombros, fechou os olhos.
    Por que no havia se preparado para aquilo? Sabia que, para um homem como Alan, o amor conduzia invariavelmente ao matrimnio. "E o matrimnio ao filhos", pensou 
enquanto se esforava para acalmar os nervos. E se ela mesma tambm no quisesse aquilo, no teria sentido aquele arrebatado impulso de pronunciar rapidamente "sim". 
Porm no era to simples. Ao menos com Alan. Antes de tudo era um senador, um poltico.
    - Shelby - seu tom era ainda suave e terno, embora ela j pudesse perceber tanto impacincia como frustrao nos dedos que lhe apertavam os ombros - Te amo. 
Voc  a nica mulher com quem quero partilhar minha vida. Preciso de manhs como esta... nas quais acorde com voc ao meu lado.
    - Eu tambm.
    Ele a fez voltar-se para que o encarasse. Aquela intensa expresso havia retornado aos seus olhos, aquela sombria seriedade que fora a primeira coisa que a atrara 
nele. Perscrutou seu rosto lenta, detidamente.
    - Ento case-se comigo.
    - Fala como se fosse to fcil...
    - No. - a interrompeu - No  fcil.  necessrio, vital. Mas fcil, no.
    - No me pea isso agora. - abraou-o com fora - No me pea. Estamos juntos, e eu te amo. Conforme-se com isso por hora.
    Alan queria insistir. O instinto lhe dizia que s tinha que exigir uma resposta para escutar aquela que tanto precisava ouvir. Mas ainda assim... tinha visto 
uma imensa vulnerabilidade em seus olhos. E uma splica. Duas coisas muito raras em Shelby Campbell. Duas coisas que lhe impossibilitavam exigir-lhe algo.
    - Eu vou te querer igualmente amanh. - murmurou, acariciando-lhe o cabelo - E o ano que vem. Posso prometer que esperarei para te pedir outra vez, Shelby. Porm, 
o que no posso prometer  que esperarei at que esteja preparada para me responder.
    - No tem que me prometer nada. - segurou-lhe o rosto entre as mos - Por hora, desfrutemos do que temos; um chuvoso fim de semana s para ns. No precisamos 
pensar no amanh, Alan, quando hoje temos tanto. As perguntas viro depois. - beijou-o nos lbios, emocionada - Vamos voltar para a cama. Faa amor comigo de novo. 
Quando o fizer, no existir nada mais, exceto voc e eu.
    Alan percebia seu desespero, ainda que no a entendesse completamente. Sem dizer uma palavra, a ergueu nos braos e levou-a para cama.
    
    - Ainda estamos em tempo de desculpar nossa ausncia. - declarou Alan, enquanto estacionava o carro diante de sua casa.
    - Alan, realmente no me importo de comparecer a essa festa. - Shelby se inclinou para dar-lhe um rpido beijo antes de sair do carro. A chuva tinha se convertido 
numa leve garoa, que j havia umedecido ligeiramente os ombros de sua curta jaqueta de veludo. - Alm disso, esses jantares com baile podem chegar a ser muito divertidos... 
mesmo que na verdade no sejam mais que disfarces para reunies da alta poltica...
    Reunindo-se a ela no caminho de entrada, ergueu-lhe o queixo para beij-la nos lbios.
    - Acho que seria capaz de ir a qualquer lugar, contanto que l tivesse comida.
    - Isso  sempre um bom incentivo. - segurando seu brao, se dirigiu at a entrada - Alm do mais, assim terei a oportunidade de bisbilhotar sua casa enquanto 
voc se dedica a falar.
    - Pode ser que a considere um pouquinho... enfadonha para seu gosto.
    - Voc, sem dvida, no ... - riu Shelby.
    - Receio - respondeu Alan, enquanto abria a porta - que em sua casa teramos passado uma noite muito mais estimulante.
    - Tenho certeza de que poderia me persuadir disso... - assim que entrou, voltou-se para fechar os braos em volta de seu pescoo - ... se quisesse fazer o esforo.
    Porm, antes que pudesse satisfaz-la, Alan ouviu uma discreta tossidela a suas costas. McGee se encontrava ao lado das portas da sala, slido como uma rvore. 
Seu rosto no revelava nenhuma expresso, mas  distncia a que se encontrava, Alan pde perceber sua desaprovao. Suspirou. McGee podia parecer um perfeito mordomo 
e ao mesmo tempo projetar as mesmas vibraes de um severo patriarca da famlia. Desde que tinha dezesseis anos tivera que suportar aquela digna desaprovao sempre 
que voltava tarde para casa... ou no nas melhores condies de sobriedade.
    - Recebeu vrias ligaes, senador.
    Alan esteve a ponto de esboar uma careta de desgosto. McGee reservava o tratamento formal de "senador" para seu uso exclusivo em pblico, sempre que tinha companhia.
    - Alguma urgente, McGee?
    - Nenhuma, senador.
    - Me ocuparei delas mais tarde. Shelby, deixe-me apresent-la a McGee. Ele trabalha para minha famlia desde que eu era criana.
    - Ol, McGee. - Shelby soltou Alan para se aproximar de seu mordomo com a mo estendida - Voc  das Terras Altas?
    - Sim, senhorita. De Perthshire.
    O sorriso de Shelby teria derretido a qualquer um.
    - Meu av era de Dalmally. Conhece?
    -  um lugar que vale a pena ver mais de uma vez. - respondeu McGee com tom clido.
    - Eu penso o mesmo. - afirmou ela - Mas no voltei ali desde que tinha sete anos. As montanhas so do que me lembro melhor. Volta  Esccia com freqncia?
    - Todas as primaveras, para ver florescer as urzes. No h nada como caminhar por um urzal em junho.
    Alan nunca tinha ouvido McGee, na presena de algum que no fosse da famlia, pronunciar uma frase to longa e to romntica. E, no entanto, no estava muito 
surpreso.
    - McGee, se quiser nos preparar um ch, eu subirei para me trocar. A senhorita Campbell pode me esperar tomando-o na sala.
    - Campbell? - a habitual expresso ptrea de McGee refletiu uma imensa surpresa enquanto olhava de um para o outro - Campbell... Isso vai ser uma verdadeira 
confuso... - murmurou, antes de girar sobre os calcanhares e se dirigir  cozinha.
    - Poucas pessoas so capazes de arrancar-lhe tantas palavras. - comentou Alan com Shelby, quando a guiava at a sala.
    - Mmmm. Gostei dele. Sobre tudo a maneira como o repreendeu, sem dizer nada, por ter passado a noite toda fora de casa.
    Enfiando as mos nos bolsos da saia, se dedicou a observar a sala. Era um cmodo de aspecto sbrio, sereno, com um sutil toque dinmico, como a grande paisagem 
marinha na parede central. Combinava bem com o estilo de Alan. De repente se lembrou da crtera jade, que havia torneado no dia seguinte ao conhec-lo, e pensou 
que ficaria perfeito naquele ambiente.
    Era estranho que tivesse sido capaz de fazer algo que encaixasse to perfeitamente em seu mundo. Por que ela no podia fazer o mesmo?
    Obrigando-se a deixar esse pensamento de lado, voltou-se para sorrir-lhe.
    - Gosto de como vive.
    Aquela simples declarao o surpreendeu. As declaraes simples e contundentes no eram habituais em Shelby. Havia esperado algum comentrio leve, at mesmo 
com duplo sentido. Aproximou-se dela e esfregou carinhosamente seus braos por cima da jaqueta, ainda mida pela chuva.
    - Gosto de v-la aqui.
    Quis abra-lo naquele exato instante, desesperadamente. Se Alan pudesse lhe assegurar que tudo entre eles seria sempre como era ento, que nada mudaria nem 
se interporia em sua relao...
    Porm, em vez disso, disse enquanto acariciava-lhe lentamente uma face.
    -  melhor que suba para se trocar, senador. Quanto mais cedo comearmos com isso... mais cedo poderemos escapar.
    Alan levou sua mo aos lbios para depositar um beijo sobre sua palma.
    - Gosto dessa sua maneira de pensar. No demoro.
    Uma vez sozinha, Shelby fechou os olhos e se deixou arrastar por seus temores. O que iria fazer? Como poderia am-lo, precisar dele, quando tinha a cabea cheia 
de advertncias e precaues? "Tenha cuidado, no faa isso, lembre-se que...".
    Havia uma dezena de slidas e convincentes razes para que no continuassem juntos. E Shelby podia se convencer delas... desde que Alan no a estivesse olhando. 
Observou novamente o cmodo. Admirava aquele estilo ordenado e equilibrado, porm no era o seu. Ela vivia no caos no porque fosse preguiosa ou indiferente demais 
para ordenar sua vida, mas sim porque havia escolhido o caos.
    Havia uma inata bondade em Alan que Shelby no tinha muita certeza de possuir. E uma tolerncia que, disso sim estava convencida, ela no tinha. Alan trabalhava 
com fatos e hipteses, enquanto ela preferia a imaginao e as opes. Era uma loucura, disse a si mesma, enquanto passava uma mo nervosa pelo cabelo. Como duas 
pessoas com to pouco em comum podiam se querer tanto?
    Deveria ter escapado. Deveria ter fugido no preciso instante em que ps os olhos em Alan. Rindo amargamente, caminhou at o outro extremo da sala. Isso no teria 
lhe trazido nenhum bem, pois Alan a teria perseguido com calma, pacientemente. E quando tivesse que se deter, esgotada, o teria encontrado ali, esperando-a. 
    - Seu ch, senhorita Campbell.
    Shelby se voltou a tempo de ver McGee entrar com um servio de porcelana... que despertou sua admirao.
    - Um Meisen de cermica de argila vermelha... - pegou uma xcara e examinou a delicada pintura - Johann Bottger, do princpio do sculo XVIII... maravilhoso. 
- Shelby estudou a pea como uma estudante de arte teria estudado a obra de um mestre - Nunca conseguiu realizar seu mais estimado sonho. - murmurou - Alcanar a 
perfeio da decorao policromtica da cermica do Oriente. Mas que obras to maravilhosas conseguiu fazer enquanto tentava! Oh, perdo, McGee. Eu me distra. Tenho 
uma grande fraqueza pelo barro.
    - Barro, senhorita Campbell?
    - Sim. - golpeou a xcara com um dedo, fazendo-a tilintar - Tudo comea pelo barro, a terra.
    - Sim, senhorita. - McGee optou por no seguir aquele rumo de conversa - Quem sabe gostaria de se sentar no sof.
    Shelby assim o fez, enquanto o mordomo colocava a bandeja na mesa a sua frente.
    - McGee... Alan sempre foi to... insupervel, to exigente consigo mesmo?
    - Sim, senhorita.
    - Era o que eu temia. - murmurou.
    - Perdo, senhorita?
    - O qu? - distrada, Shelby ergueu o olhar, e depois sacudiu a cabea - No, nada. Obrigada, McGee.
    Suspirou, sem saber por que havia se incomodado em fazer uma pergunta da qual j conhecia a resposta. Por alguns instantes ficou olhando fixamente o xcara de 
um dourado plido.
    - Qual ser o preo de um pensamento, com a atual inflao? - perguntou-se Alan em voz alta, aparecendo de repente no umbral. 
    Estava to linda... refletiu. E ao mesmo tempo to distante. At que ergueu o olhar com um radiante sorriso, que apagou sua expresso anterior.
    - Receio que me deixei deslumbrar por seu servio de ch, e pus seu mordomo nervoso. O mesmo est se perguntando quando vou guardar esta pea no bolso. - deixando 
a xcara na bandeja, se levantou do sof - J est pronto para exercer o papel de sedutor e distinto anfitrio?
    Alan se deteve a sua frente, abraando-a pela cintura.
    - Faz uma hora e vinte e trs minutos que no fao... isto. - e a beijou lenta, seguramente - Te amo. - podia sentir a batida de seu corao contra o seu, acelerado 
de desejo. - Esta noite, dance com quem danar, pense em mim.
    Sem flego, ergueu o olhar para ele. Em seus olhos via uma nebulosa paixo, contra a qual no podia fazer nada. Sabia que a arrasaria caso se deixasse levar 
por ele; a absorveria. Alan tinha esse poder.
    - Esta noite, - disse Shelby com voz spera, remendando sua frase - dance com quem danar, me desejar. - apoiou a cabea em seu ombro - E eu saberei.
    Nesse momento viu a imagem dos dois refletida no espelho da sala. Alan, elegante e sofisticado com seu formal traje negro e sua gravata de lao, no podia contrastar 
mais com ela, vestida com a jaqueta curta e justa de veludo, combinando com a saia rosa que havia adquirido num brech.
    - Alan - o fez dar meia volta, para que os dois pudessem se olhar no espelho - O que v?
    Com um brao em torno de sua cintura, contemplou sua imagem. Era quase uma cabea mais alto que Shelby. Apesar de ser ruiva, estava incrivelmente bela com aquele 
tom de rosa: parecia uma personagem de poca, s que em vez de um camafeu luzindo no pescoo, usava uma corrente de ouro que provavelmente teria comprado numa lojinha 
de Georgetown. Sua longa cabeleira se cacheava alvoroada, rebelde, emoldurando seu rosto plido.
    - Vejo duas pessoas apaixonadas. Duas pessoas muito diferentes que ficam extraordinariamente bem juntas.
    Shelby apoiou novamente a cabea em seu ombro, sem saber se sentia-se alegre ou irritada pelo fato de Alan ter lido to bem seus pensamentos.
    - Porm ele estaria muito melhor ao lado de uma sofisticada loira com um clssico vestido negro. Seria muito mais adequado.
    Alan pareceu refletir por um instante.
    - Sabe?  a primeira vez que a ouvi dizer uma tolice to grande.
    Shelby ficou olhando fixamente o reflexo de Alan, que tinha aquela expresso tranqila e levemente interessada to caracterstica sua. Comeou a rir. J no 
havia nada mais que pudesse fazer.
    - Est bem. S desta vez, vou tentar me comportar com a mesma dignidade e formalidade que voc.
    - Que Deus nos proteja! - murmurou Alan, enquanto se dirigiam para a sada.
    
    
    O brilho dos cristais, as toalhas de linho branqussimo nas quais se destacavam os reluzentes talheres de prata... Shelby se encontrava sentada numa das mais 
de vinte grandes mesas redondas, entre Alan e o lder da comisso parlamentria de economia. E enquanto saboreava sua sopa de lagosta, tentava manter uma conversao 
fluente.
    - Se no fosse to teimoso, Leo, e experimentasse uma raquete de alumnio, provavelmente melhoraria seu jogo.
    - Meu jogo j melhorou. - replicou o estadista, calvo e corpulento, fingindo uma expresso indignada - Faz seis meses que no joga comigo. Da prxima vez, no 
me vencer to facilmente.
    Shelby sorriu, tomando um gole de vinho.
    - Voc ver quando tiver algumas horas livres e puder dar uma escapulida at o clube de tnis.
    - Sim, faa isso. Adorarei dar-lhe uma boa canseira.
    - Mas antes ter que corrigir esse jogo de pernas, Leo. - lhe recordou, rindo.
    Sentia-se agradecida de que tivesse ficado ao lado de Leo. Com ele podia se comportar com naturalidade, tal como era. Conhecia muitas das pessoas que enchiam 
aquela enorme sala, porm s com uns poucos podia sentir-se confortvel partilhando um momento agradvel.
    Ambio. A ambio impregnava aquele ambiente como se fosse um perfume caro. Shelby no se importava com isso, ainda que no pudesse dizer o mesmo das rgidas 
e implacveis regras e tradies que a acompanhavam. E o mesmo podia se dizer de Alan, lembrou, para em seguida deixar esse pensamento de lado. Havia lhe prometido 
que se comportaria o melhor possvel. E Deus sabia que estava tentando...
    - E depois vem essa sua rebatida...
    - Deixe minha rebatida em paz. - protestou Leo, e se dirigiu a Alan - J jogou tnis alguma vez com esta garota, MacGregor?
    - No, no joguei com ela... - procurou os olhos de Shelby - ... ainda.
    - Bem, pois te aviso; tem um prazer perverso em ganhar. E alm disso no tem respeito pelos mais velhos.
    Ignorando-o com um sorriso, Shelby perguntou a Alan:
    - Voc tambm joga tnis?
    - De vez em quando. - respondeu. No acrescentou que em Harvard havia se destacado nesse esporte.
    - Eu o imaginaria melhor jogando xadrez. Um jogo de conspiradores e estrategistas.
    Alan sorriu enigmaticamente, enquanto levava seu copo aos lbios.
    - Teremos que jogar uma partida.
    - Parece-me que j a jogamos. - riu Shelby.
    - Quer uma revanche? - acariciou-lhe levemente o dorso da mo.
    Shelby lhe lanou um olhar que acendeu-lhe o sangue nas veias.
    - No. Talvez no conseguisse me manipular uma segunda vez.
    Alan teria dado qualquer coisa para pr um ponto final naquela festa interminvel. Queria estar a ss com ela, para poder despi-la pouco a pouco, e sentir sua 
pele quente sob seus dedos. Era seu aroma o que excitava seus sentidos, e no o do arranjo de botes de rosa que ocupava o centro da mesa. Era sua voz o que escutava, 
baixa e de timbre ligeiramente rouco, e no as vozes das pessoas que o rodeavam. Podia falar com a congressista que tinha a sua direita, como se estivesse absolutamente 
concentrado naquela conversa... Porm, o tempo todo sonhava em abraar Shelby e ouvi-la murmurar seu nome enquanto o acariciava... Teve que se esforar para dominar 
aquela pontada de urgncia. Tinha que faz-lo. Um homem podia ficar louco por desejar uma mulher com tanto desespero.
    O tema predominante das conversas dos presentes era a poltica. Alan ouviu Shelby expressar uma concisa e pouco amvel opinio sobre um controverso projeto de 
lei que seria apresentado ao Congresso na semana seguinte. Aquilo incomodou seu interlocutor, que procurou dissimular sua irritao; o curioso  que ela parecia 
implacavelmente empenhada em quebrar esse domnio. E embora Alan no pudesse estar mais de acordo com ela, seus modos eram um tanto bruscos. Reflexo de sua nula 
capacidade para diplomacia.
    A prpria Shelby seria consciente do quanto era complexa? Ali estava: uma mulher que professava uma enorme averso pelos polticos e discutindo com eles em sua 
prpria linguagem, sem revelar o menor desconforto. Isso se acaso realmente sentia algum. No; daqueles dois, o nico que se sentia desconfortvel era o interlocutor 
de Shelby. Depois de lanar-lhes um ltimo olhar, continuou conversando com a congressista.
    - Vai danar comigo, senador? - perguntou-lhe Shelby ao ouvido, minutos depois - Receio que seja a nica justificativa que tenho neste momento para pr as mos 
em voc.
    Uma onda de desejo voltou a varrer Alan... uma onda que, por um instante, fez com que se esquecesse de tudo e todos, exceto dela. Levantou-se da mesa.
    - Curioso.  como se nossas mentes estivessem conectadas. - uma vez na pista de dana, atraiu-a para si - Para dizer melhor... - acrescentou num murmrio - ... 
que nos completamos.
    - No deveria ser assim. - inclinou a cabea para trs. Seus olhos lhe prometiam ardentes e ntimos segredos. Seus lbios, entreabertos, o tentavam sem cessar. 
- No deveramos nos completar to bem. Nem sequer entendemos um ao outro. No consigo entender por qu.
    - Voc desafia a lgica, Shelby. E portanto, logicamente, no existe uma resposta racional.
    Comeou a rir, encantada com aquela deduo.
    - Oh, Alan,  inteligente demais para que se possa discutir com voc.
    - O que significa que voc o far constantemente.
    - Exato. - ainda sorrindo, apoiou a cabea em seu ombro - Me conhece bem demais, Alan. Corro o risco de me apegar a voc.
    Alan recordou naquele momento que Myra havia utilizado aquela palavra para descrever os sentimentos de Shelby por seu pai.
    - Assumirei o risco. E voc?
    Com os olhos fechados, fez um ligeiro movimento com a cabea. Nenhum dos dois soube se era de assentimento ou de negativa.
    Continuaram danando conforme transcorria a festa, trocando de par mas sem deixar de pensar sempre um no outro. De vez em quando trocavam um olhar, direto ou 
intenso demais para que passasse despercebido entre pessoas que sabiam interpretar at o menor gesto. Os subentendidos de todo tipo faziam parte do sutil jogo de 
Washington.
    - E ento, Alan... - Leo se dirigiu a Alan enquanto Shelby se afastava novamente at a pista de dana - ... est fazendo algum progresso com esse seu moinho 
de vento pessoal?
    Alan sorriu. No o incomodava aquela aluso a Dom Quixote em relao a seu projeto de acolhida de pessoas sem lar.
    - Algum. A experincia de Boston est comeando a repercutir positivamente nos projetos daqui. 
    - Sabe? Para isso seria muito oportuno que se apresentasse como candidato presidencial durante esta administrao.  Conseguiria bastante apoio se o fizesse.
    Alan tomou um gole de vinho enquanto observava Shelby, que continuava danando na pista.
    -  cedo demais para isso, Leo.
    - Isso voc saber melhor que ningum. Eu nunca pretendi esse... objetivo particular para mim. Mas voc... muita gente est disposta e preparada para apoi-lo 
assim que der o sinal.
    -  o que me tm dito. - se voltou para ele - E me sinto muito grato. Porm essa no  uma deciso para ser tomada precipitadamente.
    - Permita-me oferecer-lhe algumas razes a favor. - se inclinou para Alan - Sua trajetria  impressionante. Tem uma slida reputao no Congresso e sua carreira 
como senador est transcorrendo sem problemas. Sua imagem no pode ser melhor, e sua principal vantagem  a juventude: isso nos d tempo. Quanto a seus antecedentes 
familiares, so muito bons. O fato de sua me ter uma carreira profissional to bem-sucedida trabalha muito a seu favor.
    - Certamente ela se alegrar em ouvi-lo. - respondeu Alan secamente.
    - Voc sabe perfeitamente o quanto isso importa. - lhe recordou Leo - Demonstra que se relaciona e que compreende as mulheres trabalhadoras... que constituem 
um alto percentual da populao votante. Seu pai tem reputao de homem honesto e limpo. No h mancha nem escndalo algum em sua famlia.
    - Leo... - Alan o olhou diretamente - Quem pediu para voc falar comigo?
    -  muito sagaz. Digamos que me encarregaram de tratar com voc de certos temas em termos gerais, sem definir nada.
    - Ok. Pois falando em termos gerais, no descartei a possibilidade de participar das primrias quando chegar o momento.
    - Bem. Me alegro. - comentou Leo, antes de indicar Shelby com a cabea - Sabe? Tenho muito carinho por essa garota, mas... voc acha que lhe trar alguma vantagem? 
Nunca os havia imaginado como um casal.
    - Ah, no? - Alan estreitou ligeiramente os olhos.
    - A filha de Campbell... ela sabe o que  tudo isto, o tem agentado desde que participava das campanhas eleitorais ainda menina. - Leo franziu os lbios, avaliando 
cuidadosamente os prs e os contras - Shelby cresceu com a poltica, assim que no precisa estudar protocolo,nem diplomacia. Claro,  to contestadora como rebelde. 
Tem dedicado sua considervel energia a desafiar a classe poltica durante anos. E isso resultou em que algumas pessoas tenham se incomodado ou se sentido ofendidas 
por ela... - Leo se interrompeu por um instante, enquanto Alan o encarava em silncio - Porm sempre se podem aparar algumas arestas.  jovem, e sua educao e antecedentes 
familiares so inatacveis.  uma sedutora por natureza. Tem seu prprio negcio, e sabe circular entre as pessoas. Em suma:  uma excelente escolha... - decidiu 
- ... desde que voc a coloque na linha.
    Alan deixou seu copo na mesa, para no explodi-lo contra o cho de pura raiva.
    - Ningum pediu nem exigiu a Shelby que fosse uma vantagem para ningum. - pronunciou, esforando-se para no erguer a voz - Ningum pediu nem exigiu nada que 
no seja o que ela mesma escolha. Nossa relao no tem nada a ver com a poltica, Leo.
    Leo franziu o cenho. Dava-se conta de que havia tocado um ponto sensvel, porm lhe agradava a forma como Alan tinha controlado sua raiva. No era prudente ter 
um insensato, algum que no sabia se dominar, a frente de um pas.
    - Me dou conta de que tem o direito de resguardar sua intimidade, Alan. Porm, uma vez que se lance a corrida presidencial, tambm lanar a ela. A nossa  uma 
cultura de casais. Um sempre se reflete no outro.
    O fato de saber que tinha toda a razo no fez mais que enfurecer Alan ainda mais. Aquilo era o que Shelby estivera evitando, o que tanto havia temido. Como 
poderia proteg-la disso e continuar sendo o que era?
    - Independente do que eu decidir, Shelby continuar sendo livre para ser exatamente o que . - levantou-se da mesa - Isso  o essencial.                     
    
    CAPTULO IX
    
    Na segunda Shelby abriu sua loja mais contente do que nunca. Havia passado um longo e maravilhoso fim de semana com Alan, sem sair uma s vez de seu apartamento. 
Nem tiverem vontade disso.
    Sentada atrs do balco, abriu o jornal da manh na pgina dos quadrinhos, como sempre. Ainda no havia terminado de tomar caf quando a porta se abriu. Era 
Maureen Francis. 
    - Ol. - com um sorriso, deixou o jornal de lado - Ei, voc est tima. - exclamou, admirando o elegante traje de seda azul que a outra usava.
    - Obrigada. - Maureen deixou sua luxuosa pasta de couro sobre o balco - Vim pegar minhas peas e lhe agradecer.
    - Vou pegar as caixas agora mesmo. - foi at os fundos, onde Kyle lhe dissera que havia guardado as caixas - O que tem que me agradecer?
    - O contato. - incapaz de dominar sua curiosidade, Maureen rodeou o balco para se aproximar do ateli de Shelby -  maravilhoso. - comentou ao contemplar o 
torno e as estantes cheias de peas - Adoraria v-la trabalhar algum dia.
    - Pode me surpreender de bom humor numa quarta ou sexta, e te darei uma demonstrao rpida, se quiser.
    - Posso fazer uma pergunta estpida?
    - Claro. - Shelby a olhou por cima do ombro enquanto procurava suas caixas - Todo mundo tem direito a fazer trs por semana. - brincou.
    Maureen fez um gesto abrangendo o ateli e a loja.
    - Como conseguiu montar tudo isto sozinha? Quero dizer... eu sei como se monta um negcio. J  bastante difcil por si mesmo, mas quando se soma a isso este 
tipo de criatividade, as horas que se dedica a produzir algo... e depois a vend-lo...
    - Essa no  uma pergunta estpida - disse Shelby - Suponho que gosto tanto de um como de outro. Aqui, no ateli, costumo me sentir muito isolada. Mas ali - 
apontou o espao da loja - no. E eu gosto de interagir com os outros. Imagino que o mesmo acontece com voc, seno ainda estaria naquela empresa de Chicago.
    - Sim, mas ainda tenho momentos em que me sinto tentada a voltar para aquela segurana. Suponho que isso no acontea com voc.
    - A instabilidade sempre tem algo de divertido, no acha? - Shelby lhe entregou a primeira caixa, e carregou sozinha as outras duas - Antes, quando me agradeceu 
pelo contato, suponho que se referia a Myra.
    - Sim. Liguei para ela no domingo a tarde. S tive que dizer seu nome para que me convidasse para almoar hoje.
    - Myra nunca perde tempo. - deixou as caixas sobre o balco - Depois me conte como foi com ela.
    - Voc ser a primeira a saber. - prometeu Maureen - Sabe? Pouqussimas pessoas esto to dispostas a fazer favores aos outros, e menos ainda quando se trata 
de desconhecidos. Sou-lhe muito grata.
    - Disse que era boa em seu trabalho. - lembrou-lhe Shelby com um sorriso enquanto preparava um recibo - Sabia que seria. De qualquer forma, depois que almoar 
com Myra, talvez mude de opinio.  uma mulher difcil.
    - Eu tambm. - pegou seu talo de cheque - E alm disso, uma insacivel curiosa. Pode dizer para eu cuidar da minha vida, mas... No tenho outro remdio seno 
perguntar se por fim fez as pazes com o senador MacGregor. Naquele momento no o reconheci. O tomei por uma espcie de amante desesperado...
    Shelby se divertiu com aquela descrio.
    -  um homem muito teimoso... - disse enquanto lhe entregava o recibo - Afortunadamente.
    - Me alegro. Gosto de homens que apreciam arco-ris. Bem,  melhor eu levar essas caixas para o carro se no quiser chegar tarde. 
    - Eu a ajudo. - carregando as caixas, Shelby segurou a porta com o p para que Maureen pudesse passar.
    - O carro est aqui mesmo. Talvez volte a visit-la numa quarta-feira ou sbado.
    - timo. Se me encontrar de mau humor, agente at que melhore. - brincou - Boa sorte.
    - Obrigada. - Maureen fechou o bagageiro e se sentou ao volante - Cumprimente o senador por mim, ok?
    Rindo, Shelby se despediu dela e voltou para a loja. Tomou a deciso de embalar a jarra verde jade, para fazer uma surpresa a Alan.
    
    Alan no costumava se sentir tenso ou fatigado por seu trabalho, mas naquela manh tivera que suportar uma interminvel srie de reunies. To pouco costumava 
se sentir pressionado pela mdia, mas o jornalista que estivera esperando-o  porta de seu escritrio no novo edifcio de gabinetes do Senado havia se mostrado to 
tenaz como irritante. Talvez ainda se sentisse algo desgostoso pela conversa que tivera com Leo, ou quem sabe simplesmente havia estado trabalhando demais, porm 
quando chegou a seu escritrio sua proverbial pacincia estava a ponto de explodir em mil pedaos.
    - Senador - alvoroada, sua ajudante se levantou assim que o viu entrar - os telefones no pararam de tocar durante toda a manh. - abriu uma pasta e comeou 
a ler - Ned Brewster, do sindicato; o congressista Platt; uma ligao da prefeitura de Boston, referente ao seu projeto de albergues; Smith do Media Adviser, Rita 
Cardova, uma trabalhadora social que insiste em falar de seu projeto pessoalmente com o senhor, e...
    - Depois - Alan entrou em sua sala e fechou a porta. "S preciso de dez minutos", prometeu-se enquanto deixava sua maleta descuidadamente sobre a mesa.
    Desde as oito e meia no havia feito outra coisa seno cumprir compromissos e atender peties. Precisava desses dez minutos s para ele. Aproximou-se da janela. 
Podia ver a ala leste do capitlio, com sua cpula branca que simbolizava a democracia. A poltica: sua grande paixo.
    No podia retardar muito mais tempo sua deciso sobre lanar-se ou no  disputa presidencial. Em condies normais teria esperado, teria averiguado bem o terreno. 
E, afinal de contas, seria isso o que faria... ao menos publicamente. Porm em seu foro ntimo tinha que se decidir logo. No voltaria a pedir a Shelby que se casasse 
com ele sem ter primeiro informado-a sobre seus planos.
    Se finalmente optasse por aspirar  presidncia, no s teria que lhe pedir que compartilhasse um nome, um lar ou uma famlia. Teria que lhe pedir que dedicasse 
parte de sua vida a ele, a seu pas, aos mecanismos do protocolo e da poltica. Alan j no considerava essa deciso como unicamente sua. Shelby j era sua esposa 
em todos os aspectos exceto o estritamente legal... e tinha que convenc-la disso.
    Quando o intercomunicador de sua sala tocou, o mirou com expresso de desgosto. S pudera desfrutar de cinco desses dez minutos de que tanto precisara.
    - Sim? - apertou o boto.
    - Lamento incomod-lo, senador, mas seu pai est na linha um.
    Alan passou uma mo pelo cabelo enquanto se sentava.
    - Est bem, eu atenderei. Pode coloc-lo na linha, Arlene... Perdoe meu comportamento anterior, mas  que eu tive uma manh muito difcil.
    - Oh, no se preocupe - o tom de sua ajudante sofreu uma sbita mudana - Er, senador... creio que seu pai est... especialmente exultante de alegria.
    - Arlene, deveria ter escolhido a carreira diplomtica. - a ouviu rir antes que o pusesse a falar com seu pai - Ol, papai.
    - Bem, bem, bem, ainda continua vivo... - aquela clida e grave voz rouca estava carregada de sarcasmo - Sua me e eu j temamos que tivesse sofrido um acidente 
fatal.
    - Creio que sofri um pequeno corte ao me barbear semana passada. - sorriu - Como vai?
    - E me pergunta como vou! - exclamou Daniel, suspirando - O que eu me perguntava era se ainda se lembrava de mim. Mas no  nada... no me incomodo. Sua me 
 quem estava esperando que seu filho ligasse para ela. Seu primognito.
    Alan arqueou uma sobrancelha com gesto irnico, j que conhecia seu pai bem demais.
    - Eu pensei que estaria entusiasmada com a perspectiva de ter um neto. Como vai Rena?
    - Este fim de semana poder ver por si mesmo. - retrucou seu pai - Eu... isto , Rena e Justin decidiram passar este fim de semana em famlia. Caine e Diana 
tambm viro.
    - Tem estado muito ocupado, hein? - murmurou Alan.
    - O que quer dizer? No balbucie, garoto.
    - Disse que vai estar muito ocupado. - se corrigiu prudentemente.
    - Pelo bem de sua me, sou capaz de sacrificar minha prpria tranqilidade. Passa o dia todo preocupada com voc... sobre tudo levando em considerao que continua 
solteiro e sem famlia. Voc, o primognito... enquanto seus irmos mais novos j assentaram a cabea. O filho mais velho, o portador do sobrenome de seu pai... 
est ocupado demais para cumprir com seu dever e perpetuar a linhagem dos MacGregor!
    - Oh - sorriu Alan - me parece que a linhagem dos MacGregor est se perpetuando muito bem. Quem sabe Rena tenha gmeos.
    - H! - porm Daniel refletiu sobre aquilo por um instante. Recordou que, no ramo materno de sua famlia, algumas geraes atrs haviam nascido gmeos; depois 
de desligar o telefone se dedicaria a revisar sua rvore genealgica - Esperamos voc na sexta  noite. E agora... - Daniel se recostou em sua enorme cadeira enquanto 
fumava um dos charutos cubanos que o mdico lhe proibira - ...diga-me uma coisa: que diabos significa isso que estive lendo nos jornais?
    - Quer precisar um pouco?
    - Embora suponho que ter sido algum erro da imprensa.
    - Precise um pouquinho mais, por favor.
    - Quando li que meu prprio filho... meu herdeiro... estava confraternizando com uma Campbell, no acreditei em meus olhos. Como se chama essa garota?
    - A que garota se refere? - inquiriu Alan, malicioso.
    - Maldio, garoto! Essa garota com a qual tem sido visto e que, a julgar pelas fotos, parece um duendezinho.
    - Shelby Campbell.
    Seguiu-se um silncio mortal. Reclinando-se em sua cadeira, Alan se perguntou quanto tempo seu pai demoraria para se lembrar de voltar a respirar.
    - Campbell! Uma ladra e assassina Campbell!
    - Sim, e ela tambm professa um grande afeto aos MacGregor.
    - Nenhum filho meu  capaz de dedicar um s minuto de seu tempo a um membro do cl Campbell! - explodiu Daniel - Vai ver o que  bom, Alan Duncan MacGregor!
    Era uma ameaa to vazia e inofensiva como as que Alan havia recebido quando tinha oito anos, porm o tom era o mesmo.
    - Ter a oportunidade de tentar este fim de semana, quando conhecer Shelby.
    - Uma Campbell em minha casa! H!
    - Uma Campbell em sua casa. - repetiu Alan com tom suave - E uma Campbell em sua famlia antes do fim do ano, se eu conseguir convenc-la.
    - Voc... - Daniel no pde continuar, emocionado. Sua mais firme aspirao era ver cada um de seus filhos casados e com famlia prpria - Est pensando em se 
casar com uma Campbell?
    - J a pedi. E ela ainda no aceitou... por enquanto.
    - Claro que aceitar! - seu orgulho paternal pareceu se impor - Que espcie de tola ? Tpico dos Campbell, claro... - resmungou - Provavelmente te enrolou e... 
Sim, traga-a para mim. No cessarei at chegar ao fundo deste assunto.
    - De acordo. Porm antes tenho que perguntar-lhe se quer me acompanhar.
    - Perguntar-lhe? H! Tem que traz-la de qualquer jeito.
    - Eu o vejo na sexta, papai. E d um beijo em mame por mim.
    - Na sexta... - murmurou Daniel, chupando avidamente seu charuto - Sim, sim, sim... na sexta.
    Enquanto desligava, Alan pde imaginar seu pai esfregando as mos. Sim, ia ser um fim de semana muito interessante.
    
    Quando estacionou o carro em frente a casa de Shelby, Alan se esqueceu de repente de sua fadiga. Deixava para trs uma exaustiva jornada de dez horas de trabalho: 
de ligaes, de papeladas, de entrevistas...
    Porm quando abriu a porta, Shelby ainda pde ler o cansao em seus traos.
    - Um mau dia para a democracia? - com um sorriso, segurou seu rosto entre as mos e o beijou levemente nos lbios.
    - Longo, melhor dizendo. - a corrigiu enquanto a abraava - Perdoe-me por ter chegado tarde.
    - Sem problema: j est aqui. Quer tomar um drinque?
    Levou-o ao sof da sala. Depois de beij-lo mais algumas vezes, tirou-lhe a gravata e desabotoou os dois primeiros botes de sua camisa. Enquanto tirava seus 
sapatos, Alan a fitou com um sorriso.
    - Acho que poderia me acostumar facilmente a isto.
    - Bem, pois eu no. - advertiu, ao mesmo tempo em que se dirigia ao balco da cozinha - Um dia talvez chegue e me encontre exausta no sof e nada disposta a 
me mover.
    - Ento eu mimarei voc. - respondeu, enquanto aceitava o usque que ela lhe estendia. Quando Shelby se sentou ao seu lado, aconchegando-se contra ele, acrescentou 
- Precisava disto.
    - O drinque?
    - Voc. - lhe deu um longo beijo nos lbios - S voc.
    - Quer me falar de todos esses detestveis funcionrios ou senadores que amargaram o seu dia?
    Alan comeou a rir.
    - Tive uma animada discusso com a congressista Platt.
    - Martha Platt. - disse Shelby, suspirando; a conhecia bem - No me admira. Meu pai sempre dizia que teria sido uma excelente funcionria da Fazenda. Est obcecada 
com o dficit.
    - E voc? Como foi na loja?
    - Pouco trabalho pela manh, horrvel pela tarde. Recebi a visita de um grupo de estudantes desejosos de ver cermicas e aprender como so feitas. Alis, tenho 
algo para voc. - se levantou rapidamente e saiu da sala. Enquanto a esperava, Alan estirou as pernas; j no estava to cansado como antes. Inclusive se achava 
mais relaxado do que teria acreditado possvel apenas alguns minutos antes.
    -  um presente. - Shelby regressou e ps uma caixa em seu colo - Pode no ser to romntico como os presentes que voc me d, mas  original. - voltou a se 
sentar enquanto Alan abria a caixa.
    Em silncio, tirou a jarra e a acariciou lentamente. De alguma maneira, Shelby o tinha imaginado olhando-a e acariciando-a desse mesmo jeito, como teria feito 
um senador da antiga Roma. V-la em suas mos lhe produzia um enorme prazer.
    Alan observava a pea sem falar. Estava esmaltada num tom de verde jade com reflexos metlicos. O desenho era limpo e singelo, lindo em sua sobriedade. Nunca 
haviam lhe dado um presente to importante como aquele.
    -  linda. Realmente linda. - segurando a jarra com uma mo, puxou Shelby para si - Desde o comeo, sempre me fascinou que mos to pequenas como as suas tivessem 
tanto talento. - lhe beijou os dedos antes de olh-la de novo nos olhos - Obrigada. Estava torneando esta pea no dia em que entrei no ateli, no ?
    - Sim. Estava torneando-a... e pensando em voc. Me pareceu lgico presente-lo com ela quando a terminasse. Depois, quando vi sua casa, compreendi que era a 
cermica adequada para voc.
    - Sem dvida que . - assentiu, voltando a guardar a jarra em sua caixa. Depois de deix-la cuidadosamente no cho, estreitou Shelby entre seus braos - Como 
voc.
    - Vamos pedir comida chinesa. - sussurrou com a cabea apoiada em seu ombro.
    - Mmmm. Eu pensei que queria ir ao cinema.
    - Isso era esta manh. Esta noite prefiro comer comida chinesa com voc. De fato... - acrescentou salpicava seu pescoo de beijos - ... at mesmo provavelmente 
me conforme com um pouco de queijo e algumas bolachas salgadas.
    - E se deixarmos a comida para mais tarde?
    - Tem uma mente muito bem organizada. - comentou Shelby, tombando no sof e levando-o consigo - Gosto da maneira como ela funciona. Beije-me, Alan. Beije-me 
como fez da primeira vez que nos sentamos aqui. Aquele beijo me deixou louca.
    Tinha os olhos meio fechados e os lbios entreabertos. Alan enterrou os dedos em sua cabeleira, que se derramava desordenada sobre as almofadas. J no tinha 
a pacincia que se havia imposto daquela primeira vez. Era mais tentadora que a mais atrevida das fantasias, mais desejvel que qualquer sonho febril. E ali estava, 
s para ele.
    Alan saboreou lentamente seus lbios, tal como ela quisera que fizesse. Podia controlar a necessidade de devor-la, j que sabia que acabaria fazendo-o quando 
chegasse o momento. Shelby emitiu um suspiro e tremeu. Aquele leve gesto esteve a ponto de faz-lo perder o controle. E nem sequer a tinha tocado, alm daquela simples 
carcia de seus lbios... Nunca havia imaginado que uma tortura pudesse ser to deliciosa. 
    Shelby adorava senti-lo, toc-lo. Cada vez que podia toc-lo livremente, sabia que jamais se cansaria de faz-lo; isso lhe produzia sempre um prazer to puro, 
uma nsia to intensa... Sempre que via algo que despertava sua admirao, ansiava sentir sua textura, seu peso, seu sabor. E com Alan no era diferente.
    Podia sentir a batida acelerada de seu corao enquanto sua boca continuava fazendo-lhe amor com deliciosa lentido e meticulosidade. Ergueu as mos at seus 
ombros para abrir sua camisa e explorar sua pele com maior liberdade.
    Foi ento que percebeu que a pacincia comeava a se esgotar... o que a deixou sem flego.
    J estava imersa na tormenta que Alan tinha conjurado como se fosse um bruxo. Pensou ter ouvido um trovo, porm era s a batida de seu prprio pulso. As mos 
de Alan se moviam com rapidez, despindo-a com algo que parecia raiva, e acariciando-a depois com hbeis e violentas carcias que a faziam se convulsionar de prazer. 
Um prazer que se incrementava aos poucos, at a loucura.
    Alan a ouviu gritar seu nome, reclamando-o, porm estava enredado demais em sua prpria rede para responder. Sentia revolver algo selvagem em seu interior, uma 
ferocidade que nunca havia gozado de total liberdade e que estava surgindo agora, como uma pantera que finalmente tivesse se libertado de seu cativeiro. Estava devorando-a 
de puro prazer, e mesmo sabendo disso, no podia deter-se. O corpo de Shelby tremia desejoso sob o seu. Em todas aquelas reas que sua boca tocava, despertava tanto 
paixo como promessas...
    Shelby se arqueou para ele, gemendo. Com a lngua, Alan arrastou-a implacvel para at outro orgasmo. Tinha o corpo em chamas, sua mente limpa de qualquer pensamento, 
governada somente por sensaes. No tinha conscincia do que Alan estava lhe perguntando ou pedindo, embora percebesse a urgncia em sua voz rouca. Nem sequer sabia 
o que estava lhe respondendo. A nica coisa que sabia era que nada do que ele tivesse lhe pedido teria sido demais. Atravs daquela nvoa, viu seu rosto acima do 
seu... e notou um brilho sombrio em seus olhos, quase selvagem, desesperado.
    - No posso viver sem voc. - confessou Alan num murmrio cujo eco ressoou interminvel em sua mente - No poderei.
    Ento se apoderou de seus lbios, e todo o resto sumiu em delrio.
    
    - Tem certeza que no quer mais?
    Duas horas depois Shelby estava sentada na cama com as pernas cruzadas, vestida com uma curta camisola de seda e comendo da embalagem de comida chinesa que tinha 
a sua frente. Ao seu lado, a televiso estava ligada e com volume baixo, porm no se via nada na tela. Alan, por sua vez, continuava confortavelmente deitado, com 
a cabea apoiada nos travesseiros.
    - Shelby,  por que no leva esse aparelho para consertar de uma vez?
    - Mmmm, farei isso algum dia.  - disse antes de deixar de lado a embalagem meio vazia. Levando a mo at o estmago, suspirou satisfeita - Estou cheia.  - voltou-se 
sorridente e fitou Alan da cabea aos ps, admirando seu corpo musculoso - Me pergunto quantas pessoas da rea metropolitana de Washington sabero como o senador 
MacGregor fica imponente em roupa ntima.
    - Uns poucos escolhidos.
    - Deveria pensar em sua imagem pblica, senador. Poderia fazer um desses anncios publicitrios... voc sabe, como os que fazem os jogadores de futebol americano. 
Um que dissesse, por exemplo: "nunca me reno com um dignatrio estrangeiro sem usar minhas cuecas da marca tal"...
    - Que bom que no trabalha para o departamento de relaes pblicas.
    - Pense nas possibilidades que teria... - Shelby se deixou cair sobre ele, rindo.
    - Estou pensando agora mesmo. - comentou, enquanto deslizava a mo por baixo de sua camisola.
    - Anncios em revistas de grande tiragem, de televiso em horrio nobre... Ora, acho que vou mandar consertar esse televisor. Voc me convenceu.
    - Pense na moda que isso poderia gerar: por todos os lados polticos e funcionrios pblicos se despindo para mostrar suas cuecas...
    - Meu Deus, isso poderia ser uma desgraa nacional! - exclamou Shelby, soltando uma gargalhada.
    - Mundial. - a corrigiu Alan - Uma vez que a bola comeasse a rolar, no teria quem a parasse.
    - Est bem, voc me convenceu. - deu-lhe um sonoro beijo -  um dever patritico que no se exiba em roupa ntima. Exceto aqui,  claro. - acrescentou, com um 
brilho malicioso nos olhos, enquanto deslizava um dedo por sua cintura. 
    Rindo, a beijou nos lbios.
    - Shelby... Shelby, tinha algo que eu queria conversar com voc antes, e estou em srio perigo de voltar a me distrair...
    - Diga... - distribuiu beijos por seu pescoo.
    - Tenho um compromisso este fim de semana.
    -  mesmo? - mordiscou-lhe uma orelha.
    Como defesa, Alan girou sobre as costas e se colocou sobre ela.
    - Esta tarde meu pai me ligou.
    - Ah - sorriu - O senhor feudal.
    - O ttulo lhe cairia bem. - Alan segurou-lhe os pulsos para impedi-la de nublar seu juzo, que era o que parecia disposta a fazer - Ao que parece, organizou 
um de seus famosos fins de semana. Venha comigo.
    -  fortaleza dos MacGregor em Hyannis Port? - arqueou um sobrancelha - E desarmada?
    - Hastearemos a bandeira branca.
    Shelby queria ir. Mas tambm queria negar. Uma visita a sua famlia iria aproxim-la perigosamente desse compromisso final que com tanto empenho estivera evitando. 
Perguntas, expectativas, suposies... j no teria como evit-las.
    Alan podia ouvir seus pensamentos to claramente como se os tivesse pronunciado em voz alta. Dominando sua frustrao, mudou de ttica. 
    - Tenho ordens estritas de "trazer essa garota"... - viu que estreitava os olhos - "Essa filha dos ladres e assassinos Campbell"
    - Essas foram suas palavras?
    - Sim. Literalmente. - afirmou Alan com tom suave.
    Shelby ergueu o queixo.
    - Quando partimos?
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
     
    
    
    
    
    CAPTULO X
    
    Shelby ficou admirada quando viu a manso sobre o penhasco. Era maravilhosa. Sbria, rgia, com altas torres de pedra, erguia-se como para vigiar o mar. Era 
uma fortaleza, um castelo, um belo anacronismo.
    Quando se voltou para Alan, viu que a estava olhando  espera de seu veredicto. Havia um brilho de humor em seus olhos que tinha aprendido a interpretar, junto 
com a ironia que sempre o acompanhava.
    - Voc sabia que eu adoraria. - disse, rindo.
    Incapaz de resistir, Alan se aproximou para acariciar seu cabelo com a ponta dos dedos.
    - Sim. Pensei que poderia... te agradar.
    Shelby comeou a rir e voltou a contemplar a casa enquanto Alan arrancava de novo com o carro que haviam alugado para continuar subindo a ladeira.
    - Se eu tivesse crescido aqui, teria me alojado num quarto da torre. E teria como pretendentes fantasmas sem cabea...
    O mar estava to prximo que seu aroma e seu sabor de sal entravam pelas janelas abertas.
    - Nunca houve fantasmas, embora freqentemente meu pai tenha tentado importar alguns da Esccia. - olhou de esguelha para Shelby - E,  claro, tem seu escritrio 
em uma das torres.
    - Mmmm. - franzindo o cenho, observou as estreitas janelas da torre mais alta. Daniel MacGregor. Sim, ardia de vontade de conhec-lo. Porm antes se dedicaria 
a desfrutar daquela vista magnfica.
    No lhe passou despercebido o lindo jardim de flores que rodeava a manso, e que, sabia, estava sob os cuidados da me de Alan. Se a casa tinha sido desenhada 
por Daniel e o jardim por Anna, o mnimo que se podia dizer daquele casal  que se complementavam muito bem. Conhec-los, refletiu, seria uma experincia muito interessante.
    Pouco depois que Alan estacionou o carro, Shelby j havia subido num pequeno monte salpicado de flores de onde podia apreciar toda a estrutura da manso. Estava 
rindo outra vez, com a cabea inclinada para trs e a rebelde cabeleira cacheada ao vento.
    Apoiado no cap do carro, Alan se dedicou a observ-la. Com Shelby, s vezes o simples fato de olhar era suficiente: o enchia de alegria e felicidade.
    Gostava de ver sua silhueta recortada contra aquele fundo de flores coloridas  e da pedra cinzenta da casa, com as mos enfiadas nos bolsos de suas calas justas, 
com o tecido fino de sua blusa se agitando ao vento. 
    - Definitivamente, eu sim teria tido fantasmas. - decidiu antes de estender-lhe as mos - Terrveis e escandalosos fantasmas, e no do tipo etreo e lnguido. 
Beije-me, MacGregor. - pediu, afastando o cabelo dos olhos - Beije-me profundamente. Nunca tinha visto um lugar mais adequado que este para isso. 
    Mesmo enquanto falava, seu corpo j estava buscando seu contato, com sua mo livre deslizando por suas costas para atra-lo para si. Quando seus lbios se encontraram, 
acreditou distinguir nos de Alan o aroma de uma tormenta no mar... por mais lmpido que o cu estivesse. Podia toc-lo e sentir em sua pele a estremecedora descarga 
de um raio. E se sussurrava seu nome, o que ouvia era um trovo. Se abraaram, perdidos um no outro, esquecidos do mundo que simplesmente havia parado de repente. 
Nada mais lhes importava.
    Shelby acariciou-lhe lentamente as faces antes de se afastar. Viu-se assaltada por uma onda de arrependimento pelo que ainda no havia lhe dado, e pelo que talvez 
nunca seria capaz de lhe dar: um compromisso que transcendesse todas as suas dvidas e seus medos. 
    - Te amo, Alan. - murmurou - Acredite em mim.
    Em seus olhos Alan podia distinguir uma paixo e uma luta interior. Sim, o amava, mas... "Ainda no", se ordenou. Ainda podia esperar um pouco mais antes de 
pression-la.
    - Eu acredito. - disse enquanto a segurava pelos pulsos. Suavemente lhe beijou as mos antes de deslizar um brao em torno de sua cintura - Vamos entrar.
    No caminho para a porta, Shelby apoiou a cabea sobre seu ombro.         
    - Lembre-se da promessa que me fez de que voltaria s e salva para casa na segunda-feira
    - J disse que ficaria continuamente como mediador. - sorriu Alan. 
    - Muito obrigada. - ergueu o olhar para a porta, fixando-se na pesada aldrava de bronze: tinha a forma do leo dos MacGregor, com um lema em galico sobre sua 
cabea coroada. - Seu pai no  precisamente muito discreto a respeito de seus antecedentes familiares, no ?
    - Digamos que tem um forte e arraigado senso de famlia. - Alan levantou a aldrava e golpeou duas vezes a porta. - O cl MacGregor  um dos poucos aos que  
permitido o uso da coroa em seu braso. Sangue azul.
    - H! - a expresso desdenhosa de Shelby foi trocada por outra de leve curiosidade ao ver que Alan soltava uma gargalhada - Eu disse algo engraado?
    Antes que ele pudesse responder, a porta se abriu de repente. Shelby se viu frente a um homem jovem, alto e loiro, de fascinantes olhos de um tom azul prximo 
ao violeta. Tinha um rosto de traos finos, com uma expresso que sugeria tanto inteligncia como astcia. Apoiando-se na porta, sorriu para seu irmo mais velho.
    - Isso, ria. Papai est a uma hora resmungando e esbravejando contra... - desviou o olhar para Shelby - ... no sei que gente traidora e infiel. Ol. Voc deve 
ser a infiel, no?
    A amvel ironia de sua voz a fez rir.
    - Suponho que sim.
    - Shelby Campbell. Meu irmo, Caine.
    - A primeira Campbell que pe um p no feudo dos MacGregor. Adiante. Eu no me responsabilizo por nada. - Caine lhe estendeu a mo enquanto Shelby cruzava o 
umbral.         Seu primeiro pensamento foi que tinha o rosto de uma sereia: um rosto de uma beleza especial, que no se esquecia facilmente.
    Shelby contemplou o vasto vestbulo, adornado com lindas tapearias e mobilirio antigo. Ela mesma no saberia decor-lo com melhor gosto.
    - Alan! - Serena desceu as escadas agilmente, apesar de seu avanado estado de gestao.
    Tinha os olhos azuis, um pouco mais escuros que os de seu irmo Caine, e uma linda cabeleira loura. Shelby tambm percebeu em seu olhar prazer, carinho, humor... 
momentos antes que se lanasse nos braos de Alan.
    - Senti saudades.
    - Est linda, Rena. - acariciou-lhe com ternura o ventre avolumado, emocionado.
    - Ele ou ela est ansioso para sair. - segurando seu rosto, observou-o detidamente - Papai tem a absurda idia de que podem ser gmeos; pergunto-me quem ter 
metido isso na cabea dele...
    - Oh - sorriu - Garanto a voc que foi s uma manobra defensiva.
    - Mmmm - de repente Rena se voltou para Shelby, abrindo os braos - Voc deve ser Shelby. Fico feliz que tenha vindo.
    - Eu tambm. - respondeu, sincera - Morria de vontade de conhecer a mulher que quebrou o nariz de Alan.
    Reprimindo uma gargalhada, Serena se voltou para olhar para Caine.
    - Supunha-se que esse golpe tinha que ser para voc. Bem, vamos, Shelby. Vou apresent-la ao resto da famlia. - acrescentou enquanto a pegava pelo brao - Meu 
Deus, espero que Alan a tenha preparado convenientemente.
    - A sua maneira, ele o fez.
    - Quando comear a se sentir mal, diga-me com o olhar. Ultimamente s tenho que suspirar para conseguir distrair a ateno de papai ao menos durante uma hora 
e meia.
    Alan ficou olhando as duas mulheres que j comeavam a se afastar pelo corredor.
    - Parece que Rena o est levando muito a srio.
    Caine sorriu ao mesmo tempo em que lhe dava uns tapinhas no ombro.
    - A verdade  que todos ns morramos de vontade de conhecer a sua Campbell desde que papai anunciou... a notcia. - no perguntou a Alan se as coisas com Shelby 
eram srias; no tinha nenhuma necessidade de fazer isso - Espero que tenha lhe dito que nosso pai  co que ladra mas raramente morde.
    - Ei, por que teria que ter lhe dito isso?
    Antes de entrar na sala, Shelby se deteve um instante no umbral para contemplar a cena que se desenrolava ali. Um homem moreno estava sentado confortavelmente 
numa velha poltrona, fumando. Teve a impresso que embora mal se movesse, podia faz-lo gil e rapidamente sempre que fosse necessrio. Num brao da poltrona se 
achava sentada uma mulher, com o cabelo da mesma cor, as mos entrelaadas sobre sua saia verde. Um casal perfeito, refletiu Shelby.
    Do outro lado do cmodo havia outra mulher, bordando tranqilamente. Shelby no demorou a descobrir de quem Alan havia herdado seus traos, inclusive aquele 
atraente e sereno sorriso. Por ltimo, no centro do grupo e de costas para Shelby, se balanava uma cadeira de espaldar alto, talhada em madeira, muito apropriada 
para o homem que a ocupava. 
    Daniel MacGregor era um homem enorme, de aparncia impressionante, com cabelo vermelho fogo, ombros muito largos e rosto corado, transbordante de sade. Shelby 
notou, com um trao de diverso, que usava uma faixa com as cores do cl MacGregor por cima da jaqueta do traje. Era, indiscutivelmente, um chefe de cl.
    - Rena deveria descansar um pouco mais. - declarou, brandindo um dedo acusador contra o homem que estava sentado na poltrona - Uma mulher em seu estado no tem 
nada que fazer num cassino a altas horas da noite. 
    - Por acaso o cassino  dela. - retrucou Justin, soltando uma baforada.
    - Quando uma mulher grvida... - Daniel se interrompeu para lanar a Diana um olhar interrogativo... e Shelby percebeu que a mulher morena reprimia a duras penas 
um sorriso antes de sacudir a cabea. Finalmente Daniel suspirou, voltando-se novamente para Justin - Eu dizia que quando uma mulher grvida...
    - Que esteja grvida no significa que no possa fazer o que faria qualquer outra mulher. - terminou Serena por ele.
    Antes que Daniel pudesse replicar, deparou com Shelby.
    - Ora!
    - Shelby Campbell. - Serena a apresentou com tom suave, enquanto entrava com ela na sala - Eis aqui o resto da famlia. Meu marido, Justin Blade.
    Shelby se deparou com um par de olhos verdes, de olhar tranqilo e inteligente, que a observavam com interesse. Demorou a sorrir, porm quando o fez, valeu a 
pena.
    - Minha cunhada, Diana. - continuou Rena.
    - So irmos, no? - inquiriu olhando de Justin para Diana. A semelhana de seus traos no havia lhe passado despercebida.
    Diana assentiu. A candura de seu olhar a agradava.
    - De qual cl? - perguntou Shelby de novo.
    Justin esboou outro sorriso enquanto soltava outra baforada.
    - Comanche.
    - Boa linhagem. - comentou Daniel, dando um soco no brao de sua cadeira. Shelby o olhou sem dizer nada.
    - Minha me. - Serena prosseguiu com as apresentaes.
    - Estamos to contentes que tenham vindo, Shelby... - a voz de Anna era sossegada, relaxante. E sua mo, quando segurou a de Shelby, firme e segura.
    - Obrigada. Estive admirando seu jardim, sra. MacGregor.  lindo.
    - Obrigada.  um dos meus caprichos. - quando Daniel clareou a garganta ostensivamente, um fugaz sorriso se desenhou nos lbios de Anna - Teve um bom vo?
    - Sim. - de costas para Daniel, Shelby sorriu - Muito tranqilo.
    - Deixe-me dar uma olhada na garota! - disse Daniel, golpeando com o punho o brao da cadeira.
    Percebendo que Serena reprimia outra gargalhada, Shelby se voltou lentamente para fitar Daniel. E ergueu o queixo com um gesto to arrogante quanto o do patriarca 
do cl.
    - Shelby Campbell - dessa vez Alan a apresentou, desfrutando daquele momento - Meu pai, Daniel MacGregor.
    - Uma Campbell... - repetiu Daniel.
    Shelby se aproximou, porm no estendeu a mo.
    - Isso mesmo. - pronunciou, pois seu sangue parecia exigir isso - Uma Campbell.
    Daniel se obrigou a franzir o cenho e a no sorrir, num esforo para adotar sua expresso mais intimidante. Porm a jovem nem sequer pestanejou.
    - Minha famlia abrigaria um gamb em sua casa antes de um Campbell.
    Ao ver que sua me abria a boca para protestar, Alan lhe fez um gesto para que se mantivesse em silncio. No apenas sabia que Shelby sabia se defender, mas 
tambm queria v-lo com seus prprios olhos.
    - A maior parte dos MacGregor se sente muito confortvel admitindo os gambs em seus sales.
    - Brbaros! Os Campbell eram brbaros, desde o primeiro at o ltimo.
    - E os MacGregor sempre tiveram a reputao de maus perdedores.
    Instantaneamente o rosto de Daniel ficou to vermelho quanto seu cabelo.
    - Perdedores? H! Ainda no nasceu um Campbell que pudesse resistir a um MacGregor num combate limpo. So dos que apunhalam pelas costas.
    - Dentro de um minuto escutaremos a biografia de Rob Roy. - interveio Caine, irnico - Quer um drinque, papai? - lhe perguntou, numa tentativa de distra-lo 
- E voc, Shelby?
    - Sim, por favor. Usque escocs. - deu-lhe uma piscadela de cumplicidade, e continuou a discusso com seu pai. - Se os MacGregor tivessem sido mais espertos, 
quem sabe no teriam perdido nem suas terras, nem seus kilt, nem seu sobrenome. Os reis - continuou com tom suave enquanto Daniel resfolegava de fria - tem o costume 
de se aborrecer quanto algum tenta ser mais do que eles.
    - Os reis! - explodiu Daniel - Um rei ingls, por Deus! Nenhum escocs de verdade precisava que um rei ingls lhe dissesse como tinha que viver em sua prpria 
terra.
    Os lbios de Shelby se curvaram num sorriso enquanto Caine lhe estendia um copo.
    - Essa  uma verdade pela qual poderia brindar.
    - Ah! - Daniel ergueu seu copo e o tomou de um s trago antes de deix-lo sobre a mesa.
    Para Shelby custou um pouco mais, porm seguiu seu exemplo. Por um instante o homenzarro ficou olhando seu copo vazio com o cenho franzido. Depois, lentamente 
e em meio a um tenso silncio, se voltou para observar Shelby. Seu olhar era feroz, e o da jovem desafiante. Levantando-se lentamente da cadeira, se ergueu diante 
dela como um urso gigantesco.
    Shelby, por sua vez, se negava a baixar o olhar, com as mos nos quadris. Alan gostaria de poder pintar aquela cena. Foi ento que, sem aviso prvio, Daniel 
explodiu em estridentes gargalhadas.
    - Meu Deus, que garota!
    E Shelby viu-se desequilibrada enquanto a levantavam, espremida por um forte e paternal abrao de boas vindas.
    
    No demorou muito tempo para Shelby fazer um esboo mental da famlia MacGregor. Daniel era um homem enrgico, de gestos teatrais, exigente... e um verdadeiro 
doce no que se referia a seus filhos. Anna tinha os olhos e o temperamento de seu filho mais velho. Podia dominar qualquer um discreta e silenciosamente, inclusive 
seu marido. Depois de observ-la durante toda a tarde, Shelby s pde concluir que havia exercido grande influncia sobre Alan. Havia herdado a mesma pacincia e 
perspiccia de sua me. Uma combinao formidvel.
    Gostava da famlia de Alan. Um a um, teria achado todos os seus membros interessantes, porm em grupo os achava fascinantes. A prpria casa era fantstica, irresistvel. 
Abbadas, grgulas, armaduras, corredores interminveis...
    Jantaram numa sala de jantar de dimenses colossais. Lanas se cruzavam sobre uma imensa lareira cheia de lenha. Tudo falava de uma riqueza excntrica e ostentosa 
muito ao gosto de Daniel MacGregor. 
    Shelby se achava sentada a esquerda de Daniel. Enquanto deslizava um dedo pela borda de seu prato, comentou:
    - Wedgwood nacarada, do final do sculo dezoito. A variante amarela  muito rara.
    - Essa loua pertenceu a minha av. - explicou Anna - Sempre a adorou. No sabia que sua cor era to pouco comum.
    - As de cor azul, verde e negro so pintadas com xidos. Nunca havia visto a cor amarela fora de um museu.
    - Nunca entendi como as pessoas conseguem se interessar tanto por um simples prato. - comentou Daniel.
     - Porque para voc a nica coisa que sempre interessou foi seu contedo. - interveio Serena.
    - Shelby  ceramista. - disse Alan a seu pai, antes que ele pudesse retrucar.
    - Ceramista? - observou-a, franzindo o cenho - Voc faz pratos?
    - Entre outras coisas. 
    - Nossa me tambm fazia cermica. - murmurou Diana - Ainda lembro dela trabalhando com um pequeno torno manual quando era criana.  fascinante ver as coisas 
que se podem fazer a partir de um simples pedao de barro. Lembra-se, Justin?
    - Sim. s vezes vendia as peas numa pequena loja do povoado. Vende seu trabalho? - perguntou a Shelby - Ou  somente um hobby?
    - Tenho uma loja em Georgetown.
    - Uma empresria. - comentou Daniel em tom aprovador - Ento vende sua prpria produo. Voc  boa?
    Shelby ergueu seu copo de vinho.
    - Gosto de pensar que sou. - e se voltou para Alan - Voc concorda, senador?
    - Absolutamente. - respondeu - E, para quem no tem nenhum senso de organizao, devo dizer que trabalha e administra sua loja s mil maravilhas.
    - Gosto dos cumprimentos ambguos. Alan, por sua vez, est acostumado  rotina mais estruturada.  incapaz de perder as estribeiras.
    - E eu gosto dos insultos ambguos. - murmurou.
    - Isso equilibra a relao de vocs. - Daniel apontou para ambos com seu garfo - Sabe o que faz, no , menina?
    - Como a maioria das pessoas.
    - Ser uma boa Primeira Dama, Shelby Campbell.
    Os dedos de Shelby se retesaram sobre seu copo: um involuntrio detalhe que apenas Alan e sua me perceberam.
    - Quem sabe... - respondeu com voz tranqila - ... se essa fosse uma de minhas ambies.
    - Seja ou no, foi o destino quem a juntou com esse homem. - Daniel apontou seu primognito.
    - Isso  um pouco prematuro. - apontou Alan enquanto cortava seu fil, dominando sua inquietao - Ainda no decidi aspirar  presidncia, e Shelby tampouco 
se decidiu a casar comigo.
    - Como no decidiu ainda? H! Essa menina no me engana. Campbell ou no,  uma boa escocesa. No importa o cl ao qual pertence. Conceber uns bons MacGregor.
    - Ainda continua empenhado em que eu mude de sobrenome. - interveio Justin, num esforo para desviar a ateno de Daniel para ele.
    - De qualquer forma, o filho de Rena ser um MacGregor. E o mesmo com Caine quando criar juzo e se decidir a ter um. - lanou ao seu filho do meio um olhar 
carrancudo que foi retribudo com um sorriso - Porm Alan  o primognito e portanto tem a obrigao de perpetuar a estirpe e...
    Alan se voltou para seu pai, disposto a acabar com aquele tpico, porm se conteve ao ver o sorriso de Shelby. Havia cruzado os braos sobre a mesa, esquecendo-se 
do jantar para desfrutar de uma das clssicas atuaes de Daniel MacGregor.
    - Est se divertindo? - perguntou-lhe ao ouvido.
    - No perderia isso por nada no mundo.  sempre assim?
    - Sim. - respondeu Alan, suspirando, enquanto seu pai continuava seu sermo.
    Finalmente, Shelby decidiu intervir.
    - Acho que estou apaixonada, Daniel... - interrompeu sua torrente de palavras, puxando-o pela manga - No quero ofender Alan, nem a sua esposa, mas acho que 
se fosse me casar com um MacGregor... seria com voc.
    Daniel ficou encarando-a, estupefato, at que de repente explodiu em gargalhadas.
    -  uma diabinha, Shelby Campbell. Tome... - ergueu a garrafa de vinho - Vejo que seu copo est vazio.
    
    - Voc se saiu muito bem. - Alan disse a Shelby um pouco depois, quando lhe mostrava a casa.
    -  mesmo? - rindo, segurou sua mo -  um homem irresistvel... - se ps na ponta dos ps para mordiscar-lhe o lbulo da orelha - Assim como seu primognito.
    - Essa palavra tem que ser usada de maneira reverente. - advertiu Alan - Pessoalmente, sempre me pareceu odi...
    - Oh, isso  fabuloso! - exclamou, levantando uma pea de porcelana de uma mesa - Um Chantilly. Alan, juro que esta casa  melhor que um museu. Nunca me cansarei 
de percorr-la. - depois de deixar a porcelana onde estava, se voltou para ele com um sorriso - Alguma vez colocou uma destas armaduras?
    - Caine o fez uma vez... e eu demorei cerca de uma hora para tir-lo de l.
    Shelby murmurou umas palavras de simpatia enquanto embalava seu rosto entre as mos.
    - Era um menino to bonzinho. - brincou, rindo, porm Alan calou seu riso com um sbito beijo, apaixonado, abrasador.
    - Caine se meteu nessa armadura... - continuou Alan, sem deixar de beij-la - ... porque eu lhe sugeri que poderia ser uma experincia interessante.
    Olhou-o fixamente, sem flego, perguntando-se quando estaria preparada para essas bruscas mudanas de temperamento de Alan. 
    - Bancando o instigador, hein? - conseguiu dizer.
    - Exercendo o papel de lder. - a corrigiu antes de solt-la - E s o ajudei a sair depois que demos um susto de morrer em Rena.
    Por um instante Shelby se apoiou na parede, observando-o, enquanto a batida do desejo que atravessava seu corpo se acalmava pouco a pouco.
    - No acredito que fosse to comportado como me disse uma vez que era. Provavelmente merecia que lhe quebrassem o nariz.
    - Caine merecia ainda mais.
    Shelby riu de novo enquanto entravam por outro corredor.
    - Gosto da sua famlia.
    - Eu tambm.
    - E se divertiu vendo como eu duelava com seu pai?
    - Sempre gostei das comdias de salo.
    - De salo? Mas se aquilo parecia a sala do trono! - apoiou a cabea em seu ombro -  maravilhoso. Alan... de onde seu pai tirou a idia de que vamos nos casar?
    - Eu disse a ele que havia lhe pedido. - reconheceu - Acontece que meu pai custa a entender que uma mulher possa rejeitar seu primognito. - voltou-se de repente, 
encurralando-a contra a parede do corredor.
    A penumbra reinante ressaltava os traos do seu rosto, deixando seus olhos sombreados. Shelby podia sentir a fora e o poder que emanava de seu corpo, apesar 
de mau se tocarem. Sabia que podia ser feroz, e ao mesmo tempo deliciosamente terno.
    - Alan...
    - Quanto tempo vai me pedir para esperar? - no havia querido pression-la; de fato, havia se prometido que no o faria. Porm v-la no lar de sua infncia, 
com sua famlia, com suas recordaes, s havia intensificado a necessidade que sentia dela - Te amo, Shelby.
    - Eu sei. - ergueu os braos para o seu pescoo, apertando o rosto contra o seu - Eu te amo. D-me um pouco mais de tempo, Alan, s um pouco mais de tempo.  
pedir demais, eu sei. - o abraou com fora, antes de se afastar para ver-lhe o rosto -  mais honesto que eu, mais paciente e bom. Tenho que me aproveitar disso.
    Porm Alan no se sentia nem bom nem paciente. Queria encurral-la contra uma esquina e exigir, reclamar, pedir... suplicar. 
    - Est bem. Porm, Shelby, h coisas que teremos que conversar quando voltarmos a Washington. Uma vez que tome uma deciso, terei que pedir-lhe que tome a sua.
    - Conversaremos em Washington. - aceitou - E prometo que te darei uma resposta.
    - Espero que seja a que eu desejo. - murmurou Alan, beijando-a novamente -  tarde. - acrescentou de repente - Suponho que todo mundo j tenha ido para a cama.
    - Ns deveramos fazer o mesmo.
    Alan comeou a rir.
    - O que acharia de um banho  meia-noite?
    - Um banho? - Shelby fechou os olhos, suspirando de deleite - Oh, mas no trouxe roupa de banho.
    - Melhor. - Alan a levou pelo corredor at uma grande porta dupla, que fechou com cuidado depois de faz-la passar.
    - Ora - com as mos nos quadris, contemplou o cmodo.
    Era enorme, como tudo naquela casa. Uma parede era inteiramente de vidro, com exuberantes plantas pendendo de diversos nveis, deixando entrar a luz da luz. 
O cho era de mosaico, com diminutas lajotas formando intrincados desenhos em tons verdes e azuis. E, no meio, uma enorme piscina. Com um sorriso, se voltou para 
Alan.
    - Aposto que voc nadou incontveis vezes aqui. A primeira vez que o vi pensei que tinha o corpo de um nadador profissional. Certamente no estava muito longe 
da verdade.
    Alan se limitou a sorrir.
    - Mas antes teremos que tomar uma sauna.
    - Oh,  mesmo?
    - Ah. - enganchou um dedo na cintura de sua cala e a atraiu para si - Tem que abrir os poros um pouquinho. - com um rpido movimento, desabotoou-lhe a cala 
e a deslizou pelos quadris.
    - J que insiste... - Shelby comeou a tirar-lhe a gravata - Percebeu, senador, que geralmente costuma usar muito mais roupa do que eu?
    - Pois... - introduziu as mos debaixo de sua blusa - ... sim.
    - Pois a no ser que queira tomar essa sauna completamente vestido, - comeou a desabotoar-lhe os botes - ter que se refrear um pouco. - soltando um longo 
suspiro, finalmente o despojou da camisa - Precisaremos de toalhas. - acrescentou enquanto percorria seu torso com as mos, at chegar ao seu cinto.
    Lentamente, Alan tirou-lhe a blusa, permitindo-se admir-la por alguns segundos antes de pegar as toalhas numa estante atrs deles. Era esbelta, tentadora, desafiante... 
e era toda sua. Sem deixar de encar-lo, Shelby se envolveu na toalha que ele lhe ofereceu.
    Comeou a suar no mesmo instante em que ele a fez passar para uma sala contgua. Ficou imvel por um momento, desfrutando da sensao, antes de sentar-se num 
banco.
    - Fazia meses que no fazia isto. - murmurou, e se recostou para trs, com os olhos fechados -  maravilhoso.
    - Soube que meu pai conseguiu fechar muitos acordos de negcios nesta sala. - Alan se deixou cair a seu lado.
    - No me admira. Graas a ela deve ter sido capaz de derreter qualquer um. - com um gesto distrado, deslizou um dedo pela coxa de Alan - Alguma vez se utilizou 
de uma sauna para alguma importante para alguma importante intriga de governo, senador?
    - A verdade  que, nas saunas, prefiro fazer outras coisas... - inclinando-se, roou com os lbios seu ombro nu - Coisas muito mais pessoais.
    - Mmmmm. Pessoais como?
    - Altamente confidenciais. - de repente Alan a sentou em seu colo e comeou a cobrir sua pele daqueles beijos que ela tanto adorava - Seu corpo me fascina, Shelby. 
To esbelto, to elegante, to gil... - seus lbios desciam cada vez mais, at chegar ao n da toalha - E sua mente... tambm  gil, e to hbil quanto suas mos. 
Nunca soube o que mais me atrai em voc. Talvez sejam ambas as coisas.
    Shelby se contentou em deitar-se e deixar que lhe fizesse amor com suas palavras e com o maravilhoso contato de seus lbios. Tinha os msculos relaxados pelo 
calor, a pele suave e mida. Quando voltou a beij-la na boca, descobriu que s tinha foras para erguer um brao e atra-lo para si.
    Porm seus lbios sim podiam se mover, tentando-o, convidando-o. Por isso foi em sua boca que concentrou suas escassas energias enquanto seu corpo parecia se 
derreter por instantes de ardor e desejo.
    Ao mesmo tempo em que a beijava lenta, profundamente, desfez o n da toalha at deix-la completamente nua e vulnervel diante dele.
    Sentiu-a gemer contra seus lbios, e saboreou sua respirao trmula que se confundia com a sua. Seu aroma, sempre excitante, parecia encher aquela pequena sala 
at apagar tudo o mais. Deslizando um brao por suas costas, a atraiu ainda mais para si. Seus lbios, ainda famintos, pareciam se emaranhar num beijo eterno, inesquecvel. 
Alan encontrava uma resposta onde a tocava, uma reao que se tornava cada vez mais frentica conforme suas mos ia perdendo a pacincia. Quando viu que comeava 
a convulsionar-se de prazer, estremeceu. "Agora", parecia dizer-lhe em silncio. Com um trmulo suspiro, se obrigou a dominar sua necessidade.
    Encontrou-a mida e excitada. Quando Shelby arqueou o corpo contra sua mo, Alan pde sentir a exploso de seu orgasmo. Aturdida e inconsciente gemia seu nome, 
apenas seu nome. Era tudo o que ele desejava escutar. Poderia ter ficado horas acariciando-a assim. Estreitando-a entre seus braos, se ergueu levando-a consigo.
    -  perigoso ficar aqui muito tempo. - deu-lhe um rpido beijo - Vamos nos refrescar.
    - Impossvel. - murmurou Shelby, apoiando-se em seu ombro - Absolutamente impossvel.
    Tinha deixado as toalhas para trs.
    - A gua est fresca... e quase to suave quanto sua pele.
    Com um suspiro, Shelby se voltou para fitar a superfcie lisa da piscina.
    - Posso entrar na gua... - lanou-lhe os braos ao pescoo, fraca demais para se sustentar sozinha - ... mas no acredito que tenha foras para nadar.
    - Eu a ajudarei. - sugeriu Alan, e erguendo-a como se fosse uma pluma, entrou com ela na piscina.
    Shelby ficou sem ar ao primeiro contato com a gua.
    - Est gelada!
    - Impresso sua.  o contraste com a temperatura da sauna.
    Foi nadando at o outro extremo enquanto sentia como seus msculos se revigorizavam. Alan j a estava esperando.
    - Quer se exibir na minha frente como um grande nadador, ? - acusou, afastando o cabelo dos olhos. Depois deixou o olhar vagar lentamente por seu corpo. No 
importava quantas vezes o visse nu, ou quantas vezes o tocasse: sempre tinha a capacidade de excit-la, em todo momento e lugar. - Est estupendo, senador. Acho 
que poderia chegar a me acostumar a v-lo molhado e despido. Se algum dia se decidir a deixar a poltica, poderia alcanar um grande sucesso como salva-vidas numa 
praia nudista.
    - Sempre  bom ter uma profisso de reserva. - a observou por alguns instantes, com sua pele branca e cremosa contrastando com a gua escura. A luz da lua entrava 
pela janela. O desejo que havia experimentado antes retornou com toda sua fora. De repente se adiantou para ela, deslizando um brao por sua cintura. 
    Shelby se agarrou a seus ombros enquanto jogava a cabea para trs, com a cabeleira meio afundada na gua. Alan podia ver em seus olhos a excitao, a mtua 
necessidade. Foi ento que sentiu o roar de seus lbios nos seus, e j no viu mais nada.
    Shelby sabia que j no teria pacincia nem languidez nesse novo ato amoroso. A boca de Alan devastava a sua, e nela podia saborear tanto desespero como irrefrevel 
avidez. At aquele instante nunca tinha achado possvel que pudesse se excitar to rapidamente, mas foi o que aconteceu, e com o mesmo ardor e intensidade de antes. 
O desejo a assaltava em sucessivas ondas, cada vez mais altas, at que se viu completamente afogada por uma e teve que sair para buscar ar. Seus corpos se entrelaavam 
quase com raiva. Enterrou os dedos em seu cabelo murmurando mil promessas, mil exigncias diferentes.
    A gua reduzia a velocidade de seus movimentos, como se quisesse zombar de sua pressa. Nenhum deles conservava a pacincia da ternura uma vez que desgovernada 
a sua avidez. Shelby sentia a caricia da gua em seus ombros, fresca e sensual, em contraste com o ardor da boca de Alan em seus lbios, cada vez mais faminta. Podia 
cheirar em sua pele, sentir em seu gosto: aquele leve rastro de cloro, a nica coisa que podia lembr-los que estavam numa piscina, e no em alguma remota lagoa 
a milhares e milhares de quilmetros de distncia.
    Porm, quando acabaram fazendo amor num frenesi de paixo, nenhum deles dois se lembrava onde estava.
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    CAPTULO XI
    
    - Ol.
    Shelby abafou um bocejo enquanto terminava de descer o ltimo lance de escadas e viu Serena.
    - Ol.
    - Parece que voc e eu somos as nicas que no estamos fazendo uma atividade desagradavelmente produtiva esta manh. Quer comer algo?
    - Sem dvida.  - Shelby levou uma mo ao estmago - Estou morrendo de fome.
    - Bom. Normalmente fazemos o desjejum numa sala contgua  cozinha, todos em horrios diferentes. Caine... - continuou Serena enquanto se dirigiam  sala - ... 
sempre se levanta ao amanhecer: um hbito pelo qual sempre quis estrangul-lo desde criana. Alan e meu pai tampouco so muito diferentes. Para Diana s oito j 
lhe parece muito tarde, e o mesmo acontece com Justin. De qualquer forma, agora tenho isto como desculpa para ficar mais tempo na cama. - palmeou seu avolumado ventre 
de grvida.
    - Eu no preciso de nenhuma. - sorriu Shelby.
    -  uma sorte.
    Serena a levou a uma sala vasta e ensolarada. Elegantes cortinas pendiam das janelas. O tapete era magnfico, tecido em azul e dourado.
    - Acho que esta casa sempre me surpreender.  maravilhosa. - comentou Shelby enquanto estudava a luxuosa cermica das cristaleiras.
    - O mesmo acontece comigo. - riu Serena - Gosta de wafles?
    - Tenho uma fraqueza especial por eles.
    - Eu sabia. J volto. - e desapareceu por uma porta lateral.
    Uma vez sozinha, se dedicou a andar pela sala, admirando o quadro de uma paisagem francesa e cheirando deleitada as flores de um vaso de cristal lapidado. Seria 
preciso um fim de semana inteiro apenas para ver cada sala. E toda uma vida para apreciar tudo o que continham. Ainda assim, se sentia como em sua prpria casa, 
refletiu enquanto se aproximava dos janeles para contemplar o jardim. Sentia-se to confortvel com a famlia de Alan como com a sua prpria. Deveria ser to simples 
amar, casar, ter filhos... Com um suspiro, apoiou a testa no vidro. Se tudo pudesse ser to simples para os dois...
    - Shelby?
    Endireitando-se, voltou-se para surpreender Serena observando-a.
    - Te trouxe caf. - disse aps uma breve hesitao. No tinha esperado ver aquela sombra de preocupao em olhos de um olhar to puro. - Os wafles viro em um 
instante.
    - Obrigada. - sentou-se  mesa enquanto sua anfitri lhe servia o caf - Alan me disse que voc tem um cassino em Atlantic Citty.
    - Sim. Justin e eu somos scios no cassino e em outros hotis. Do resto... - acrescentou enquanto erguia sua xcara - ... ele  o nico proprietrio. Por enquanto.
    Shelby sorriu. Gostava daquela mulher.
    - Quer convenc-lo a deix-la participar como scia tambm nos outros hotis.
    - Sim, porm cada coisa a seu tempo. Aprendi a saber lev-lo muito bem durante o ltimo ano... sobre tudo depois que perdeu a aposta e teve que se casar comigo.
    - Ter que me explicar isso.
    -  um jogador. E eu tambm. Jogamos uma moeda ao ar. - sorriu Serena, recordando - Cara eu ganhava, coroa ele perdia.
    Rindo, Shelby deixou sua xcara sobre o pires.
    -  louco por voc. Sei disso pelo modo como a olha cada vez que entra num aposento em que ele est. 
    - Ns dois temos passado por muitas coisas. - ficou calada um momento, evocando os problemas que tiveram assim que se conheceram, o amor que foi crescendo entre 
eles e o medo de assumir aquele compromisso final - Caine e Diana tambm. - juntou - Justin e Diana tiveram uma infncia dura, e isso marcou sua capacidade de se 
relacionar com outras pessoas.  curioso: acho que amei Justin quase desde o comeo, embora no fosse consciente disso. E o mesmo aconteceu a Caine com Diana. - 
se interrompeu, lanando a Shelby um olhar carregado de carinho. 
    - Os MacGregor sabem bem o que fazem. 
    - Eu j estava me perguntando se Alan chegaria a amar uma mulher algum dia, at que o vi com voc. - segurou sua mo por cima da mesa - Fiquei to feliz quando 
vi que no era o tipo de mulher pela qual tanto temia que fosse se apaixonar...
    - Que tipo era esse? - inquiriu Shelby, sorrindo.
    - Fria, sofisticada, elegante, de mos finas e maneiras impecavelmente aborrecidas. - um brilho de humor apareceu em seus olhos - Algum com quem no poderia 
suportar tomar o desjejum numa manh como esta.
    Shelby comeou a rir e tomou um gole de caf.
    - Para mim, entretanto, esse perfil de mulher parece mais adequado para o senador Alan MacGregor do que eu.
    - Adequado para seu ttulo, para sua condio de senador. - objetou Serena - Conheo meu irmo. Costuma ficar srio demais s vezes, e tambm trabalhar demais, 
porm  um encanto de pessoa. Precisa que algum o ajude a relaxar e a rir.
    - Oxal fosse isso tudo o que precisasse... - murmurou Shelby em tom suave.
    Vendo como a sombra de preocupao anterior voltava ao seu olhar, de repente Serena sentiu uma grande compaixo por ela.
    - Shelby, no pretendo ser curiosa... bom, talvez um pouquinho, sim. Realmente s queria que soubesse o que sentia. Amo muito Alan. 
    Ficou contemplando a xcara vazia antes de olhar de novo para Serena.
    - Eu tambm.
    Serena se recostou em sua cadeira, desejando poder dizer algo prudente, sensato. 
    - Acontece que o assunto no  to fcil, no ?
    Shelby negou com a cabea.
    - Ora, ento afinal decidiu se levantar. - ressoou a voz de Alan quando entrou na sala. Embora tivesse percebido que algo estava acontecendo entre Shelby e sua 
irm, no fez nenhum comentrio.
    - Ainda no so dez horas. - respondeu Shelby, inclinando a cabea para trs para receber seu beijo - J fez o desjejum?
    - Faz horas. Restou algum caf?
    - Sem dvida. - respondeu Serena - Pegue uma xcara. Viu Justin?
    - Est em cima, com papai.
    - Ah, preparando alguma brilhante operao financeira, suponho.
    - No. Jogando pquer. Sem dinheiro: com botes. - explicou Alan enquanto se servia uma xcara - Papai j perdeu quinhentos.
    - E Caine?
    - Uns trezentos.
    Serena tentou adotar uma expresso de desaprovao... e falhou.
    - No sei o que vou fazer se Justin continuar depenando minha famlia assim... E voc? Quanto perdeu?
    - Oh, uns cento e setenta e cinco. - desviando o olhar para Shelby, sorriu - S jogo com Justin para no me mostrar descorts. Porm, maldio, um dia lhe darei 
uma boa surra...
    - No sabia que o jogo estivesse legalizado neste estado. - alfinetou Shelby, olhando os wafles que lhe estavam servindo.
    Alan fitou seu prato, surpreso.
    - Vai comer tudo isso?
    - Sim. - Shelby pegou o frasco de mel e serviu-se generosamente - Visto que os clubes exclusivamente masculinos so arcaicos, machistas e inconstitucionais, 
suponho que poderia me dar a vez numa partida.
    Alan observou como os wafles desapareciam num instante.
    - Nenhum de ns pensamos que o dinheiro podia ter gnero. Est preparada para perder?
    - No tenho esse costume. - sorriu Shelby.
    - Gostaria de estar presente. - comentou Serena - Onde esto mame e Diana?
    - Nos jardins. - respondeu Alan - Diana queria que lhe desse alguns conselhos para a casa que acaba de comprar com Caine.
    - Isso significa que dispomos de uma hora ou duas. - disse Serena enquanto se levantava da mesa.
    - Sua me no gosta dos jogos de cartas?
    - Dos jogos de cartas, sim: dos charutos de meu pai, no. - explicou Serena quando deixavam a sala - Ele os esconde dela... ou ao menos ela o deixa pensar assim.
    Recordando a expresso penetrante e observadora de Anna, Shelby pensou que provavelmente se trataria da ltima opo. A Anna, assim como a Alan, pouqussimas 
coisas escapavam.
    Ainda estavam subindo as escadas da torre quando puderam ouvir a voz estrondosa de Daniel.
    - Maldito seja, Justin Blade! Tem mais sorte que o demnio!
    - Maus perdedores, estes MacGregor. - suspirou Shelby, olhando de esguelha para Alan.
    - J veremos se os Campbell podem fazer melhor. - retrucou Alan - Sangue novo. - anunciou da soleira da porta.
    A sala estava cheia de fumaa. Haviam se servido da enorme e antiga escrivaninha de Daniel como mesa. Os trs homens fizeram uma pausa no jogo ao verem Shelby 
e Serena entrarem.
    - No gostaria de depenar minha prpria esposa. - foi o primeiro comentrio de Justin, enquanto olhava sorridente para Serena, com um charuto entre os dentes.
    - Nem sequer ter a oportunidade de tentar. - explicou enquanto se sentava no brao de sua cadeira -  Shelby quem quer jogar algumas partidas.
    - Uma Campbell! - Daniel esfregou as mos - Veremos de que lado sopra o vento agora. Sente-se, menina. Trs descartes e limite de dez dlares por aposta.
    - Se pensa que vai recuperar suas perdas a minhas custas, MacGregor, - advertiu Shelby tomava assento - est muito enganado.
    Daniel emitiu um grunhido de aprovao. 
    - Embaralhe as cartas, garoto. - ordenou a Caine.
    Shelby demorou menos de dez minutos para descobrir que Justin Blade era o melhor jogador de pquer que havia conhecido em sua vida. Daniel jogava arriscando 
demais, Caine com uma combinao de intuio e talento, porm Justin simplesmente jogava. E ganhava.
    Como sabia que no tinha nada a fazer frente a um jogador dessa categoria, Shelby optou pelo que considerava seu melhor recurso: a sorte s cegas, o puro azar.
    Situado discretamente atrs dela, Alan observou que se descartava de duas copas, com a inteno de completar um Straight Flush. Sacudindo a cabea com expresso 
ctica, se aproximou da mesa que havia numa esquina para se servir de outra xcara de caf.
    Gostava de v-la assim, jogando contra seu pai frente a frente, duas cabeas ruivas inclinadas enquanto examinavam suas cartas. Era surpreendente a facilidade 
com que havia se infiltrado em sua vida. Encaixava-se bem ali, naquele admirvel aposento da torre, jogando pquer num ambiente cheirando a fumo e caf. E do mesmo 
jeito se encaixaria muito bem numa elegante recepo em Washington, saboreando o melhor champanhe.
    E encaixava nas noites em seus braos de uma maneira que nenhuma outra mulher poderia igualar. Alan precisava dela em sua vida como precisava comer, beber ou 
respirar.
    - Par de ases! - disse Daniel com expresso feroz.
    Justin mostrou suas cartas com gesto tranqilo.
    - Dois pares. De damas e setes. - declarou enquanto Caine soltava uma exclamao de desgosto.
    - Maldito...! - Daniel se interrompeu, olhando para sua filha e para Shelby - Que o diabo o carregue, Justin Blade.
    - Acho que est se apressando. - interveio Shelby, baixando suas cartas - Tenho uma seqncia.
    Alan se aproximou da mesa para olhar suas cartas, assombrado.
    -Raios me partam se no  um Straight Flush.
    - S uma bruxa danada poderia tirar um Straight Flush. - comentou Daniel com admirao.
    - Ou uma Campbell danada. - respondeu Shelby em tom tranqilo.
    - Outra partida.
    - Bem vinda a bordo. - Justin sussurrou para Shelby com um sorriso malicioso, antes de comear a embaralhar as cartas.
    Jogaram por uma hora, durante a qual Shelby conseguiu dar um jeito para manter a cabea fora d'gua. Daniel continuou fumando at que ouviu a voz de sua esposa 
vindo da escada: imediatamente apagou o que restava de seu charuto e escondeu o cinzeiro.
    - Aumento seus cinco. - disse, inclinando-se novamente sobre a mesa.
    - Ainda no abrimos as apostas. - lembrou-lhe Shelby, em tom doce. Pegando uma das balas de menta que havia na escrivaninha, enfiou-a na boca de Daniel - E lembre-se 
de apagar seus rastros, MacGregor.
    Sorrindo, o patriarca do cl a despenteou carinhosamente.
    - Campbell ou no, voc  uma boa garota.
    - Claro. Deveramos ter adivinhado que estariam deixando-se depenar por Justin. - declarou Anna quando entrou no aposento acompanhada por Diana.
    - Sim, mas ele est repartindo os lucros com Shelby. - explicou Caine.
    Abraando-o por trs, Diana apoiou o queixo sobre sua cabea.
    - Anna e eu estvamos pensando em dar um mergulho na piscina antes do almoo. Algum mais est interessado?
    - Boa idia. - Daniel deu um jeito de empurrar um pouco mais com o p o cinzeiro que estava no cho - Gosta de nadar, menina?
    - Sim - respondeu Shelby - Mas no trouxe traje de banho.
    - Tem um armrio cheio no vestirio. - disse Serena - No ter problema em encontrar algum que sirva bem em voc.
    - Ah, sim? - desviou o olhar para Alan -  estupendo. Um armrio cheio.
    - Eu no lhe havia dito? - sorriu Alan, irnico - A piscina  uma boa idia. - ps as mos sobre seus ombros - Ainda no vi Shelby em traje de banho.
    
    
    Vinte minutos depois, Alan se encontrava relaxando na sauna, porm no com Shelby, mas sim em companhia de seu irmo e de Justin. Recostando-se no banco, deixando 
os msculos relaxarem, recordava o maravilhoso brilho de sua pele mida e suave quando fizeram amor na noite anterior...
    - Tem bom gosto. - comentou Caine, apoiando-se na parede de ladrilho - Devo reconhecer que me surpreendeu.
    - Ah, sim? - inquiriu Alan, abrindo os olhos.
    - Sua Shelby no pertence ao tipo de loira sofisticada, de corpo... interessante com o qual esteve saindo faz alguns meses. No teria durado nem cinco minutos 
com papai.
    - Shelby  especial.
    - No posso menos que respeitar algum que mal se senta numa mesa de pquer, consegue um Straight Flush. - acrescentou Justin enquanto deitava de costas no banco 
- Serena me disse que essa garota te convm.
    - Sempre  bom contar com a aprovao da famlia. - respondeu Alan secamente.
    Justin comeou a rir, cruzando os braos atrs da cabea.
    - Os MacGregor tem o costume de se intrometer nesse tipo de coisas.
    - Claro, fala por experincia prpria. - Caine afastou o cabelo mido da testa - Por enquanto, me alegro de que o velho esteja concentrando suas preocupaes 
em Alan. Isso d a Diana e a mim um pouco de sossego.
    - E eu que pensava que estaria ocupado com Rena e com seu futuro neto para se meter comigo tambm! - exclamou Alan.
    - Diabos, no ficar satisfeito at cair de joelhos ante um pequeno MacGregor ou Blade. - sorriu Caine - De fato, eu mesmo cheguei a pensar sobre isso...
    - Uma coisa  pensar a respeito e outra  engendrar outro hbrido de comanche e escocs. - respondeu Justin em tom indolente.
    - Diana e eu pensvamos em esperar primeiro para ver o que acontece com nosso sobrinho ou sobrinha.
    - O que se sente ante a expectativa de ser pai, Justin? - perguntou-lhe Alan.
    Justin ficou fitando o teto, recordando a primeira vez que sentiu algo se mover sob sua mo no interior da mulher que amava. Estremecedor. Inefvel. Viu outra 
vez Serena nua, grvida de seu filho, linda.
    - Voc fica aterrorizado.  obrigado a questionar toda a sua vida. Quanto mais deseja que chegue o momento, mais medo tem... e mais vontade tem de ver essa criatura, 
de saber como ser, com quem se parecer...
    - Comanche e escocs. Uma boa mistura. - declarou Caine.
    Justin riu entre dentes e fechou os olhos.
    - Ao que parece, Daniel pensa o mesmo a respeito dos Campbell. Vai se casar com ela, Alan?
    - Sim. Aqui. No outono.
    - Maldio, por que no nos disse isso antes? - protestou seu irmo Caine.
    - Porque Shelby ainda no sabe. - respondeu Alan em tom tranqilo - Pensei que seria mais prudente dizer a ela primeiro.
    - Mmmm. No me parece que seja uma mulher do tipo passivo, a qual tenham que dizer as coisas.
    - Muito observador. - comentou Alan com Justin - Mas eu j a pedi. Mais cedo ou mais tarde poderia me ver obrigado a mudar de ttica.
    - Ela te respondeu que no? - perguntou Caine, franzindo o cenho.
    - Meu Deus, s vezes voc se parece terrivelmente com Daniel. Shelby no me disse que no... nem tampouco que sim. Seu pai era o senador Robert Campbell.
    - Robert Campbell. - repetiu Caine em voz baixa - Oh, entendo. Suponho que tenha uma vivncia muito negativa de sua profisso. Seu pai estava fazendo campanha 
nas primrias quando o assassinaram, no ?
    - Isso mesmo. - Alan leu a tcita pergunta nos olhos de seu irmo - E sim, eu tambm quero me apresentar s eleies, quando chegar o momento. - dava-se conta 
de que era a primeira vez que dizia isso em voz alta. Oito anos no era tempo demais para se preparar para um caminho to longo e difcil. - Isso  outra coisa que 
Shelby e eu teremos que tratar. - acrescentou, suspirando.
    - Voc nasceu para isso, Alan. - declarou Justin, rotundo - No  algo a que possa renunciar.
    - No, mas preciso dela. E se tivesse que escolher...
    - Escolheria Shelby. - terminou Caine, entendendo perfeitamente o que significava encontrar a mulher, o amor de sua vida. - Mas o que me pergunto  se qualquer 
dos dois poder viver com uma deciso dessas nas costas.
    Alan permaneceu pensativo por um momento, e depois voltou a fechar os olhos.
    - No sei. - uma escolha como essa, tanto uma como a outra, o partiria fatalmente em dois.
    
    
    Na quarta-feira da semana seguinte, Shelby recebeu sua primeira chamada telefnica de Daniel MacGregor. Segurando a tigela de gua de Tia Emma numa das mos, 
pegou o telefone com a outra.
    - Shelby Campbell?
    - Sim. - esboou um sorriso - Ol, Daniel.
    - Fechou a loja por hoje?
    - Nas quartas costumo trabalhar no ateli. - disse enquanto trocava a tigela da papagaia - Mas sim, por hoje j est fechada. Como voc est?
    - Bem, bem, menina. Acho que darei uma olhada nessa sua loja da prxima vez que for a Washington.
    - Estupendo. - sentou-se no brao da poltrona - E suponho que comprar algo.
    - Talvez, - riu Daniel - se com as mos for to hbil como com a lngua. Olhe, a famlia MacGregor pretende passar o fim de semana do Quatro de Julho no Comanche 
de Atlantic City. - informou bruscamente - E eu, pessoalmente, pensei em convid-la.
    O Quatro de Julho, pensou Shelby. Fogos de artifcio, cachorros quentes e cerveja. Faltava menos de um ms... Como o tempo pudera passar to rpido? Queria imaginar 
a si mesma na praia com Alan, contemplando o espetculo de cores no cu. Ainda assim... seu futuro, o de ambos, era algo que ainda no podia ver.
    - Eu te agradeo, Daniel... Realmente gostaria de ir. - disse a si mesma que era sincera. Que no final fosse ou no, isso era outra questo.
    -  a mulher adequada para meu filho. - afirmou Daniel depois de ter percebido sua breve hesitao. - Jamais imaginei que algum dia poderia dizer isso de uma 
Campbell, mas  a verdade.  uma garota brilhante e forte. E sabe rir das coisas. Carrega um bom sangue escocs em suas veias, Shelby Campbell. Espero v-lo em meus 
netos.
    Com os olhos cheios de lagrimas, Shelby forou uma gargalhada.
    -  um manipulador, Daniel MacGregor.
    - J sei disso. Bem, nos veremos em Atlantic City.
    - Adeus, Daniel.
    Quando desligou, Shelby fechou os olhos com fora. No ia se pr a chorar nesse momento. Desde a primeira manh em que havia acordado nos braos de Alan, sempre 
soubera que s estava postergando o inevitvel. Adequada para ele? Daniel lhe havia dito isso, mas quem sabe s podia ver a superfcie dos fatos. No sabia o que 
retinha por dentro. Nem sequer Alan conseguia adivinhar quo profundo tinha arraigado aquele medo, to presente e vivo depois de todos os anos transcorridos.
    Caso se deixasse levar, ainda podia ouvir aquelas trs rpidas exploses: os trs tiros que acabaram com a vida de seu pai. E podia ver tambm o espasmo de surpresa 
de seu corpo, a maneira como caiu ao cho, sem vida, quase a seus ps. As pessoas gritando, correndo, chorando. O sangue de seu pai na saia de seu vestido. Algum 
que a ps de lado para chegar at ele. E Shelby havia ficado sentada no cho, sozinha. Tudo isso no havia durado mais que trinta segundos, porm havia sido toda 
uma vida.
    No precisara que lhe dissessem que seu pai estava morto, j que havia sentido como a vida escapava de seu ser. E do seu prprio.
    Bateram  porta. Tinha que ser Alan. Shelby dedicou um minuto inteiro a se assegurar de que as lagrimas estavam sob controle. At que, aspirando profundamente, 
foi abrir.
    - Ol, MacGregor. Ora, vejo que no trouxe comida. - comentou, arqueando uma sobrancelha - Que mal.
    - Pensei que isto poderia ser melhor. - respondeu Alan enquanto lhe entregava uma rosa vermelha, num tom idntico ao de seu cabelo.
    Um presente tradicional, pensou Shelby, tentando reagir com naturalidade, at com indiferena. Porm nada do que ele lhe oferecesse poderia nunca resultar-lhe 
indiferente. No momento de aceitar a rosa, compreendeu que se tratava de toda uma simbologia. Um homem srio e tradicional estava lhe presenteando uma parte muito 
sria de si mesmo.
    - Supe-se que uma s rosa  muito mais romntica que um buqu. - disse, esforando-se para no chorar. - Obrigada. - lanou os braos ao seu pescoo, beijando-o 
com uma paixo quase desesperada, que no podia contrastar mais com a ternura com que Alan lhe acariciava o cabelo - Te amo. - sussurrou, enterrando o rosto em seu 
ombro at que teve certeza de que as lgrimas haviam secado.
    Alan ps um dedo sob seu queixo para erguer-lhe a cabea, observando-a detidamente.
    - O que est acontecendo, Shelby?
    - Nada. - respondeu com uma pressa suspeita -  s que fico sentimental quando algum me d um presente. - viu que a tranqila intensidade do olhar de Alan no 
havia desaparecido, assim como tampouco o doloroso n de emoo que sentia por dentro - Faa amor comigo, Alan. - apertou o rosto contra o dele - Vamos agora mesmo 
para a cama.
    Ele a desejava. Shelby era capaz de despertar seu desejo com um simples olhar, mas Alan sabia que no era essa a resposta que nenhum dos dois precisava.
    - Vamos nos sentar.  hora de conversarmos.
    - Eu...
    - Shelby - segurou-a pelos ombros - J  hora.
    Teve que reconhecer que tinha razo. J o tinha feito esperar bastante, e sempre soubera que, cedo ou tarde, se cansaria. Assentindo com a cabea, se aproximou 
do sof.
    - Quer tomar um drinque?
    - No. - com uma mo sobre seu ombro, a fez sentar ao seu lado - Eu te amo. - afirmou com simplicidade - Sabe que eu te amo e que quero me casar com voc. No 
faz muito tempo que nos conhecemos - continuou enquanto Shelby guardava silncio - Se fosse uma mulher diferente, talvez pudesse me convencer de que precisa de tempo 
para ter certeza de seus sentimentos por mim. Mas voc no  uma mulher diferente.
    - Sabe que eu te amo, Alan. - interrompeu-o - Mas voc  uma pessoa lgica, e eu...
    - Shelby, sei que tem um problema com minha profisso. Eu compreendo, talvez no completamente, mas compreendo. Teremos que trabalhar a partir desse fato. - 
ao tomar-lhe as mos, percebeu sua tenso - Superaremos isso, Shelby. Da maneira que for, mas superaremos.
    Shelby no falava, apenas ficou olhando-o fixamente, como se j soubesse o que ia dizer-lhe em seguida.
    -  hora de lhe dizer que alguns dos principais membros do meu partido falaram comigo e que estou pensando seriamente me aspirar  presidncia. O processo durar 
quase uma dcada, porm a carreira pode comear logo.
    Shelby tinha sabido. Sempre soubera, porm o fato de ouvir de seus lbios fez com que os msculos de seu estmago se contrassem intensamente. Sentindo uma opresso 
cada vez maior nos pulmes, deixou escapar um profundo suspiro.
    - Se est pedindo minha opinio - conseguiu articular em tom tranqilo - no deveria pensar: deveria fazer isso.  algo que sempre desejou, Alan. Nasceu para 
isso. - aquelas palavras, mesmo enquanto as pronunciava, estavam-na destroando por dentro - No  uma simples questo de ambio ou poder. Tambm existiro as dificuldades, 
a tenso, a insuportvel responsabilidade... - se levantou do sof, certa de que se continuasse sentada um segundo mais, explodiria de emoo - Trata-se do destino. 
Isso  o que o destino decretou para voc.
    - Quem sabe. - observou-a andar de um lado para o outro da sala - Tem conscincia de que  algo mais que simplesmente escrever meu nome numa cdula. Quando chegar 
o momento, tudo isso significar uma longa e dura campanha eleitoral. Preciso de voc ao meu lado, Shelby.
    Shelby se deteve imediatamente, de costas para ele, e fechou os olhos com fora. Lutando para manter a compostura, voltou-se de repente.
    - No posso me casar com voc.
    Algo cintilou nos olhos de Alan. Se foi fria ou dor, Shelby no soube, porm quando falou o fez com voz clara e tranqila.
    - Por qu?
    Sua garganta tinha ficado to seca que nem sequer tinha certeza de poder lhe responder... Com esforo, engoliu saliva.
    - Voc  um apaixonado da lgica, portanto use-a. Eu no sou uma boa anfitri da poltica; no sou diplomtica, nem gosto de organizar nada. E isso  o que voc 
precisa.
    - Eu quero uma esposa. - retrucou Alan - No uma ajudante.
    - Maldio, Alan. Eu no seria de nenhuma utilidade para voc. Pior que isso. - com um gemido frustrado, continuou andando pela sala - Se tentasse me encaixar 
no molde, ficaria louca. Como poderia ser uma Primeira Dama, se nem sequer sou o que se chama de dama? - alfinetou - E, diabos, voc ganhar. Eu me encontraria encerrada 
na Casa Branca e tolhida pelas normas da elegncia e protocolo.
    - Est me dizendo que se casaria comigo se decidisse no aspirar  presidncia?
    Shelby sacudiu a cabea, com um brilho de desespero nos olhos.
    - No faa isso comigo. Voc me odiaria... eu odiaria a mim mesma. No se trata de escolher entre o que voc  e eu, Alan.
    - Claro que sim. - desafiou-a. De repente, a fria que estivera contendo explodiu em liberdade - Claro que se trata de escolher. - levantou-se do sof para agarr-la 
pelos braos - Acha que pode me expulsar assim da sua vida, sem mais nem menos, com um simples "no", e isso sabendo que me ama? Do que pensa que sou feito?
    - No posso fazer mais nada. - objetou, veemente - Eu no lhe conviria, Alan; tem que se dar conta disso.
    - No minta para mim, nem se refugie em desculpas. Se vai me dar as costas, faa isso com a verdade na boca.
    Shelby j no agentava mais; teria cado no cho se ele no a estivesse segurando.
    - No posso suportar. - lgrimas de dor lhe corriam pelo rosto - No poderia voltar a passar por tudo isso, Alan. No poderia voltar a esperar que um dia algum... 
- explodiu em soluos - Oh, Deus, por favor, no... Eu no queria am-lo assim; no queria que voc fosse to importante para mim que pudesse perder tudo outra vez. 
J estou vendo: toda essa gente se aglomerando, todos esses rostos, esse barulho... Uma vez vi algum a quem amava morrer diante de meus olhos, e no posso suportar 
isso de novo. No posso, no posso!
    Alan a estreitou entre seus braos, desesperado para consol-la, para tranqiliz-la. Que palavras poderia utilizar para lutar contra um medo e uma dor to imensos? 
Ali no havia lugar algum para a lgica, a anlise e o raciocnio. Se era a intensidade de seu prprio amor o que nutria seu medo... Como poderia pedir-lhe que mudasse?
    - Shelby, no. No aspirarei ...
    - No! - interrompeu-o, libertando-se - No diga isso. No diga isso! Por favor, Alan, j no agento mais. Tem que ser o que voc , e eu tambm. Se tentssemos 
mudar, j no seramos as mesmas pessoas que um dia se apaixonaram.
    - No estou pedindo que mude. - respondeu Alan, sentindo que sua pacincia estava se esgotando de novo - S estou pedindo que tenha f em mim.
    - Me pede demais! Por favor, deixe-me sozinha. - e antes que ele pudesse dizer algo, correu para se trancar em seu quarto.
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    CAPTULO XII
    
    O Maine era lindo em junho: verde e exuberante. Shelby dirigia pela estrada costeira, com a mente em branco. Atravs das janelas abertas podia ouvir o estrondo 
da gua chocando-se contra as rochas. Paixo, fria, dor; aquele som expressava tudo isso. O mesmo que ela estava sentindo.
    De quando em quando via leitos de flores silvestres junto  estrada, pequenos botes capazes de resistir ao aoite do vento e do sal. O terreno era proeminentemente 
rochoso, desgastado pela eterna batida das ondas que se avistavam ali perto. O ar era fresco e limpo. O vero, que em Washington havia sucedido to rapidamente  
primavera, estava demorando a chegar naquela comarca do norte. E Shelby precisava se aferrar  primavera.
    Distinguiu o farol no final de um pequeno cabo que adentrava arrogante no mar, e se obrigou a relaxar. Quem sabe pudesse encontrar ali a mesma paz de esprito 
que seu irmo havia se empenhado tanto em conseguir.
    Estava amanhecendo. Quando seu avio aterrissou, ainda era noite. Podia ver o sol se levantar, tingindo o mar de cores enquanto as gaivotas sobrevoavam as rochas, 
a areia, a gua, emitindo seu triste e solitrio grito. Shelby sacudiu a cabea. No, no pensaria na tristeza, nem na solido. No pensaria em nada.
    A praia estava deserta e soprava uma leve brisa quando desceu do carro. O farol se destacava  como uma torre redonda e branca, solitria e desafiante frente 
aos elementos. Talvez estivesse um pouco velho e deteriorado, mas ainda conservava um estranho poder que tinha algo de irreal. Para Shelby pareceu um bom lugar para 
se refugiar de uma tormenta.
    Tirou sua bolsa de viagem do bagageiro e se aproximou da porta do farol. Sabia que estaria fechada. Golpeou a porta de madeira com o punho, perguntando-se quanto 
tempo Grant demoraria ignorando suas batidas, at que se decidisse a responder. A ouviria, disso tinha certeza, pois Grant ouvia tudo. Assim como via tudo. O fato 
de ter se isolado do resto da humanidade no pudera mudar isso.
    Shelby bateu de novo enquanto contemplava a sada do sol. Transcorreram mais de cinco minutos antes que a porta se abrisse.
    Pela ensima vez pensou no quanto seu irmo se parecia com seu pai: moreno, de olhar inteligente, traos duros. Seus olhos, de um verde profundo, ainda estavam 
nublados pelo sono. Estava despenteado. Usava o cabelo longo demais, precisado de um bom corte.
    Grant a encarou com o cenho franzido, passando uma mo pelo queixo com a barba por fazer.
    - Que diabos est fazendo aqui?
    - As tpicas palavras de boas vindas de Grant Campbell. - se ergueu na ponta dos ps para dar-lhe um beijo.
    - Que horas so?
    - Cedo.
    Praguejando entre dentes, ficou de lado para deix-la passar. Por um instante apoiou-se na porta, desorientado, com os polegares no cs de seu jeans, nica pea 
de roupa que usava. Depois a seguiu pela ngreme escada de madeira at onde tinha sua moradia.
    Uma vez em cima, pegou sua irm pelos ombros e a observou detidamente, com uma intensidade a qual ela nunca chegara a se acostumar. Shelby suportou estoicamente 
seu escrutnio, com um meio sorriso nos lbios e profundas olheiras que no podiam passar-lhe despercebidas.
    - Que est acontecendo? O que vai mal? - perguntou Grant em tom brusco.
    - Mal? - deu de ombros enquanto deixava sua bolsa de viagem sobre uma cadeira - Por que algo tem que ir mal para que te faa uma visita? - voltou-se para olh-lo, 
percebendo que no havia engordado nada. Continuava to delgado e enxuto como sempre, mas ainda assim, como a casa na qual vivia, parecia projetar uma fora primria, 
bsica. Uma fora da qual Shelby estava precisando muito - No vai preparar o caf?
    - Sim. - Grant atravessou a sala para ir at a cozinha, limpa e bem organizada - Quer comer algo?
    - Sempre.
    Soltando o que poderia ter sido uma breve risada, tirou umas tiras de bacon da geladeira.
    - Est muito magrela, irmzinha.
    - Voc tampouco est precisamente muito gordo.
    - Como mame est?
    - Maravilhosamente. Acho que vai se casar com o francs.
    - Dilleneau, o das orelhas grandes e mente cautelosa e reservada.
    - O prprio. - Shelby se deixou cair numa cadeira em frente  mesa redonda de carvalho, enquanto seu irmo fritava o bacon - Vai imortaliz-lo em alguma de suas 
histrias?
    - Depende - lanou-lhe um sorriso malicioso - Suponho que mame no se surpreenderia de encontr-lo num texto meu.
    - Mais que surpresa, se sentiria encantada... - se interrompeu, dando de ombros - Sabe? Gostaria que alguma vez lhe fizesse uma visita.
    - Quem sabe. - Grant serviu o prato de bacon na mesa.
    Shelby se levantou para pegar pratos e xcaras enquanto seu irmo quebrava vrios ovos numa frigideira.
    - Eu prefiro mexidos. Vem muitos turistas por aqui nesta poca do ano?
    - No.
    O monosslabo soou to rotundo e definitivo que Shelby esteve a ponto de comear a rir.
    - Sempre enche seu terreno de minas e arame farpado. Me surpreende que um homem como voc, que conhece to bem as pessoas, as odeie tanto.
    - Eu no odeio as pessoas. - deixou o prato de ovos na mesa - Acontece que no as quero por perto. - sem nenhuma cerimnia, sentou-se e comeou a se servir. 
Comeu. E sua irm fingiu que comia - Como vo seus companheiros de apartamento?
    - Vivem num perodo de coexistncia pacfica. - respondeu - Kyle est se ocupando deles durante minha ausncia.
    Grant a olhou por cima da borda de sua xcara de caf.
    - Quanto tempo vai ficar?
    Dessa vez Shelby no conseguiu se reprimir e soltou uma risada.
    - Sempre to gentil. Alguns dias... no mais que uma semana. No, por favor. - estendeu uma mo, com a palma erguida - No me suplique que estenda minha visita. 
No posso ficar mais tempo. - no fundo sabia que, apesar de suas reclamaes, lhe abriria sua casa durante todo o tempo que fosse necessrio.
    Grant terminou de comer o ltimo ovo.
    - Ok, assim poder ir ao povoado buscar provises enquanto estiver aqui.
    - Sempre a sua disposio. - murmurou Shelby - Como se vira para receber os principais jornais do pas num lugar to isolado?
    - Pagando. - respondeu lacnico - Pensam que sou um tipo excntrico.
    - Voc  excntrico.
    - Pois ento. E agora... - afastou seu prato para o lado e apoiou os cotovelos na mesa - Por que veio, Shelby?
    - S queria me desligar por alguns dias. - comeou a explicar, apenas para ser interrompida por uma nova imprecao. Porm, em vez de retrucar com uma piada 
ou com uma exclamao do mesmo tipo, baixou seu olhar para seu prato e sussurrou - Tinha que faz-lo. Grant, minha vida  um desastre.
    - E qual no ? - perguntou, mas em seguida deslizou um dedo sob seu queixo para obrig-la a erguer a cabea - No faa isso, Shelby. - murmurou ao ver que seus 
olhos brilhavam - Respire profundamente e fale-me disso.
    Shelby soltou um profundo e trmulo suspiro, lutando para controlar as lgrimas.
    - Estou apaixonada e no deveria estar, e ele quer se casar comigo e eu no.
    - Ah, sim. Alan MacGregor. - quando sua irm o olhou assombrada, negou com a cabea - No, ningum me contou. Eu a vi com ele nos jornais pelo menos uma dzia 
de vezes no ltimo ms.
    -  uma grande pessoa. - afirmou Shelby - Um homem ilustre, qui. Uma personalidade.
    - E ento? Qual  o problema?
    - Que eu no quero amar uma personalidade. - confessou, alterada - No quero me casar com uma.
    Grant se levantou para pegar a cafeteira e voltar a encher as xcaras. Depois se sentou, empurrando o leite para Shelby.
    - Por qu?
    - No quero voltar a passar por aquilo, Grant.
    - A que se refere?
    - Maldio, no se faa de tolo. - fulminou-o com o olhar.
    Tranquilamente Grant tomou um gole de caf, satisfeito com sua reao.
    - Ouvi rumores de que, mais cedo ou mais tarde, o senador poderia aspirar  presidncia. Quem sabe mais cedo do que o esperado.
    - Pois ouviu bem, como sempre.
    - No gostaria de brilhar num de seus maravilhosos vestidos no Smithsonian, Shelby?
    - Sempre teve um senso de humor muito estranho, Grant. Ou melhor, um humor negro.
    - Obrigado.
    Desgostosa, colocou seu prato de lado.
    - No quero estar apaixonada por um senador.
    - Voc est? Ou  por um homem que est apaixonada?
    -  a mesma coisa!
    - No, no . Voc, melhor que ningum, deveria saber disso.
    - No posso me arriscar! - exclamou Shelby com veemncia - Simplesmente no posso. Ele ganhar, Grant, se  que viva o suficiente. No posso suportar isso... 
as possibilidades...
    - Voc e suas possibilidades. - a espetou. A recordao lhe doa, porm a evitou - Est bem, consideremos algumas. A primeira: voc o ama?
    - Sim, sim, eu o amo. Maldio, j lhe disse isso.
    - Quanto significa para voc?
    Shelby passou ambas as mos pelo cabelo.
    - Tudo.
    - Ento, se aspira  presidncia e algo lhe acontece... - se interrompeu ao ver que ficava plida - Sofreria menos usando uma aliana de casamento em seu dedo 
do que no usando?
    - No - levou uma mo  boca - No faa isso, Grant.
    - Tem que viver com isso. - disse com voz spera - Ambos temos que viver com isso, carregando em nossas costas. Eu tambm estava l, e no esqueci nada. Vai 
se fechar para a vida por algo que aconteceu faz quinze anos?
    - E voc?
    Aquele era um golpe direto demais, porm no o reconheceu abertamente.
    - No estamos falando de mim. Consideremos outra de suas possibilidades, Shelby. Suponhamos que ele te ama o suficiente para renunciar a sua carreira por voc.
    - Eu desprezaria a mim mesma.
    - Exato. E agora, a ltima. Suponhamos... - pela primeira vez, segurou-lhe a mo e entrelaou os dedos com os seus - ... que se apresenta s eleies, as vence 
e alcana uma venervel idade escrevendo memrias, ou viajando por todo o mundo como diplomata, ou jogando xadrez no ensolarado alpendre de sua casa. Imagine-o vivendo 
cinqenta anos sem voc. No se sentiria nada bem, no ?
    - Tem razo. - suspirou - Mas...
    - Nada de "mais" - a interrompeu - Claro, existem vrios milhes de outras possibilidades diferentes. Pode ser atropelado por um carro ao atravessar a rua... 
ou voc tambm. Pode perder as eleies e se transformar em missionrio, ou at em apresentador dos noticirios das seis.
    - Est bem. - Shelby apoiou a testa em suas mos entrelaadas - Ningum como voc para fazer eu me sentir uma estpida.
    -  um dos meus menores talentos. Oua: d uma volta pela praia e areje a cabea. Quando voltar, coma algo e depois durma durante doze horas seguidas, porque 
est de dar pena. Depois... - esperou que ela levantasse a cabea para sorrir-lhe - ... v para casa. Tenho trabalho.
    - Voc  um nojento, mas eu te amo.
    -  - esboou um de seus fugazes sorrisos - Eu tambm.
    
    
    Alan sabia que sua casa estava vazia e solitria demais, porm no queria ir a nenhuma outra parte. Tinha se obrigado a conceder a Shelby um dia inteiro, e quase 
enlouqueceu quando na sexta-feira descobriu que ela havia desaparecido. Vinte e quatro horas depois, ainda continuava tentando raciocinar consigo mesmo. Shelby tinha 
o direito de partir quando e para onde quisesse, sem lhe dar explicaes. Se havia decidido sair por alguns dias, ele no tinha o direito de se aborrecer, e menos 
ainda de se preocupar. Levantou-se de sua escrivaninha e comeou a andar pelo escritrio, nervoso. Onde poderia estar? Quanto tempo pretendia ficar fora? Por que 
no o avisara? Frustrado, enfiou as mos nos bolsos. Sempre tinha sido capaz de encontrar a maneira de resolver qualquer problema. Se uma soluo no funcionava, 
tentava com outra, at que encontrasse alguma vivel. Era s uma questo de tempo e pacincia. Mas j no tinha mais pacincia. Estava sofrendo como nunca pensara 
que poderia sofrer. Quando a encontrasse, a... "O qu?", se pergunto. Gritaria com ela, suplicaria, rogaria? Que mais lhe restava fazer? Sem Shelby, estaria sempre 
incompleto. Tinha lhe arrebatado algo de seu prprio ser, pensou furioso. No: ele lhe havia entregado voluntariamente, embora ela tivesse se mostrado resistente 
em aceitar o amor que tinha lhe oferecido. E j no podia recuper-lo, mesmo que desaparecesse completamente de sua vida. E era capaz disso, refletiu com uma sbita 
pontada de pnico. Shelby podia fazer as malas e desaparecer sem deixar um s rastro para trs. Ora, se podia! Fitou pela ensima vez o telefone, franzindo o cenho. 
A encontraria. Primeiro a encontraria. Depois resolveria seus problemas com ela, de uma forma ou de outra. Comearia ligando para sua me, e depois falaria com cada 
um de seus amigos e amigas. J estava com o telefone na mo quando soltou uma risada amarga. Tratando-se de Shelby, teria que ficar a semana inteira grudado ao telefone. 
Antes que pudesse discar, a campainha da porta tocou. Alan deixou tocar trs vezes, at que lembrou que McGee estava na Esccia. Praguejando entre dentes, desligou 
o telefone e foi abrir a porta. O mensageiro lhe sorriu.
    - Uma encomenda para o senhor, senador. - anunciou em tom alegre, enquanto lhe entregava uma bolsa de plstico transparente. Sem deixar de olhar para a bolsa 
que segurava na mo, Alan fechou a porta. Estava cheia de gua, e nela se debatia freneticamente uma carpa laranja brilhante. Entrou lentamente na sala, estudando 
com expresso receosa aquele presente. O que se supunha que ia fazer com isso? Um pouco incomodado por aquela interrupo, pegou um grande vaso e verteu o contedo 
da bolsa. S ento leu o carto preso a ela. "Senador: Se voc pode viver num aqurio, a vista de todos, eu tambm".
     
    Depois de ler aquela frase trs vezes, Alan fechou os olhos. Ela tinha regressado. Deixou cair o carto enquanto se voltava para a porta. A campainha tocou quando 
j a estava abrindo.
    - Ol. - sorriu Shelby - Posso entrar?
    Ansiava abra-la, estreit-la entre seus braos, ret-la para ter certeza de que no voltaria a escapar. Mas sabia que no era essa a maneira de conserv-la 
ao seu lado.
    - Claro. - ficou de lado para deix-la passar - Voc esteve fora.
    - Oh, foi apenas uma rpida peregrinao. - enfiou as mos nos largos bolsos da jardineira jeans que usava. Notou que parecia cansado, como se mal tivesse dormido. 
Ardia de desejo de acariciar-lhe o rosto, porm se conteve.
    - Entre e sente-se. - levou-a at a sala - McGee est fora. Posso fazer um caf.
    - Oh, eu no quero. - Shelby andou pelo aposento. Por onde comear? Que ia lhe dizer? Todos os discursos racionais ou apaixonados que havia elaborado mentalmente 
pareciam abandon-la. Viu que Alan tinha colocado a crtera que ela lhe presenteara perto da janela, para que recebesse a luz do sol. Olhou-a fixamente - Suponho 
que deveria comear pedindo-lhe desculpas por... meu comportamento do outro dia.
    - Por que teria que me pedir desculpas?
    - Porque odeio chorar. Teria preferido xingar, ou dar um chute em algo. - sentia-se terrivelmente nervosa por dentro; isso era algo que no tinha esperado, e 
que a firme e tranqila expresso de Alan tampouco contribua para aliviar - Est aborrecido comigo.
    - No.
    - Estava. - continuou andando inquieta pela sala - Tem todo o direito de estar, eu... - se interrompeu ao descobrir a carpa nadando em crculos no interior do 
grande vaso - Ora, j voltou  vida. - comentou, rindo - Embora no eu no ache que seja muito consciente disso. Alan - dessa vez, quando se voltou para olh-lo, 
uma expresso inquisitiva, vulnervel e desesperada apareceu em seus olhos - Voc ainda me quer? Eu estraguei tudo?
    Alan disse a si mesmo que naquele momento poderia lanar-se em seus braos, aceit-la segundo seus prprios termos, ou os dele, o que fosse. Porm queria mais. 
Muito mais.
    - Por que mudou de idia?
    Shelby foi at ele e segurou-lhe as mos.
    - Isso importa?
    - Sim, importa. - Alan soltou-lhe as mos, porm apenas para embarcar-lhe o rosto com as suas. Seus olhos tinham aquele olhar solene e profundo que ainda era 
capaz de derret-la por dentro - Tenho que me assegurar de que ser feliz, de que ter o que quer, de que poder viver com isso. Tenho que saber isso.
    - Est bem. - Shelby ergueu as mos at seus pulsos, retendo-os por um instante antes de se afastar - Analisei as diferentes possibilidades que existiam. - comeou 
- No gostei de todas, porm a que mais odiei foi a de passar a vida toda sem voc. No vai jogar xadrez sem mim, MacGregor. 
    - No? - arqueou as sobrancelhas.
    - No - riu novamente, ainda insegura - Case-se comigo, Alan. Nem sempre estarei de acordo com voc, porm tentarei ter algum tato... s vezes. No encabearei 
nenhum comit, e s irei a jantares e festas de gala se no tiver outro remdio: meu prprio trabalho me servir de desculpa para isso. Tampouco organizarei festas 
do tipo convencional, mas sim interessantes e divertidas, em todo caso. 
    Alan no tinha acreditado que pudesse am-la mais do que j a amava. Enganara-se.
    - Shelby, escute, poderia voltar  advocacia, abrir um escritrio aqui em Georgetown, e...
    - No! No, maldio, no vai voltar  advocacia, nem por mim nem por ningum! Eu estava errada. Amava meu pai, o adorava, mas no posso permitir que o que aconteceu 
a ele domine o resto da minha vida... ou da sua. - se deteve, precisando controlar sua voz para se tranqilizar novamente - No estou mudando por voc, Alan. No 
posso. Mas posso fazer o que voc me pediu e tenho f em voc. - sacudiu a cabea antes que ele pudesse falar - No vou fingir que no me sentirei aterrorizada, 
ou que no haver aspectos da vida que levarmos que no odeie profundamente. Mas me sentirei orgulhosa do que fizer. - j mais tranqila, acrescentou - Estou orgulhosa 
de voc. E se ainda continuo tendo algum drago contra o qual lutar, Alan, eu o farei.
    - Comigo? - se aproximou para abra-la.
    - Sempre. - suspirou, aliviada.
    Naquele exato instante Alan a beijou nos lbios com uma nsia s comparvel  sua. Com a sensao de que haviam passado anos,  e no dias, desde a ltima vez 
que a tinha beijado, a fez deitar-se no tapete, ao seu lado.
    No restava pacincia alguma a nenhum deles: apenas desejo e necessidade. Alan praguejava entre dentes, lutando com os colchetes e zperes de sua jardineira 
at que Shelby, rindo, se colocou em cima dele e comeou a deslizar os lbios por seu peito nu.
    Quando por fim ambos ficaram livres da barreira das roupas, Alan pde devor-la  vontade. No silncio reinante, s se ouviam gemidos e murmrios ofegantes. 
Uma vez mais enterrou o rosto em seus cabelos para absorver sua fragrncia, para deixar-se absorver por ela, enquanto Shelby o guiava at seu interior.
    A partir de ento no existiu mais que o inefvel, desesperado gozo da fuso de seus corpos.
    A tarde j ia muito avanada quando Shelby comeou a se espreguiar. Jaziam no sof abraados, nus, adormecidos. Sobre a mesa mais prxima havia uma garrafa 
de vinho, ao seu alcance.
    Ao abrir os olhos viu que Alan continuava dormindo; seu rosto relaxado, sua respirao regular. Outra vez Shelby voltava a sentir aquela satisfao. A simples 
e ntima satisfao que experimentava cada vez que se refugiava em seus braos.
    Erguendo a cabea, continuou observando-o at que ele tambm despertou. Com um sorriso, inclinou-se para acariciar-lhe os lbios com os seus.
    - No posso lembrar de ter passado um sbado to... agradvel. - comentou, suspirando.
    - Visto que no tenho a inteno de me mover pelo menos por vinte e quatro horas, acho que a expresso poderia acabar extensvel ao domingo tambm.
    - Acho que vou adorar. No gosto de ser insistente, senador, mas... quando vai se casar comigo?
    - Tinha pensado em setembro, em Hyannis Port.
    - A fortaleza dos MacGregor. Porm at setembro ainda faltam dois meses e meio.
    - At ento voc e seus companheiros de apartamento poderiam se mudar para c, ou poderamos at comear a procurar outra casa. Gostaria de passar a lua de mel 
na Esccia?
    - Sim. - se aconchegou em seu colo -  claro... - disse lentamente enquanto deslizava as mos at sua cintura - ... queria lhe dizer que sou plenamente a favor 
de uma de suas polticas domsticas, senador.
    - Ah, sim?
    - Voc tem... - capturou seu lbio inferior com os dentes - ... todo o meu apoio. Eu estava me perguntando se poderia... me mostrar mais uma vez esse trmite 
no qual  to bom.
    - J sabe que considero um dever cvico satisfazer os desejos de meus concidados...
    
    
    FIM
Todas as Possibilidades                Nora Roberts

        Traduzido e Revisado por Virginia                 1
